Homem e mulher os criou. Para a glória de Deus os criou!

Uma das coisas boas das minhas viagens é quando deixo as capitais, os hotéis e igrejas urbanas e me meto pelas estradas toscas que levam ao interior, rumo às comunidades humanas mais escondidas. Dessas experiências trago memórias significativas. Mais de uma vez, visitando comunidades do interior da África, vi mulheres caminhando pelas estradas com pesados fardos nas costas ou na cabeça — a lata d’água, a lenha para o fogo, o alimento para o gado, o fruto da pequena colheita — e ainda arrastando pela mão um dos seus muitos filhos. Minha pergunta “Por que há tantas mulheres envolvidas em serviço tão pesado?” sempre recebe a mesma resposta: “É que aqui na África a mulher cuida da casa, dos filhos, do gado e do campo”. “E os homens, onde estão?” é a próxima e inevitável pergunta, que também tem resposta pronta: “Eles vão à cidade à procura de trabalho…” Às vezes encontram; às vezes, não. Às vezes só encontram outros homens ocupados na mesma procura; ou então o copo no bar, ou o vírus da aids, numa escapada sexual.

Esta experiência não quer discriminar a África, mas chamar atenção para uma realidade de desigualdade entre o gênero humano e apontar para a discriminação da mulher. O fato é que é mais fácil enxergar uma realidade injusta no outro do que em nós mesmos. Mas isso não significa que não sejamos culpados das mesmas injustiças e discriminações, que os africanos podem ver em nós com mais facilidade.

Entre os Objetivos do Milênio, que vimos abordando nesta série, o terceiro é Igualdade entre os sexos e valorização da mulher. Ele acusa a forma injusta como a mulher é tratada desde menina. Não é à toa que dois terços dos analfabetos do mundo são mulheres e 80% dos refugiados são mulheres e crianças. Isso significa não apenas que os meninos vestem uniformes e vão para escola, enquanto as meninas ficam em casa para ajudar a mãe, mas também que, na escassez de alimento, elas recebem menos comida que os meninos, que “precisam se alimentar melhor”.

O Brasil caminha bem no alcance deste objetivo, e as meninas aqui já são maioria nos ensinos fundamental, médio e superior. Onde a dificuldade se registra, entre nós, é no mercado de trabalho. Mesmo estudando mais, elas são menosprezadas no mercado e nas relações sociais, o que se expressa nos salários. As mulheres brancas ganham, em média, 20,5% menos do que os homens brancos, enquanto as negras recebem 19,4% menos do que os homens negros e 61,2% menos do que os homens brancos. Outra dificuldade se evidencia no comportamento machista, que vê a mulher como objeto, bem como na violência sexual e doméstica.

Surpreendente, então, é o jeito tão desajeitado como vivenciamos os princípios da fé cristã! Sempre se pode perceber, no decorrer da história da igreja, como a fé pode ser instrumentalizada de forma ideológica e interesseira. Assim, muitas vezes os homens usam os textos bíblicos para oprimir as mulheres; e as igrejas agem de igual forma para discriminá-las. Dizemos que “na minha casa mulher é submissa” e que “na minha igreja mulher não decide”, arrogando-nos a autoridade de fiéis intérpretes do legado bíblico. Mas, na verdade, isso demonstra que não aprendemos nem a ler, nem a vivenciar a Escritura. Toda lógica bíblica precisa ser marcada pela dupla afirmação de que “homem e mulher os criou” e “para a glória de Deus os criou”. Deus valoriza o que ele cria, e cria comunidade de iguais. Diferentes, mas iguais. Portanto, a nossa vivência de fé deve ser marcada por esses princípios. Não podemos ler a Bíblia para justificar nossos interesses, práticas, discriminações e injustiças. Precisamos ler a Bíblia para nos converter a Deus e uns aos outros e para construir uma sociedade de iguais e uma comunidade de adoração a Deus.

É claro que a Bíblia não usa categorias e linguagem do nosso tempo, nem podemos interpretá-la desde a perspectiva dos valores da nossa sociedade. A Bíblia reflete, dialoga, afirma e critica a sociedade e os valores do seu tempo, na perspectiva de quem Deus é e do que ele deseja para nós como pessoas, como comunidade humana e como humanidade criada por Deus. Fomos criados para adorá-lo, para viver em comunidade e para exercer uma cidadania fiel à própria natureza, com seus recursos e possibilidades. Assim, junto com o desafio do milênio de se construir uma sociedade sem desigualdades injustas e sem discriminação de gênero, a Bíblia quer afirmar a criação humana e a identidade com autonomia e liberdade, tanto do homem como da mulher, e denunciar estruturas e desigualdades injustas e a discriminação, tanto do homem como da mulher — ainda que isto aconteça dentro da igreja.

É lamentável que, em tantos momentos na história e mesmo no contexto atual, a Bíblia tenha sido usada e a fé, instrumentalizada, para gerar ou perpetuar estruturas de discriminação entre os seres humanos criados por Deus. Este uso da Palavra de Deus não o honra nem dignifica a sua criação. Mas celebramos e afirmamos aqueles momentos e contextos em que a fé cristã, inspirada nas Sagradas Escrituras, fomentou vida, dignidade, liberdade e igualdade entre os seres humanos e para a glória de Deus. É assim que ele gosta!

• Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores… e Outras Crônicas.

http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/309/homem-e-mulher-os-criou-para-a-gloria-de-deus-os-criou

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