Um lugar para Lausanne 3 na história

       Certamente, Lausanne 3 terá um lugar na história sob diferentes pontos de vista. Como testemunha ocular e num exercício de interpretação ampla, apresento algumas perspectivas históricas do congresso.

       História contemporânea. Em 1974, o congresso aconteceu no auge do conflito da Guerra Fria. Em 1989, ocorreu no início do período neoliberal e no fim do socialismo real. Em 2010, o congresso aconteceu num mundo mais multilateral em suas relações de força, urbano, plural e sob o alerta da destruição ambiental.

       História social. Lausanne 3 será lembrado pelo seu sentido histórico e relevância social. Deu-se o registro de um volume extraordinário de fontes históricas em discursos, documentos escritos e imagens. Memórias, sentimentos, percepções e olhares foram transformados em relatos orais, imagens e ações. Os efeitos desse impacto nos diferentes contextos trarão mudanças imprevisíveis em histórias de vida, contextos e comunidades.

       História conciliar do cristianismo. O congresso se inseriu na tradição conciliar da igreja (Hans Küng), embora sem um propósito dogmático normativo, tais como os concílios “ecumênicos” nos primeiros oito séculos de era cristã. Os católicos romanos tiveram Latrão (Idade Média), Trento (Idade Moderna) e Vaticanos 1 e 2 (1870 e 1962). Os protestantes tiveram Edimburgo em 1910. Entretanto, Lausanne se compreende como um “movimento”, enquanto os concílios são conclaves em torno de controvérsias teológicas e que redefinem rumos da igreja.

       História das religiões. Lausanne 3 expressou a pluralidade atual do cristianismo ante o desafio dos diálogos ecumênico e inter-religioso. A presença de observadores de outras igrejas cristãs sinalizou a postura de ouvir, observar e dialogar pelos seus diferentes ramos. Por sua vez, a ação missionária nos contextos islâmico, hindu, budista e de outras religiosidades demonstrou a exigência do debate sobre o relacionamento com outras crenças, a tolerância e o estatuto da verdade religiosa.

       História cultural. Lausanne realizou um evento “globalizado” no seu aparato tecnológico e numa perspectiva predominantemente ocidental. Um exemplo disso foram as imagens e representações veiculadas da África desde uma estética “hollywoodiana”. Não há uma África, mas “Áfricas”. Foi o primeiro Lausanne também online. Embora a globalização em seus congêneres negativos (pluralismo e secularismo) tenha sido confrontada como ameaça à igreja, esta mesma igreja se mostrou afinada com os seus avanços.

       História das missões. O congresso constatou o deslocamento da força missionária para o eixo América Latina/África/Ásia. Será que essas igrejas criarão suas próprias perspectivas teológicas e eclesiais marcando o século 21 com um cristianismo latino-americano, africano e asiático? A opção será por uma ação missionária a partir do contexto de sua encarnação ou o discurso proposicional de imposição da verdade sobre o outro, conquistado não somente para a fé verdadeira, mas para uma cultura que se julga superior. Lausanne 3 demonstrou o esgotamento de um evangelicalismo etnocêntrico, nomeando inimigos a serem conquistados.

       Num movimento dialético, em 1974 os evangélicos discutiram a relação entre a proclamação e a responsabilidade social. Manila reafirmou a missão como anúncio a povos não-alcançados, em conflito com a missão como encarnação. Cidade do Cabo, por sua vez, recolocou a integralidade da missão pela força dos testemunhos e das experiências das comunidades cristãs no mundo.

       O lugar de Lausanne 3 na história se dará tanto por sua força como por suas fragilidades. Tal contradição pode se tornar um impulso motivador para a igreja no século 21. À beleza, luta e dinâmica missionária testemunhadas, se contrapôs a pouca reflexão teológica e missiológica sobre questões como gênero, diálogo inter-religioso, crise ambiental e homossexualidade. Quanto a uma história da igreja latino-americana, ficou uma dívida pela sua quase invisibilidade, não coerente com a sua atual dinâmica, incluindo o Brasil.

• Lyndon de Araújo Santos é historiador e professor universitário e pastor da Igreja Evangélica Congregacional em São Luís, MA.

Editora Ultimato     Edição nº 328  Janeiro-Fevereiro 2011

A.W.Tozer

“O mundo normalmente aceita a igreja antes que a igreja aceite o mundo”

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