CASAMENTO – ENCANTAMENTO COM OBRIGAÇÕES E OBRIGAÇÕES COM ENCANTAMENTO

Podemos ter três visões a respeito do casamento: a visão demasiadamente otimista, a visão demasiadamente pessimista e a visão prudentemente realista.

A visão demasiadamente otimista

É a visão romântica demais, de alguns anos atrás, presente nos enredos de certos romances de amor e de certas novelas. As mulheres falam em “príncipe encantado” e os homens, em “a mulher de meus sonhos” ou “a mulher de minha vida”. As histórias de amor dessa linha focalizam quase sempre apenas a fase de conquista e terminam com a duvidosa e eufórica declaração: “E foram felizes para sempre”. A esse respeito é oportuno transcrever um parágrafo do artigo “Os casamentos de Charles e ‘jogos subterrâneos’”, do conhecido psicanalista Contardo Calligaris, publicado na Folha de São Paulo de 14 de abril:

Romances e filmes de amor, em sua esmagadora maioria, narram as peripécias dos amantes até que consigam se juntar. Depois disso, parece óbvio que eles vivam “felizes para sempre”. Infeliz e frequentemente, nos consultórios de psicoterapeutas e psicanalistas, a história dos casais depois do cartão-postal inicial é contada em versões bem menos sorridentes.

Está dentro desse contexto a história do índio Peri e da não-índia Ceci, no romance O Guarani, de José de Alencar, escrito em 1857. E também a história dos adolescentes Romeu e Julieta, que se apaixonaram num baile de máscaras em Verona e no dia seguinte se casaram em segredo, já que suas famílias eram inimigas entre si. A peça de William Shakespeare escrita em 1595 termina em tragédia: primeiro Romeu comete suicídio na suposição de que a amada esteja morta; depois Julieta, em face da morte do amado, também se mata.

A desvantagem da visão exageradamente otimista é que os nubentes são muito ingênuos e se casam despreparados. Não admitem dificuldade posterior alguma e não tomam medidas preventivas.

O abandono do romantismo ou do otimismo exagerado talvez tenha ido longe demais. Colocamos na mesma bacia as vantagens e as desvantagens e jogamos tudo fora.

A visão demasiadamente pessimista

Hoje prevalece a visão demasiadamente pessimista do casamento. Em vez de frases românticas, colecionamos ditados e conceitos chocantes: “O amor é eterno enquanto dura”; “Quando a pobreza bate à porta, o amor voa pela janela”; “O amor faz passar o tempo e o tempo faz passar o amor”.

E ouvimos conselhos absurdos: “Se não fosse bobamente moralista, teria tido mais amantes e menos maridos” (Elizabeth Taylor, atriz); “Hoje o que eu consideraria ideal seria poder ter duas, três, quatro mulheres, amigas, namoradas eventuais, e elas terem dois, três, quatro homens” (José Angelo Gaiarsa, psiquiatra); “Se a gente pensar bem, o casamento nunca foi necessário” (Flávio Gikovate, psicoterapeuta).

Por essa razão, casa-se cada vez menos e cada vez mais tarde. Ao mesmo tempo separa-se cada vez mais (de 81.130 divórcios e 76.200 separações judiciais em 1991 passamos para 129.520 divórcios e 99.690 separações em 2002). Metade dos casamentos na Inglaterra acaba antes de completar 18 meses. Entre os americanos, o índice de divórcio é de 50%. Pela mesma razão, o número de uniões consensuais tem aumentado — das uniões celebradas no ano 2000 no Brasil, 70,5% foram oficializadas, enquanto que 29,5% foram informais.

A visão prudentemente realista

Do ponto de vista cristão, o casamento é uma instituição natural, inaugurada por Deus logo após a criação do homem e da mulher. Une duas pessoas de sexos diferentes para viverem em companhia agradável uma da outra, até que a morte ou a infidelidade contumaz e irreversível de um ou de ambos os cônjuges os separe.

Mesmo fora do meio cristão, considera-se que o casamento é bom para a saúde física e mental e para a vida sexual. Pessoas casadas têm câncer e problemas cardíacos mais raramente e vivem mais, de acordo com a revista alemã Neus Leben, que se baseou em dados científicos. Entre os casados, o número de suicídios é menor. Ser casado, conclui a pesquisa, é um dos fatores que mais podem influenciar a felicidade pessoal. E, ao contrário do que se afirma com frequência — que nada é mais prejudicial à realização sexual do que ser fiel a vida inteira, estudos demonstram que pessoas casadas fazem mais sexo do que os solteiros e que a qualidade de vida sexual dos casados é significativamente melhor.

A visão prudentemente realista do casamento não é simplória como a visão demasiadamente otimista e menos negativa do que a visão demasiadamente pessimista. A Bíblia a exalta sobre estas outras.

Primeiro, a Palavra de Deus valoriza tanto o casamento que em seu cânon há um livro que descreve o amor apaixonado de um homem e uma donzela, que trocam entre si juras de amor e elogios de beleza física e sensual. Trata-se do Cântico dos Cânticos, o mais belo dos 1.005 poemas da lavra de Salomão.

Segundo, logo no primeiro livro da Bíblia, conta-se a história das três famílias da era patriarcal (1900-1600 a.C.), sem se esconder os problemas domésticos de Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, e Jacó e Raquel. O trecho todo ocupa três quartos do livro de Gênesis (do capítulo 12 ao 50).

Portanto, que haja um equilíbrio entre o sonho apaixonado do Cântico dos Cânticos e a realidade do dia-a-dia do livro de Gênesis, um balanço entre encantamento mútuo e obrigações mútuas.

É isso que nos leva e nos prende à visão prudentemente realista do casamento. Tem razão àquele que acrescentou à passagem do Cântico dos Cânticos “o amor é tão forte como a morte” (Ct 8.6) estas palavras: “mas tem a fragilidade do vidro!”.

Editora Ultimato

Edição 294 Maio-Junho 2005.

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3 respostas para CASAMENTO – ENCANTAMENTO COM OBRIGAÇÕES E OBRIGAÇÕES COM ENCANTAMENTO

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  2. Acrescentei este documento como comentário, devido a similaridade do tema abordado na postagem.

    Casamento, ideal ou propósito?

    por Sara Vargas – agosto/2011

     “Era uma vez… um príncipe e uma princesa!… E eles viveram felizes para sempre!”

           Qual de nós em algum momento já não se rendeu aos encantos dos contos de fada e até mesmo se viu naquele traje de veludo requintado, com a coroa na cabeça: o príncipe em seu cavalo branco e a princesa em seu vestido pomposo.  Talvez você seja um príncipe ou uma princesa mais despojado, pós-moderno, mas o ideal de um relacionamento onde os dois viveriam felizes para sempre permeia os pensamentos da maioria de nós.  Desde pequenos aprendemos a sonhar com o relacionamento perfeito.  Quando nos apaixonamos fazemos juras de amor ou sonhamos com um relacionamento onde “tudo o que tenho é seu”, “esta é a pessoa que vai me fazer feliz”, “nosso amor vai ser capaz de superar tudo”.   De repente, com o passar do tempo, o príncipe (ou a princesa) vira sapo.  Somos influenciados pela sociedade, cultura, família, religião a criarmos um ideal a respeito do relacionamento conjugal e este ideal pode ofuscar o brilho real do belo que Deus tem reservado para nós.  Sua vontade é boa, agradável e perfeita, mas nem sempre confortável.  Quando meu foco está no ideal, eu enxergo o sapo que o outro se tornou, mas não vejo os bruxos que precisam ser “exorcizados” em mim.  Será que consigo mudar alguém além de mim mesmo?  Ou seria isso obra exclusiva do Espírito Santo?

    O ideal pode ser lindo, mas é fruto do desejo da minha carne.  O que é propósito de Deus gera fé, é fruto da revelação de Deus sendo maravilhoso e perfeito (mas geralmente não é fácil).  O ideal tende a nos afastar de Deus, pois vamos construindo nossos próprios caminhos para alcançá-lo.  O que é propósito de Deus nos aproxima dEle, gera dependência, perseverança, temor e uma convicção absoluta de que só o alcançaremos se Deus estiver conosco; o mérito jamais será nosso.  O ideal gera ansiedade e promove doenças da alma e físicas, mas o que permanece no propósito de Deus experimenta a vida, ainda que chore no momento da tribulação, o seu pranto  se transformará em júbilo.  O ideal pode nos afastar das pessoas, até daquelas que mais amávamos; o propósito de Deus constrói relacionamentos saudáveis.  O ideal pode virar uma obsessão, um “deus”, mas ao alcançar o propósito de Deus, o nome dEle é glorificado na nossa vida e experimentamos o fruto da Sua bondade aqui na terra.  Quem sabe está na hora de você escrever o seu ideal de casamento numa folha, lê-lo para si pela última vez e depois despedir-se deste ideal, rasgá-lo e entregá-lo ao Senhor?  Busque então na Palavra de Deus promessas a respeito do casamento e comece a construir suas expectativas em Deus (e não no seu cônjuge – Deus é capaz; seu cônjuge não.).  “Bem sei os planos que tenho a respeito de vós; planos de paz e não de mal para vos dar um futuro e uma esperança”. (Jeremias 29:11)
     
     Sara Vargas Rangel e Pereira

    Pastora e Especializando em Terapia de Família e Casais
    sara@saldaterra.org.br

    Ministério Sal da Terra

     

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  3. Resolvi acrescentar o texto de Jonathan Simões Freitas como comentário da postagem, pois os textos se complementam.

    Casamento para além do contrato
    Casamento

    Em certo sentido, casamento é um contrato. Há duas partes constituindo uma sociedade. Cada qual recebe novos direitos e deveres mútuos. Como o horizonte de tempo é amplo e a caminhada, incerta, riscos são inerentes. Estipulações são estabelecidas a fim de conservar o acordo. Objetivos e parâmetros de referência são negociados no decorrer do processo. Cláusulas delimitam condições para o bom andamento da relação de confiança proposta. A palavra de fidelidade dita e escrita atesta o compromisso. A autenticidade dos envolvidos valida a união. Testemunhas confirmam o ato e a ele se atrelam. Assinaturas dão fé quanto à promessa e cada novo dia tem de ser rubricado pelo casal.

    Mas, de acordo com a Bíblia, casamento é muito mais do que um contrato. Na visão bíblica, casamento é aliança; e “aliança” é um pacto (Mt 19.6). O sangue derramado no leito consuma o ato conjugal. Sendo consumado nesse nível, há data e local de início, mas, quanto ao término, apenas a morte é autorizada a ocasioná-lo. Qualquer outra intercorrência permanece dentro do foro íntimo do casal, devendo ser dirimida na comarca do amor prometido. Essa é a jurisprudência dos anéis trocados. Não uma parceria sob certas condições, mas um voto incondicional. Não uma ameaça do ônus que seria imposto no caso de quebra das regulamentações, mas a desistência do cálculo. Não um mediador da desconfiança entre os envolvidos, mas uma promessa de transparência simétrica, “sin cera”. Não um instrumento jurídico para prevenir uma atitude oportunista, mas, em si, uma oportunidade divina dada a ambos.

    Assim, casamento é graça de Deus; e “graça” é dom (Pv 18.22; 19.14). Não uma recompensa devida, mas um presente imerecido. Não um retorno sobre o seu investimento, mas um investimento divino em você, a despeito da sua capacidade de lhe dar retorno. Não uma honra ao mérito, mas uma dádiva que, pela generosidade, nos constrange. Não uma decisão da qual orgulhar-se, mas uma concessão pela qual agradecer.

    Portanto, você só o experimentará plenamente se recebê-lo como um presente. É só olhando para o alto e dando “graças” que você se encontrará na posição apropriada para vê-lo corretamente. É só na abertura para o Eterno que você achará a chave para desdobrar essa nova história que se inicia no tempo. É só ao descobrir-se como um filho amado e perdoado por Deus que você estará em condições de não manter o registro das dívidas do outro, mas de perdoar suas ofensas. Somente ao receber o casamento como uma dádiva você estará apto para enxergá-lo, não como um fluxo de caixa, mas como um fluxo de amor, de Deus para o seu cônjuge, canalizado por você. Em qualquer outro caso, o casamento fica, literalmente, sem graça, pois a sua essência é perdida.

    Por isso, por ser essencialmente uma graciosa aliança, o casamento, para ser pleno, tem de ser recebido como tal. É só interpretando a história como o casamento do Filho de Deus com o seu povo que se percebe a alegria escondida no chamado a refletir esse grande casamento em nossas relações. É só ao abrir os olhos para o que significou o sacrifício de Jesus na cruz que se está apto para apreender a dimensão de um pacto de sangue, como é o casamento. É só ao perceber-se convidado para uma aliança eterna com Deus, por meio de Jesus, que alguém está em condições de vivenciar não somente a lei matrimonial, mas também o princípio que primeiro a inspirou. Afinal, ninguém pode dar o que não recebeu. Somente ao receber o casamento como um sinal do tipo de relação que Deus deseja ter com o ser humano é que se abre a possibilidade de não ficar aprisionado à lógica de direitos e deveres, mas de lançar-se em aliança com o cônjuge. Em qualquer outro caso, o casamento fica, literalmente, reduzido a partes, pois perde a indissolubilidade da união que o motiva.

    Portanto, que o casamento seja vivido “a três”, definindo-se o relacionamento conjugal em relação ao relacionamento com Deus. Que, assim, em nossa sociedade confusa quanto ao significado dessa instituição divina, reabram-se as portas do mistério do matrimônio. Mistério esse que não pode ser experimentado pelos que o reduzem a somente um ímpeto emotivo ou um cálculo racional. Que o casamento seja novamente vivenciado como uma expressão de fé, a partir da qual emoções e razões, afetos e contratos, repousem unicamente na graça da aliança.

    • Jonathan Simões Freitas é casado com Thalita e pai de Manuela. Gerencia a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC) e dá aulas no L’Abri Brasil.

    http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/365/casamento-para-alem-do-contrato

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