ESCREVER OU NÃO, EIS A QUESTÃO

A maior contribuição das missões para a história é a escrita. Por meio da dedicação de missionários, milhares de povos tribais no mundo inteiro obtiveram alfabetos específicos para suas línguas. A tradição oral não torna ninguém mais burro — os povos de línguas ágrafas não são “primitivos”, como pensavam os antropólogos. Porém, eles ficam excluídos de fazer alguma contribuição válida para o resto da humanidade. Ficam diminuídos em sua capacidade de gravar a própria história, de produzir ciência. A escrita permite que a memória coletiva se amplie e se perpetue. Que a expressão individual contribua indelevelmente com o coletivo. Que a sabedoria de outros povos seja incorporada ao estilo de vida e cosmovisão do povo.A Bíblia é uma coletânea de histórias de uma tribo pequena que tinha uma revelação grande sobre o Criador. Tais histórias tribais, princípios e preceitos fazem diferença quando aceitas por qualquer povo.

Os efeitos da Bíblia, porém, são mais profundos do que “cristianizar” as tribos que a recebem. Sempre relutei em aceitar a cristianização como algo desejável ou inevitável. Muitos missionários trabalham com o conceito da igreja nativa, que não importa as formas de igreja praticadas pela sociedade dominante, mas permite à cultura tribal ressignificar seus ritos e danças. Discutimos se a escrita e a tradução da Bíblia eram parte essencial da revelação de Deus aos povos ou da cristianização imposta.

Uma das razões é que a escrita não é bem aceita em todas as tribos. O povo P., da Amazônia, por exemplo, em contato com a sociedade envolvente desde o século 19, sempre se recusou a aprender a ler. Para eles, escrever significa desistir de ser quem são. Entendendo que povos assim não podem ser excluídos da mensagem, criou-se uma proposta missiológica com foco na tradição oral. Os P. vão eventualmente receber uma versão oral de histórias bíblicas que se encaixará perfeitamente em sua tradição.
A oralidade se tornou uma unanimidade e surgiram várias versões para se historiar a Bíblia oralmente. A ideia, antes praticada por poucos, hoje é aceita e quase universalizada. Línguas sem escrita recebem versões orais de histórias bíblicas.
Espera-se que mais tarde alguma missão focalize aquele povo de novo para traduzir a Bíblia; porém, por enquanto, o nome dele sai da lista de prioridades.

Seria uma história com final feliz, se a moeda não tivesse outro lado. No mundo pós-moderno tudo é instantâneo e fugaz. Nossa teologia e missiologia também. Queremos zerar as listas de povos não-alcançados criadas pelos missiólogos e “proclamar” a salvação de Cristo a todos, nos tornando a primeira geração na história que realmente alcançou o mundo inteiro. Não importa se reduzimos o conceito da salvação a um mero “aceitar Jesus”. Se esses povos que alcançamos continuam nas trevas da falta de direitos civis, no isolamento cultural, reduzidos a si mesmos, impedidos — também por causa de sua condição ágrafa — de contribuir com o mundo de fora.

A Bíblia não é parte de uma máquina religiosa impositiva. O acesso à Bíblia é acesso à vida, à reinvenção cultural, à redenção da mulher, à valorização do indivíduo diante do coletivo e muito mais. A escrita não destrói culturas tribais nem a romântica tradição oral; ela continua sendo hoje o único instrumento de cidadania, no sentido mais básico da palavra.

Infelizmente, a consequência de nossa missiologia da oralidade será o fim da missão de dar a escrita e a tradução da Bíblia a povos ágrafos. Deixo aqui o meu protesto, antes que seja tarde e abandonemos de vez a missão de levar a escrita e a Palavra aos povos do mundo.

• Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamado Radical.
braulia_ribeiro@yahoo.com

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