A arte dos relacionamentos

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por Artigo compilado

Não existem relacionamentos perfeitos. Eles são construídos e dependentes da experiência, maturidade e sabedoria da pessoa em interpretar e corrigir as experiências afetivas negativas (Pv 15:31), transformando-as em lições positivas para que não se repita os erros cometidos (Pv 9:9; 13:16). É preciso educar as emoções para conviver com as diferenças e não responder o agravo com outro (Pv 15:1, 18, 23). Isto não ocorre de um dia para o outro, mas é um processo que perdura por toda vida.

Relacionamentos saudáveis e afetividade (Jo 13:34)

O homem é um ser em construção. Ele não nasce pronto, acabado, mas do início ao fim da vida está em permanente desenvolvimento de sua personalidade, talentos, habilidades e relacionamentos (Sl 103:14-16). O homem não é apenas capaz de aprender, como também em desaprender, adquirir novos hábitos e caminhar rumo à maturidade (Ec 3:1-7). Ele cria e recria a si mesmo.

A construção do sujeito não é um processo retilíneo, mas repleto de serpenteados, de rupturas e retomadas de rumo, como afirma Ec 3. Ele cresce no cultivo da vida social e deve ser sábio para distinguir os relacionamentos bons dos maus, as boas companhias das más, as interações frutíferas das frívolas e assim sucessivamente (Pv 13:20; 14:8). É no encontro dos vários afluentes da vida social, espiritual e afetiva que a vida e a identidade do sujeito são construídas. Ele tanto exerce quanto sofre influências e deve proceder de tal modo que as influências negativas não modifiquem seu comportamento e suas escolhas cristãs (Pv 14:33; 1ªCo 13:11). O homem deve ser bom apesar de toda lama que o cerca (Pv 4:20-27; 16:2; 21:21).

Entendendo as interações humanas como parte de um processo necessário à construção do sujeito, e que esse desenvolvimento não ocorre exatamente como fórmulas matemáticas, mas se trata de uma construção social na qual o indivíduo se constitui e prossegue se constituindo, a pessoa é responsável por aquilo que cultiva e pelas escolhas que faz ao longo do caminho (Pv 16:9; 22:24-26). Nessa lida, a educação dos sentimentos desenvolvidos nas interações sociais na infância e adolescência são muito significativas para a nova fase da vida adulta, a qual o jovem, por exemplo, já se encontra no limiar. Cabe bem uma parte da poesia de Rudyard Kipling (Citado por Júlio Schwantes, em Colunas do Caráter):
“Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes, e, entre reis, não perder a naturalidade, e de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes, se a todos podes ser de alguma utilidade, e se és capaz de dar, segundo por segundo, ao minuto fatal todo valor e brilho, tua é a terra com tudo o que existe no mundo, e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!.”

Relacionamentos doentios e o ser

O desenvolvimento integral do homem não deve ser fragmentado na imatura linguagem teológica da dicotomia ou tricotomia (Lc 2:52; 1ªTs 5:23; Hb 4:12) ou mesmo nas expressões da psicologia (motor, afetivo, cognitivo, social), como se o crescimento afetivo saudável ou doentio se manifestasse em uma das partes sem afetar ou ter relação com o todo. O ser humano se desenvolve numa totalidade e cada uma das dimensões que o compõe é afetada como também influencia umas às outras. No exemplo de Saul, o primeiro a ser prejudicado foi o próprio rei que, tomado de profunda inveja e ira (Pv 14:17, 30), não teve maturidade para resolver seus dilemas e conflitos, vindo a cometer suicídio (1ªSm 31:1-6). O desgaste emocional de Saul (1ªSm 18:7-9) teria sido evitado se ele dominasse a si próprio (Pv 30:33; 25:28; Gl 5:23).

A falta de maturidade afetiva de Saul levou-o a se ocupar em destruir a Davi (1ªSm 18:7-15; 19:1-11). Ele tinha família, um reino e exércitos para cuidar, no entanto, ignorou todas as suas responsabilidades como pai, rei e comandante para perseguir o músico de Javé (1ªSm 18:10). Saul estabeleceu para si um objetivo vil que afetou e prejudicou toda sua vida emocional, social e espiritual. Sua energia e vida foram drenadas por sentimentos doentios que levaram-no à amargura e mais tarde ao suicídio. Cultivar a ira, a vingança, a mágoa, entre outras emoções e sentimentos ruins prejudica a totalidade da vida humana. A força dessas emoções não pode ser subestimada e negligenciada por qualquer pessoa. Elas sobrepõem-se a razão e influenciam profunda e completamente o comportamento do indivíduo, sem que ele próprio atine para isso. De pouco adianta a oração, a leitura das Escrituras e o aconselhamento se a pessoa não tomar a decisão de perdoar o suposto ofensor (Mt 5:44; 6:12; Ef 4:32), deixar a ira, abandonar o furor e não procurar a vingança (Sl 37:8). Para vencer tais emoções e sentimentos destrutivos o salmista aconselha: “não te indignes para fazer o mal”, “não tenhas inveja dos que praticam a iniquidade”, “deixa a ira”, “abandona o furor” (Sl 37:1,7,8). Proibi-los não é suficiente, segundo Davi, que tanto sofreu injustiças, é necessário assumir uma nova postura: “confia no Senhor”, “faze o bem”, “deleita-te no Senhor”, “descansa no Senhor e espera nele” (vv. 3-7).

Sentir raiva, inveja, ciúmes entre outros sentimentos que afetam a vida psicossocial do homem, embora não desejável, faz parte da vida humana e da aprendizagem afetiva a qual o homem está trilhando e são descritos na Bíblia como pecado (Gl 5). Todavia, é necessário dominar e refrear tais sentimentos e impulsos (Pv 25:38; At 24:25). Caim (Gn 4:8-15), Saul (1ªSm 18:7-15) e Sansão (Jz 14) são exemplos de pessoas que se deixaram levar por sentimentos que destruíram suas vidas. Leia a recomendação de Deus a Caim (Gn 4:7). Afirmou Júlio Schwantes, em Colunas do Caráter: “O domínio-próprio é uma conquista diária, em que as pequenas vitórias de hoje preparam as vitórias maiores de amanhã”. Deste modo, afirmo que a verdadeira grandeza do homem é medida pela força dos sentimentos que ele domina, e não pelos sentimentos que o dominam.

Construção de bons relacionamentos

Para compreender a base dos bons e dos maus relacionamentos é preciso entender a construção do próprio sujeito em seus diversos níveis: social, cultural, religioso. As interações sociais são construídas com base nos valores advindos da experiência de vida e formação da personalidade e caráter das pessoas. Nisto, a educação familiar como também a sociedade pode interferir positiva ou negativamente na construção ou não de relacionamentos maduros (Pv 23:13; 20:11; 29:15). Todavia, isso não significa que o sujeito esteja mecanicamente determinado por essas relações sociais, contudo, não se pode negar as influências externas na formação da afetividade. Da mesma forma como se aprende bons hábitos pode-se também com algum esforço abandonar os maus costumes e sentimentos que prejudicam as interações humanas.

Bons relacionamentos são construídos ao longo do processo de aprendizado de vida do indivíduo (1ªSm 18:1). Eles são capazes de estimular o que há de melhor no outro, revelando qualidades que talvez fosse ignorada pela própria pessoa (1ªSm 19:1-7), pois favorece o conhecimento de si e do outro (1ªSm 18:3-4). Eles não surgem de modo inesperado e mágico, mas desenvolvem-se à medida que os interesses e afinidades correspondem ao do outro. Neste aspecto, é importante escolher e iniciar boas amizades e relacionamentos saudáveis nos grupos de afinidades como a família e a igreja. Nesses dois grupos principais, os valores, os objetivos e as crenças são possivelmente mais afins do que noutros grupos de interesse como os da empresa, da universidade, onde nem sempre se encontram pessoas dispostas a compartilhar dos valores e crenças pessoais. A igreja, a comunidade da fé, é o lugar ideal para que o cristão estabeleça relacionamentos maduros e duradouros. Isto é possível porque há certa afinidade e interesse mútuos.Os princípios estabelecidos no Sl 1:1-6 e 1ªCo 15:33 devem ser observados cuidadosamente por aqueles que desejam agradar ao Senhor, até mesmo na seleção de suas amizades e relacionamentos sólidos.

Infelizmente, os bons relacionamentos estão cada vez mais raros. O vulgar é ter muitas “curtidas” e “amigos” nas redes sociais, mas raro são os amigos para se estabelecer relacionamentos verdadeiros e duradouros. Todavia, isso não quer dizer que estabelecer bons relacionamentos seja impossível, apenas que boas interações humanas não se acham em qualquer lugar como mercadoria barata e de pouco prestígio. Alguns não encontram boas pessoas para se estabelecer boas interações humanas e significativas pelo simples fato de procurarem em lugares ruins. Daí a razão pela qual devemos valorizar as amizades dentro do grupo de interesse como a família e a igreja e, mesmo assim, doses de discernimento e perspicácia são necessários. Nem todas as amizades na comunidade de fé são sinceras. Sempre há um “judas” disposto a macular a honra dos outros e pilhar as sobras. Portanto, cultive os bons relacionamentos! Invista nas pessoas com as quais existe certa afinidade, principalmente com os domésticos na fé.

Personagens como Caim, Saul e Sansão ilustram como a falta de domínio pessoal sobre os sentimentos e desejos podem prejudicar as interações humanas. Portanto, se você tem dificuldade em dominar a si próprio ore a Deus pedindo o fruto do Espírito (Gl 5:22-23).

Esdras Costa Bentho, teólogo pentecostal, professor da FAECAD, Mestre e Doutorando em Teologia pela PUC, RJ.

Extraído do CPAD News

http://www.cacp.org.br/a-arte-dos-relacionamentos/

Nota: Sugiro a leitura deste texto e comparar com:

A moral e a ética no relacionamento interpessoal (Texto escrito pelo Reverendo Guilhermino Cunha, pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil).

Estes textos se completam.      

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3 respostas para A arte dos relacionamentos

  1. Examinando as escrituras vemos que a relação entre servos e senhores no princípio era paternal, ou seja, os filhos de Adão e Eva, a saber, Abel e Caim, foram os primeiros criados na terra. Como os homens se multiplicaram, a relação paternal foi-se desvinculando do aspecto familiar gerando conflitos de gerações, culturas e posturas pessoais de cada homem com o seu próximo e com Deus. Na verdade a relação patronal foi se deteriorando com as gerações subsequentes. Aconteceu isto nas gerações antediluvianas e pós-diluvianas passando por Abraão, Moisés, os reis da terra, os profetas até Jesus Cristo.

           A primeira citação bíblica da relação entre servos e senhores está em Gênesis 13 quando Abraão e Ló separam-se com os seus respectivos pastores. É uma citação rápida em que houve “contenda” entre os pastores do gado de Abraão e os pastores do gado de Ló, e solucionada com uma simples negociação entre ambas as partes. A Bíblia afirma em Gênesis 13:6 “Mas a terra não podia sustentá-los, para que habitassem juntos”. A origem do problema foi o crescimento dos bens de ambas as partes. A solução foi a compreensão de ambas as partes com o objetivo de manter a unidade familiar (Gn 13:8 “… pois irmãos somos)”.

    O resultado final pode não ter sido satisfatório, pois Ló habitou perto de Sodoma e mais tarde passou a ser um morador de Sodoma, a qual foi posteriormente destruída pelo Senhor. Mas o amor fraternal entre irmãos não foi destruído.

    Outra história que retrata bem a relação entre Servos e Senhores está no contrato feito entre Labão e Jacó, onde podemos ver a primeira citação bíblica sobre salário, na qual Jacó recebeu como salário as suas esposas Raquel e Lia (Gn 29:15_18).

    Gn 29:15, 18

    “Depois perguntou Labão a Jacó: Por seres meu irmão hás de servir-me de graça? Declara-me qual será o seu salário?”.

    “Jacó amava a Raquel, e disse: Sete anos te servirei por Raquel, tua filha mais moça”.

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  3. rfbarbosa1963 disse:

    Quando eu tinha 13 anos de idade, comecei a trabalhar meio expediente em escritório na loja de um dos meus tios maternos. A outra parte do dia estudava. Eu era um adolescente trabalhando com homens e mulheres casadas. Dois deles, cujo nome não esqueço, chamavam-se Roberto e Pericles. Com poucos dias de trabalho me fizeram uma pergunta. “O seu tio assinou a sua carteira de trabalho, pois é um direito para o menor de idade ter a carteira assinada?”; fizeram outra pergunta ” você recebe o salário de menor?”.
    Bem, respondi que não. Mas fiquei incomodado com estas indagações, e na 1ª oportunidade, bati a porta do meu patrão, fazendo estas perguntas. Fui sincero na época, e recebi uma resposta sincera. Foi a minha primeira “negociação salarial”. Sai da sala satisfeito com um pequeno aumento.
    Mas alguns anos depois, um pouco antes de ser admitido na Petrobras, já trabalhando com carteira assinada em uma microempresa do meu pai, fui convidado pelo meu tio para trabalhar em uma filial da loja original como sócio minoritário.
    Ele foi sincero e muito integro quando me fez esta proposta. Só que eu também fui sincero com ele, afirmando que eu estava me preparando para trabalhar na Petrobras, e na 1ª oportunidade que surgisse eu iria abraçar.
    E a oportunidade surgiu quando eu tinha pouco mais de 21 anos de idade.
    Hoje com a idade 48 anos, trago a memória esta situação e fico feliz pois a despeito da pouca idade e experiência de vida fui integro e sincero.

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