De quem é o Evangelho?

O evangelho não é de direita, centro ou esquerda. O evangelho é de Cristo.

Vejo com preocupação as tentativas de associar e submeter o evangelho a sistemas culturais, científicos, políticos ou partidários, um crescente fenômeno global.

É certo que como cristãos devemos votar, apoiar, protestar e nos envolvermos com os sistemas sociais que apresentam afinidades com os valores do evangelho. Não para protegermos nossas posições em um movimento de corporativismo religioso, mas por entendermos que o evangelho e seus valores promovem a verdade, a liberdade e a justiça, visto que não cega, mas aguça a nossa cidadania – “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Lc 20.25).

Entretanto, o evangelho não se conforma a sistemas sociais, pois “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). O evangelho não foi manifesto por Deus somente para melhorar a sociedade, mas para redimi-la. Não trás tranquilidade, mas paz. Não provê sucesso, mas obediência. Não se contenta com a tolerância, mas promove o amor. Não se conforma, mas transforma. Não proclama a glória dos homens, mas de Deus.

Tentativas de igualar os valores do evangelho aos sistemas sociais (culturais, científicos, políticos ou partidários) resultarão em frustrações e distorções, pois não se consegue confinar os claríssimos raios do sol em frágeis caixinhas de papelão.

No início do século 3, os cristãos se encantaram com o apoio e os favores do imperador Constantino, associando o evangelho ao império romano. No colonialismo dos séculos 15 e 16 a Igreja cristã promoveu o evangelho, associando-o a um sistema cultural, no caso o europeu, proclamando-os como complementares. Em dias atuais o evangelho tem sido comumente associado a estruturas culturais, linhas de pesquisa científica e posicionamentos sociopolíticos. Nos últimos meses, ouvimos amplas discussões norte-americanas sobre os valores democratas e republicanos e aquilo que mais se assemelharia ao evangelho. Perante tais quadros precisamos nos lembrar que o evangelho não se conforma com o mundo, mas o confronta, expõe, redime e julga.

O evangelho não é de direita, centro ou esquerda. Não é petista ou psdbista, republicano ou democrata, comunista ou capitalista. Não é da zona sul ou norte, dos países ricos ou pobres. Não segue a escola positivista de Comte ou interpretativa de Geertz. O evangelho é de Deus, tem origem em Deus, é manifesto por Deus, pela graça e justiça de Deus, para julgar o mundo e redimir um povo que dê glória a Deus.

Participei recentemente de um grupo de estudos cristãos em que a temática era o evangelho e a cultura. Alguns cristãos apresentaram posições científicas demonstrando como as ciências sociais reconhecem, em alguma medida, as verdades de Deus. A ciência social naquele caso era a antropologia e os elementos apresentados apontavam para a ética universal, o reconhecimento de que a humanidade possui verdades universais, não apenas particularismos culturais. Entendo que, semelhante a este caso, o cristão tem o privilégio de encontrar em diferentes sistemas sociais diversos valores que tenham alguma afinidade com o evangelho, como políticas públicas que promovem a liberdade e a paz, ou iniciativas privadas de assistência aos desabrigados. Entretanto, os sistemas sociais não são o crivo de avaliação do evangelho, mas sim o contrário. Em uma perspectiva bíblica, devemos avaliar todas as coisas, em qualquer área da existência, pela régua do evangelho. Sistemas sociais colaboram para que o homem compreenda a si mesmo e desenvolva padrões saudáveis de vida e relacionamento, mas não o redimem. Apenas o evangelho o faz.

Alguns anos atrás, um grupo de cristãos europeus celebrou quando estudos arqueológicos apresentaram evidências sobre histórias bíblicas, sobretudo os relatos sobre Sodoma e Gomorra. Algo semelhante foi publicado na mídia cristã em 2016 a respeito de novas descobertas arqueológicas que apoiam o relato bíblico da travessia do mar vermelho pelo povo de Deus, especialmente antigos artefatos de guerra e carruagens encontrados em um ponto no fundo do mar. É sempre interessante ver como as ciências vão reconhecendo os relatos bíblicos, mas não são os achados arqueológicos, teorias científicas ou posicionamentos políticos e partidários que validam a nossa fé. Ao contrário, é pela fé e com os olhos da fé que devemos olhar para todas as coisas e entendê-las dentro de uma cosmovisão cristã, como reveladas por Deus (Hb 11).

Percebo que tentativas de associar e submeter o evangelho aos sistemas sociais têm ocorrido nas diversas esferas do saber ou fazer humano e precisamos de discernimento cristão para nos posicionarmos. Creio que devemos apoiar, promover e participar do que for justo e bom em nossa sociedade, bem como repudiar, protestar e boicotar aquilo que for degradante e corrosivo, mas sem nos iludirmos com as soluções humanas, pois estas não podem nos salvar. Ao fim do dia, a postura essencial do povo de Deus continua sendo aquela que Paulo ensinou a Timóteo: “prega a palavra, quer seja oportuno quer não…” (2ª Tm 4.2). E declara que esta pregação deve acontecer com perseverante paciência (“toda longanimidade”) e fidelidade bíblica (“doutrina”), usando três verbos que devem marcar a apresentação do evangelho: “corrige”, (do grego elegcho: apontar o erro, mesmo quando inconveniente), “repreende” (do grego epitimao: apresentar claramente as consequências do pecado), e “exorta” (do grego parakaleo: trazer para o lado, consolar, confortar). O evangelho de Deus, apresentado nos critérios de Deus, faz sempre estes dois movimentos: confronta o pecador, lançando luz sobre o seu pecado, e apresenta a graça de Deus, capaz de perdoar e redimir.

O evangelho é o crivo de compreensão e avaliação de nossas vidas, relacionamentos, igreja, fé, cultura, ciência, política e sociedade. Paul Hiebert, missionário-antropólogo, nos ensinou que o evangelho transforma o homem em três dimensões: suas convicções, seu comportamento e sua cosmovisão. Passamos a crer diferente, agir diferente e ver o mundo diferente, com as lentes do evangelho de Deus.

O evangelho é supra cultural, revelação de Deus a todas as culturas. É multicultural, pois visa trazer pessoas de todas as tribos, povos, línguas e nações ao Senhor Jesus. É intercultural, visto que estas pessoas, redimidas, passam a ter comunhão e fazer parte de um só corpo. É cultural, pois foi revelado por Deus em nosso tempo e história. É transcultural, devendo ser levado de uma cultura para outra cultura. É contracultural, pois confronta o homem em sua própria cultura, trazendo-o das trevas para a luz.

Fujamos das ideias alienantes que propõem uma espécie de clausura cristã, sugerindo que observemos a deterioração da humanidade sem qualquer reação, a não ser o afastamento, perdendo o privilégio de chorar com os que choram e de ser sal e luz, como nos induzindo a pedir a Deus aquilo que o próprio Cristo não pediu – tirar-nos do mundo. Na outra ponta, fujamos também das propostas antropocêntricas que desejam tornar o cristão apenas em um bom cidadão – e a cidade uma boa cidade – como se a Igreja fosse vocacionada para ser uma boa ONG com alguns diferenciais de espiritualidade. A proposta do evangelho vai muito além destas percepções, pois faz com que o cristão se revolte contra o pecado, se sensibilize com o sofrimento alheio e tenha imensa sede de apresentar a verdade que, em Cristo, redime o homem e glorifica a Deus.

Na Palavra Sagrada o evangelho é apresentado por uma história – a maior e mais fantástica história de nossas vidas: Deus amorosamente criou a humanidade para com Ele se relacionar, mas a humanidade se perdeu, corrompida pelo pecado, cobiçando ser algo diferente da sua natureza e se afastando do Criador. Movido por profundo amor e indizível graça o Eterno se encarnou em homem, Jesus Cristo, para pagar o preço do nosso pecado, nossa impagável dívida. Ele se fez maldição em nosso lugar, morreu crucificado e o seu sangue comprou para Deus pessoas de todas as tribos, povos, línguas e nações, dando paz aos homens para que estes possam dar glórias a Deus. A morte não o segurou, pois ressuscitou, sendo Ele Rei dos reis e Senhor dos senhores, Salvador de todo aquele que crê. Está presente, pelo Espírito Santo, que conduz a Sua Igreja a amar, seguir e proclamar a todos sobre o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Voltará para julgar vivos e mortos e levar os Seus, finalizando este impensável plano de amor, sacrifício, perdão, redenção e glória (Gn 1.1; Rm 3.23; Jo 3.16; Rm 1.1-5; Mt 16.27; Ap 5.9)

Em qualquer esfera de relacionamento, trabalho, estudo, engajamento político, social ou desenvolvimento científico, coloquemos o evangelho em tudo o que somos, falamos e fazemos. E lembremo-nos: o evangelho jamais se conforma. Se a mensagem que proclamamos não confronta e constrange o mundo – e também nossos próprios corações – precisamos rever o que de fato estamos pregando, se o evangelho ou outra coisa.

• Ronaldo Lidório é pastor presbiteriano, antropólogo e missionário da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais e da WEC. É organizador de Indígenas do Brasil; avaliando a missão da igreja e A Questão Indígena – uma luta desigual.

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3 respostas para De quem é o Evangelho?

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  2. A política e a religião

    por Prof. Paulo Cristiano da Silva

    A política e a religião

    A INFLUÊNCIA DE GRUPOS RELIGIOSOS NA POLÍTICA BRASILEIRA

    Após o regime militar (1964-1985) o espaço político brasileiro em sua fase de redemocratização procurou fazer valer o ideal político republicano, trazendo de volta o estado democrático de direito e os valores da cidadania moderna. Um destes valores tem a ver com a liberdade de escolha por meio do pleito de candidatos da sociedade civil que represente determinados grupos sociais na esfera pública. Sendo assim, as regras eleitorais baseadas nos princípios democráticos permitem trazer para dentro desta esfera a diversidade social representada pelos diferentes grupos com suas ideologias e demandas próprias.

    Dentre esses atores sociais coletivos estão inseridas as diversas entidades religiosas que fazem parte de uma sociedade cada vez mais pluralista. Dois destes grupos merecem destaque não só pela quantidade de adeptos, mas pela influencia na história política brasileira, a saber: a Igreja católica Romana que segundo senso do IBGE em 2010 comportava o maior número de adeptos com cerca de 64,6% e o protestantismo representado pelas inúmeras e diversas denominações evangélicas com cerca de 22,21%.O crescente avanço e a consequente visibilidade dos evangélicos nas últimas décadas em diversas áreas sociais, principalmente na política com sua bancada evangélica, fez com que ele se tornasse um dos principais consumidores de capital social por meio dos bens simbólicos que o poder público oferece.

    Portanto, a pergunta que emerge naturalmente não se prende à questão se é lícito grupos religiosos participarem da distribuição do poder em uma sociedade livre, moderna e democrática. Esse questionamento já foi superado pelos ideais intrínsecos ao próprio processo democrático de participação popular no poder público. A questão mais importante a ser verificada, talvez em outra pesquisa, seja entender as reais razões do lobby feito pelas igrejas junto aos grupos políticos. O que leva uma entidade religiosa a participar da política? Seria uma maneira alternativa de cumprir melhor por meio da política o mandato cristão do altruísmo objetivando o bem comum? Ou seria mais do que isso, estaria em jogo uma disputa pelo poder visando a expansão do capital social destas entidades na luta pela concorrência no mercado da fé?

    Seja como for é evidente a mútua influencia que ambos, Estado e Igreja, exercem um sobre o outro, desde o final da idade antiga.

    Uma breve descrição da relação entre Igreja e Estado na história do cristianismo

    Essa relação começou com o governo do Imperador Constantino que ao tomar o poder decretou o cristianismo como religião lícita. Essa política de concessão foi cada vez mais ampliada culminando no edito de Teodósio que promulgou o cristianismo religião do império.

    A idade média foi palco de um longo processo de evolução político-religioso do bispo romano bem como testemunhou o nascimento de uma igreja imperial que confiscava terras, depunha reis e expandia os territórios papais até culminar na criação de um Estado político-religioso – o atual Vaticano.

    A reforma protestante também nasce com propósitos políticos. No início, as teses de Lutero são abraçadas pelos príncipes alemães como um pretexto ideológico contra a dominação romana em terras alemãs. Com o passar do tempo, tanto na Alemanha quanto na Inglaterra, o protestantismo acaba dando origem às duas igrejas estatais – luterana e anglicana. No entanto, na suíça e nos países baixos dominados pelas igrejas reformadas há um entendimento cada vez forte na direção de separar Igreja e Estado sem, contudo, separar política e religião.

    Já no Novo Mundo, a descoberta dos países sul-americanos tem a bênção da contrarreforma. O catolicismo havia tomado posse politicamente da colônia brasileira enquanto esta, por vezes, tomava decisões de cunho eclesiástico, indicando representantes para o clero e cobrando o dízimo, sistema que ficou conhecido como o “padroado”. Nem mesmo com a era republicana a dominação católica, nos assuntos temporais da nação, teve fim. Na verdade houve uma reconfiguração do poder, onde a autoridade eclesiástica foi assumindo novos contornos e preenchendo novos espaços sociais. Nesta época o protestantismo, em sua maioria de imigração, de modo geral, esteve à margem do poder político da nação, exceções à alguns políticos evangélicos que exerceram cargos públicos pontuais. Com a revolução política de 1930 houve maior abertura para a articulação entre os evangélicos a fim de elegerem seus representantes.

    Entretanto, após a constituinte de 1986, os evangélicos que outrora eram em sua maioria avessos à política, encarando-a como algo “sujo”, entra para valer na briga pelo poder e o espaço democrático se tornando uma das bancadas mais fortes do Congresso Nacional.

    Os grupos católicos e evangélicos e a participação político-partidária pós-constituinte 1986

    Atualmente os evangélicos possui a terceira maior bancada do Congresso Nacional, agregando mais de 90 parlamentares. Esse número parece seguir o crescimento nacional deste grupo religioso, que passou de um pouco mais de 15% em 2000 para 22% em 2010, um aumento de 61%, segundo dados do IBGE.

    Os evangélicos apesar de eleger 32 parlamentares no período de abertura democrática não possuía ainda uma agenda definida, restringindo-se apenas a fazer frente ao poder e a influencia da igreja católica, com objetivos bem claros de participação e repartição de benefícios políticos tais como, criação de monumentos à Bíblia (praças), feriados nacionais, benefícios fiscais, concessão de emissoras de rádio e doação de terrenos para construção de templos.

    Contudo no início da década de 1990 a Igreja Universal do Reino de Deus começa a atuar com um plano político definido. Elege seus representantes hierarquicamente, sem a participação dos adeptos e com objetivos corporativistas claros.

    Em 2003 foi criada a bancada evangélica, uma expressão não tão precisa para denominar os parlamentares oriundos de diversas denominações que possuíam interesses comuns. A agenda da bancada evangélica gira em torno de questões morais conservadoras, tais como: a família tradicional, o aborto, a legalização das drogas, o casamento homossexual, a pedofilia e a educação sexual nas escolas dentre outras menores.

    Novos atores político-religiosos entram em cena e a concorrência pelo poder político faz entrar no jogo a Igreja Assembleia de Deus que atualmente disputa com a Igreja Universal do Reino de Deus a hegemonia da bancada. As demandas na esfera moral sempre teve um tom fortemente conservador. Todavia a política feita pelos parlamentares se restringia apenas em contrapor a agenda progressista de grupos sociais como o movimento feminista, direitos humanos e movimento LGBT, mormente defensores de ideologias mais próximos à esquerda.

    Atualmente a frente evangélica parlamentar tem mudado seu modo de agir, sem deixar de contrapor à plataforma progressista daqueles grupos, passou a trabalhar com projetos mais propositivos, propondo políticas públicas que valorizam a família tradicional, como o “Estatuto da Família” e o “Estatuto do Nascituro”.

    A influencia conservadora dos evangélicos encontra eco em outros grupos sociais que compartilham da mesma visão, tais como os parlamentares católicos que em sua maioria são representados pelo grupo da Renovação Carismática Católica que defendem os valores da família e da vida. Esse poder político aumenta ainda mais com o apoio obtido de outros grupos, que mesmo não sendo religiosos como, por exemplo, os militares, tendo seu representante mais significativo na pessoa do deputado Jair Bolsonaro, defende os mesmos valores conservadores.

    A diferença da postura político-partidária entre evangélicos e católicos

    Enquanto os evangélicos criam seus “políticos de Cristo”, parlamentares construídos e subalternos à instituição que o elegeu, como no caso da Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Católica Romana vai em direção oposta, praticamente ameaçando os membros de seu clero, não permitindo ao menos que eles apoiem determinados candidatos ou indiquem partidos políticos.

    Essa intransigência da alta cúpula da Igreja Católica no Brasil é bem transparente como mostra a reportagem do jornal Diário da Região de São José do Rio Preto, interior de São Paulo que trouxe estampado em um de seus cadernos o título: “Igreja proíbe padres de apoiar candidatos”, falando sobre a proibição que a Igreja católica está fazendo quanto ao apoio de candidatos pelo clero nas eleições de 2016.

    Diz a reportagem que “A Igreja Católica proíbe a declaração de apoio ou engajamento de padres e bispos durante as eleições de outubro” e “que sacerdotes que descumprirem a proibição podem ser afastados de suas funções por tempo indeterminado.”

    Isso não quer dizer que a Igreja Católica não faz lobby com grupos políticos, ela o faz, mas de outra maneira, por meio de sua membresia leiga. Há uma forte orientação política voltada para leigos dentro da Igreja por meio de sua pastoral de “Política e Fé”, tendo na CEFEP “Centro Nacional de Fé e Política” uma das maiores escolas.


    Considerações Finais

    É nítida a influencia que as igrejas católica e evangélica exercem sobre os grupos políticos, principalmente para defender valores considerados sagrados para os cristãos, tais como valores morais que tocam em temas caros como a família, a vida e a sexualidade.

    A visão evangélica de modo geral é de que o Estado deve ser laico. Por laicidade entende-se que o Estado não pode ser gerido por nenhuma religião específica e nem ter suas leis oriundas de dogmas religiosos. Ele visa proteger a liberdade religiosa e garantir o direito a todas as crenças e ideologias dentro do estado democrático de direito.

    Entretanto, sabe-se que nem sempre o discurso é efetivado na prática, porquanto o lobby pouco ético feito em questões pontuais pelas igrejas sobre os grupos políticos parece infringir esse limite. Por outro lado há de fazer uma ressalva em algumas questões que envolvem o binômio fé e política, principalmente quanto ao discurso enviesado de alguns pesquisadores que escreveram sobre o tema, como se as igrejas, pelo simples fato de estarem ligadas à religião, deveriam se manter à margem da distribuição do poder.

    Como disse o sociólogo Paul Freston (2006), misturar religião e política não é o mesmo que misturar Igreja e Estado. A política não deve ser meio de fortalecer uma religião em detrimento de outra. Enquanto o Estado confessional não deve ser incentivado, a política confessional, sim. Dizer que a religião em si não tem nada a ver com a prática política não é só ilógico, é ideológico.

    Os princípios dos direitos humanos são em sua maioria produtos de uma visão cristã de mundo: a justiça social, os direitos naturais e os diretos à igualdade estão na pauta do cristianismo há séculos. É legítima a agenda dos grupos religiosos cristãos enquanto parte e representante de uma sociedade que compartilha esses valores e direitos. Por que não?

    http://www.cacp.org.br/a-politica-e-a-religiao/

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  3. Cristãos e política: uma relação imprescindível

    Cristãos e política

    Alderi Souza de Matos

    Acabamos de sair de um processo eleitoral que impactou intensamente a opinião pública. Deixando de lado certas posições históricas, os evangélicos brasileiros se envolveram de modo inusitado com os grandes temas em debate. A internet foi palco de manifestações profusas e candentes por parte dos mais diversos líderes e grupos religiosos. A igreja católica adotou posturas firmes e incisivas em relação a certos valores essenciais que considera ameaçados. Em meio às grandes diferenças nos posicionamentos, surgiu um consenso muito evidente. Não é mais possível ficar indiferente ao debate político e ao processo político, porque ele produz consequências que afetam a todos. Os acontecimentos dos últimos meses têm levado os cristãos de todos os matizes a uma reflexão séria sobre a relação entre igreja e estado, fé e política. Quando se olha para a história, é possível ver algumas posições bastante distintas quanto a essa questão.

    Afastamento

    Ao longo dos séculos, muitos cristãos têm optado por se distanciar da esfera pública, dos círculos de poder e influência relacionados com o estado e a atividade governamental. No período antigo e na Idade Média, um bom exemplo disso foi o monasticismo. Aqueles que abraçavam a chamada vida consagrada renunciavam explicitamente ao envolvimento político para se dedicar a atividades contemplativas. No período da Reforma, houve o caso dos anabatistas, que tinham entre seus princípios fundamentais o não envolvimento com a esfera política. Os partidários desse movimento protestante não exerciam cargos públicos, não faziam juramentos cívicos, não participavam das forças armadas e defendiam a mais absoluta separação entre a igreja e o estado.

    Monges e anabatistas justificavam a sua posição isolacionista afirmando que o envolvimento político era corruptor e prejudicial para a verdadeira espiritualidade. Os cristãos fariam bem em se manter distantes de um terreno em que a venalidade, as intrigas e as lutas pelo poder eram quase inevitáveis. O problema é que, com esse afastamento, eles perdiam a oportunidade de exercer sua influência cristã nessa área tão decisiva. A Escritura certamente não autoriza essa atitude de isolamento, exortando os crentes a participarem ativamente da vida de suas comunidades. Alguns dos personagens bíblicos mais destacados foram homens e mulheres públicos notáveis que deram valiosas contribuições às suas sociedades. José, Débora, Davi, Salomão, Josias, Daniel, Ester e Neemias são bons exemplos.

    Subserviência

    Ao longo da história da igreja, os cristãos muitas vezes têm se envolvido com os poderes constituídos ou se submetido a eles, por interesse ou por imposição. No antigo Império Bizantino, os soberanos controlavam fortemente a igreja oriental ou ortodoxa, situação essa conhecida como “cesaropapismo”. Quem tentava resistir a isso, como o destemido bispo João Crisóstomo, que viveu em Constantinopla na passagem do quarto para o quinto século, podia sofrer graves consequências. Na época da Reforma, houve o fenômeno do erastianismo (de Tomás Erasto, seu defensor), que se manifestou no forte controle da igreja pelo estado em diversas nações protestantes. Em países católicos ocorreram os fenômenos paralelos do padroado e do regalismo. Com sua ênfase na separação das esferas civil e religiosa e sua grande reverência pelos governantes seculares, os protestantes alemães correram por vezes o risco de ficar passivos diante da tirania, como ocorreu no período nazista. O pastor Dietrich Bonhoeffer e outros líderes pagaram com a perda da liberdade ou da vida a sua resistência contra esse sistema iníquo e diabólico.

    A subserviência ao estado ou ao poder político pode adquirir formas sutis e perigosas. Em contextos altamente ideológicos, como a América Latina contemporânea, muitos cristãos têm assumido compromissos questionáveis com partidos e regimes políticos marcados por tendências autoritárias e violações das liberdades democráticas. Os cristãos precisam entender que contrair vínculos sem reservas com qualquer grupo ou líder político é uma forma de idolatria que viola a integridade do evangelho. Só Jesus Cristo é Senhor supremo da vida e da consciência. Esse é um alerta necessário numa época em que lideranças messiânicas e populistas novamente seduzem as massas de muitos países, fazendo com que se esqueçam das lições da história.

    Envolvimento crítico

    Muitos cristãos de diferentes persuasões confessionais têm adotado uma posição intermediária e mais saudável em contraste com as anteriores. Evitando tanto o isolamento quanto o servilismo, eles têm procurado viver plenamente as suas vidas em sociedade, participar das oportunidades e angústias da atuação cívica e política, mas ao mesmo tempo mantendo suficiente espírito crítico que lhes permita um posicionamento profético em relação a qualquer partido, sistema ou regime vigente. O exemplo do bispo João Crisóstomo já foi mencionado. Essa também foi a postura do reformador João Calvino. Havia forte interação entre igreja e estado na Genebra do século 16; todavia, quando esse líder religioso sentiu que os governantes estavam violando princípios claros da Escritura e da fé cristã, ele não se intimidou em censurá-los. No início da sua carreira, tal atitude resultou na sua expulsão daquela cidade suíça.

    O envolvimento dos cristãos com a esfera política e partidária sempre será uma faca de dois gumes. A tentação de obter vantagens pessoais e corporativas em detrimento do bem coletivo está sempre presente. A possibilidade de usar o poder político e econômico como instrumento de dominação e manipulação é uma constante. Por outro lado, existem maravilhosas oportunidades de trazer sanidade, integridade e altruísmo a um campo tão marcado pela corrupção humana. Multiplicam-se na história exemplos de cristãos que fizeram de sua atuação pública um verdadeiro sacerdócio, beneficiando grandemente os seus contemporâneos. Foi o caso do parlamentar William Wilberforce em sua luta contra o tráfico escravagista na Inglaterra do século 18. Foi o caso do primeiro-ministro Abraham Kuyper na Holanda do início do século 20. Foi também o caso do pastor Martin Luther King em sua defesa dos direitos civis dos afroamericanos.

    Conclusão

    Neste período de transição governamental, o Brasil vive dias de expectativa e apreensão. Ao lado de valiosas conquistas sociais, da estabilidade e pujança da economia e de maior presença no cenário internacional, alguns comportamentos da administração que se encerra, alguns objetivos programáticos do partido no poder e alguns projetos de lei em debate no Congresso Nacional têm produzido motivos justos de preocupação, tanto para os cristãos, como para a coletividade em geral. É necessário que haja a continuação e aprofundamento do debate sobre temas candentes, como o aborto, a homofobia, a ética na política, as relações internacionais e as liberdades de consciência e de expressão, sem jamais esquecer-se da luta em prol da justiça social, da criação de uma sociedade mais fraterna. Os cristãos têm muito a dizer sobre essas questões porque elas fazem parte das suas preocupações desde o início e dizem respeito às convicções e valores mais profundos de sua fé. Todavia, sua voz somente será ouvida se saírem de seus guetos eclesiásticos e participarem corajosamente das lutas de uma sociedade em transformação, correndo riscos sim, mas crendo no poder transformador do evangelho não só para os indivíduos, mas para as nações.

    • Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e “Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil”.

    http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/327/cristaos-e-politica-uma-relacao-imprescindivel/anabatistas

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