PROPOSTA DE ESPIRITUALIDADE

Não é preciso muita perspicácia para perceber que o movimento evangélico ocidental passa por uma grande crise. As incursões do neo-fundamentalismo da direita religiosa na política estadunidense não ajudaram muito. Os reclames para que a sociedade preservasse “valores morais” caíram por terra porque não encontraram respaldo nas próprias igrejas, que se revezou em escândalos. Para agravar a crise, grandes segmentos evangélicos se apressaram em legitimar a invasão do Iraque, argumentando que a Bíblia respaldava uma “guerra justa”. Na América Latina, principalmente no Brasil, a rápida expansão do pentecostalismo produziu um grave desvio ético na compreensão do evangelho. Surgiu um novo fenômeno religioso, mais comumente identificado como “teologia da prosperidade”. O que se ouve como “pregação” pelos tele evangelistas e nas mega igrejas dificilmente poderia ser associado ao protestantismo histórico ou ao pentecostalismo clássico. 

Como não há mais nenhuma novidade em afirmar que mudanças radicais precisam acontecer no movimento evangélico, a questão agora é perguntar: “O que deve mudar?” Eis algumas propostas: 

Proponho uma espiritualidade menos eficiente. Que os pastores desistam de associar a aprovação de Deus a seus ministérios com projetos bem-sucedidos. A fé cristã não se propõe a refletir o mundo corporativo em que competência se prova com resultados. Na espiritualidade de Jesus, os atos de alguns servos de Deus podem ser anônimos, despercebidos e pequenos. A urgência de comunidades crescerem, de pastores provarem como Deus os abençoou com “ministérios aprovados” acabou produzindo essa excrescência: igrejas que mais se parecem com balcões de serviços religiosos do que com comunidades de fé. 

Proponho uma espiritualidade menos cognitiva e mais vivenciada. A priorização da “reta doutrina” sobre a experiência da fé acabou produzindo crentes argutos em “provar” a sua fé, mas frágeis no testemunho. A obsessão pela verdade como uma construção racional faz com que os catecismos se tornem belas elaborações conceituais, enquanto os testemunhos pessoais se mantêm questionáveis. O evangelho precisa ser escrito em tábuas de carne; mostrar-se nos atos daqueles que se propõem a brilhar como luz do mundo. 

Proponho uma espiritualidade menos mágica e mais responsável. A ideia de um Deus intervencionista que invade a todo instante a história para resgatar seus filhos, dando-lhes alívio, abrindo portas de emprego e resolvendo querelas jurídicas, acabou produzindo crentes alienados, sem responsabilidade histórica e sem iniciativa profética. Com esse comodismo, as igrejas se distanciaram da arena da vida. Passaram a acreditar que bastaria amarrar os demônios territoriais para acabar com a violência e com a miséria. O evangelho não propõe que a história seja transformada por encanto, mas com ações políticas que defendam a justiça. 

Proponho uma espiritualidade menos intolerante. A ideia de um mundo perdidamente hostil a Deus gera igrejas intransigentes, que se enxergam privilegiadas. A radicalização da doutrina da queda faz com que se perceba o mundo condenado, irremediavelmente perdido. Com essa visão, a igreja se fecha, só encara o mundo como um campo de batalha, e é incapaz de acolher os moribundos que jazem às margens das estradas. A espiritualidade evangélica precisa resgatar doutrinas conhecidas nos primeiros anos da Reforma, como a “imago Dei” (a imagem de Deus em todos) e a graça comum (o favor de Deus capacitando a todos). 

Proponho uma espiritualidade que promova a vida. Os evangélicos pregaram a salvação da alma por anos a fio e, muitas vezes, esqueceram que Deus deseja que experimentemos vida abundante antes da morte. Aliás, o céu deveria ser uma consequência das escolhas que as pessoas fazem na terra e não uma promessa distante. Com essa ênfase exagerada na salvação da alma, alguns se contentam com uma existência sofrível, mal resolvida, e acreditam que um dia, no além, tudo ficará bem. 

Proponho uma espiritualidade que não contemple a santidade como apuro legal, mas como integridade. Com cobranças legalistas, os ambientes se tornam exigentes. É inócuo estabelecer o alvo da vida cristã como uma perfeição exagerada, que para alcançá-la seria necessário transformar as pessoas em anjos. Hipocrisia nasce com esse tipo de exigência. É preciso dialogar com as imperfeições, com as sombras e luzes da alma; sem culpas e sem fobias. Só em ambientes assim, existe liberdade para amadurecer. 

Proponho uma espiritualidade que estabeleça como objetivo gerar homens e mulheres gentis, leais, misericordiosos. Antes de almejar aparecer como a instituição religiosa detentora da melhor compreensão da verdade, que procuremos amar com singeleza; antes de nos tornar uma força política, que saibamos caminhar entre os mais necessitados; antes de alcançar o mundo inteiro, que trabalhemos ao lado daqueles que constroem um mundo melhor. 

Estou consciente de que minhas propostas não têm muita chance de se realizarem, mas vou mantê-las como um horizonte utópico e vocação. 

Soli Deo Gloria. 

• Ricardo Gondim é pastor da Assembleia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, O Que os Evangélicos (Não) Falam e Eu Creio, mas Tenho Dúvidas — a graça de Deus e nossas frágeis certezas.

www.ricardogondim.com.br

 Revista Ultimato Ed. 311 Março-Abril 2008

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