LIVRES DA TIRANIA DA URGÊNCIA – PARA ONDE VAI O SEU TEMPO?

Nada caracteriza melhor a vida moderna do que o lamento: “Se eu tivesse tempo…”

R. E. Neale

       Você já desejou um dia com trinta horas? Com certeza esse tempo extra aliviaria a tremenda pressão sob a qual vivemos. Nossas vidas deixam um rastro de tarefas incompletas. Cartas não respondidas, amigos não visitados, livros não lidos assombram nossos momentos de descanso quando paramos para avaliar o que temos realizado.

       Precisamos desesperadamente de um alívio. Mas, esse dia mais longo poderia mesmo resolver nosso problema? Não estaríamos logo tão frustrados como com o dia de vinte e quatro horas? Tampouco o simples curso natural do tempo nos ajuda a recuperar o atraso. As crianças crescem de modo a exigirem mais de nosso tempo. O desenvolvimento profissional e o maior envolvimento com a igreja trazem mais exigências às tarefas já existentes.       Encontramo-nos trabalhando mais e vivendo menos. Quando paramos para pensar a respeito, percebemos que o dilema aumenta mais rápido que o encurtar do tempo; temos basicamente um problema de priorização.

       O trabalho árduo em si mesmo não nos é de todo nocivo. Nós todos sabemos o que é um ritmo de máxima aplicação durante horas, completamente envolvidos numa tarefa importante. O cansaço resultante é um misto de sensação de conquista e alegria. Não é o trabalho árduo, mas sim a dúvida e a apreensão que produzem ansiedade ao reanalisarmos um mês ou um ano e que nos deixam oprimidos pela pilha de tarefas não concluídas. Somos invadidos por uma sensação desconfortável ao percebermos que falhamos em fazer o que era realmente importante. Os ventos das demandas de outras pessoas e as nossas próprias compulsões internas levam-nos a um recife de frustração. Percebemos, numa comparação bem próxima com nossos pecados, que fizemos aquelas coisas que não devíamos ter feito e deixamos por fazer aquelas que eram necessárias.

       O experiente gerente de uma fábrica disse-me certa vez: “O maior perigo que você corre é deixar as coisas urgentes tumultuarem as importantes”. Ele não percebeu a dureza do impacto deste conselho, o qual se aplica a todas as áreas da vida! E tem constantemente voltado à minha mente, assustando-me e censurando-me, trazendo à tona o problema crítico das prioridades. Vivemos em constante tensão entre o urgente e o importante. O problema é que muitas tarefas importantes não precisam ser feitas hoje ou até mesmo nesta semana. Horas adicionais para oração e estudo da Palavra, uma visita a um amigo querido, a leitura de um livro importante: essas atividades geralmente podem esperar um pouco mais. Mas frequente as tarefas urgentes, apesar de menos importantes, pedem resposta imediata e devoram nosso tempo. Demandas sem fim nos pressionam a cada nova hora que surge. Nossa casa é como um castelo, um lugar particular, privado, distante das tarefas urgentes. O telefone abre brechas em seus muros com requisições que não param. Sua aparência é irresistível e ele consome nossa energia. Mas à luz da eternidade, a sua momentânea proeminência se desvanece. Com um senso de perda nós recorremos às tarefas importantes que foram colocadas de lado. E percebemos então, que nos tornamos escravos da tirania da urgência. Vivendo em função de cronogramas Você costuma dizer: “Não consigo encontrar espaço em minha agenda”? A corrida da vida moderna é governada por agendas. Com o advento de autoestradas, ônibus e aviões, o transporte em larga escala foi alterado a cronogramas.

       Com a Revolução Industrial surgiram máquinas que permitem a previsão dos níveis de produção. A partir destes níveis foi então estabelecida a jornada de trabalho. Logo, a vida privada, incluindo fins de semana e férias, passou a ser programada. O preço a ser pago por atendimentos a todas as demandas de nossas agendas tem atingido diversas áreas de nossas vidas. Só no futuro é que poderemos conhecer os resultados de se viver em função do relógio. No momento percebemos diversas perdas significativas que nos chamam a atenção. Nos últimos trinta anos o número de famílias com mais de uma fonte de renda aumentou além de 100%. Como resultado, seus membros passam menos tempo juntos nas refeições. Café da manhã sempre em horários diferentes. No jantar é comum a ausência de um ou mais membros devido a horas-extras, atividades escolares ou ainda a necessidade de sair mais cedo para atender a algum compromisso. Aqueles que ficam em casa geralmente estão ocupados com algum projeto independente ou mesmo com a TV ou o computador. Ainda mais intrigantes e consumidores de tempo para muitos são os quase ilimitados recursos da Internet.

       Quaisquer que sejam os compromissos individuais, eles agora permitem menos oportunidades para estreitar as relações familiares, para passar mais tempo juntos e compartilhar os interesses de cada um. O desenvolvimento de amizades tem sido, ao mesmo tempo, auxiliado e prejudicado pelo automóvel. Apesar de nos permitir visitar as pessoas com maior facilidade e frequência, somos tentados a agendar vários telefonemas rápidos num único dia. O telefone se tornou um instrumento de indiscutível vantagem para o contato constante, mas também precipitou o abandono da correspondência escrita. Por outro lado, esta arte perdida ganhou vida nova na tela do computador através do e-mail (mas quando você encontra 57 novas mensagens esperando por resposta, provavelmente questiona se o e-mail é realmente uma bênção…). Agenda cheia e vida acelerada têm complicado um problema primário da vida conjugal: falta de comunicação. À medida que marido e mulher passam menos tempo juntos, o relacionamento pode tornar-se tenso devido à diminuição das oportunidades de aproximação íntima. Desentendimentos e discussões também têm efeitos prejudiciais às crianças.

       Uma outra dimensão social atingida é a vizinhança, que frequentemente se torna um pouco mais que uma coleção de casas dispostas lado a lado. Seus habitantes geralmente não dispõem de tempo mais que o suficiente para um aceno ao passarem de carro. Apesar de crianças da mesma idade geralmente brincarem entre si, seus pais podem passar um mês sem ter tempo para conviverem. Até mesmo com os amigos em nossa cidade, as visitas tornam-se mais curtas ou menos frequentes. O que vem ocasionando este declínio nas relações entre os vizinhos? A razão principal é que é necessário tempo para que se faça uma amizade. Como resultado, tendemos a evitar ajudar outros de uma maneira significativa. Como o sacerdote e o levita na parábola do bom samaritano, nossa tendência é passar pelo outro lado. Ou podemos até nem chegar a saber da necessidade de ajuda de um vizinho até que seja tarde. Em situações em que nós mesmos precisamos de atenção pessoal e contato mais próximo com outros, o número de pessoas disponíveis e desejosas de dar tal assistência vem diminuindo. Nosso estilo de vida com agenda lotada e ritmo intenso de atividades, também enfraquece o tecido social de nossas comunidades, que depende de uma ampla rede de grupos voluntários. Em muitos lugares, organizações como Escoteiros, Bandeirantes e Cruz Vermelha têm perdido de 20 a 25% de sua membresia. Numa escola próxima, com cerca de 1000 estudantes, a então atuante Associação de Pais e Mestres degenerou-se a meia dúzia de membros, apesar dos diferentes contatos para aproximar e envolver os pais. Se esta situação não for logo revertida, o próximo ano será o último de seu funcionamento. Também na escola, a participação dos estudantes em seus grupos está em declínio. Como cristãos, nós compartilhamos muitos destes interesses com outras pessoas em nossa comunidade. Temos em alta estima os valores e obrigações familiares. Pais desejam passar mais tempo com seus filhos para serem capazes de atender às suas necessidades, ensiná-los a amar e servir a Deus.

       Existe também a expectativa de que sejamos bons vizinhos. Esta responsabilidade requer tempo e esforço para manter-se um contato que permita a sensibilidade de prestar socorro numa situação de emergência. E, quando solicitados, é importante participar num projeto comum ocasional e de interesse mútuo. Dependendo da situação cívica, cristãos geralmente sentem uma responsabilidade com relação ao bem-estar de sua comunidade. Isso pode significar a atuação voluntária na assistência a uma escola, ou a um hospital, no ato de servir sopa numa cozinha ou de concorrer ao conselho cívico do município. Além disso, a maioria de nós possui responsabilidades na igreja. Em adição aos cultos dominicais, temos escolas bíblicas e reuniões de louvor e oração dos jovens, além de cultos especiais, missões evangelísticas e conferências teológicas. A pressão em se agendar todas estas atividades frequentemente põe fim ao tempo para aprofundamento de relações interpessoais. Como, então, devemos lidar com a questão: “Para onde vai o seu tempo?” O primeiro passo é perguntar: “O que você tem feito para sair do atraso? Tem corrido? Ou talvez se arrastado?” —mas tudo isso pressupõe uma pergunta ainda mais básica: “Para onde você está indo? Quais são seus objetivos de vida?” Posição duvidosa! Talvez você se sinta frustrado por não saber exatamente onde está. Em 1932, Amelia Earhart tornou-se a primeira mulher a realizar um vôo solo pelo Oceano Atlântico. Em julho de 1937,com Frederich Noonan como seu copiloto, ela se lançou como a primeira pessoa a dar a volta ao mundo pela linha do Equador. A oeste no Oceano Pacífico, perto da Nova Guiné, ela aparentemente se perdeu. Sua última mensagem pelo rádio foi: “Posição duvidosa.” Uma busca em massa pelas Guardas Costeira e Marítima com aviões e navios nada encontrou a não ser oceano. A descrição de um fanático é a de uma pessoa que, indecisa quanto à sua direção, dobra sua velocidade. Você reparou se ultimamente vem andando num ritmo mais rápido do que o de costume? Enquanto você provavelmente não é um fanático, seu ritmo acelerado pode ser um indicador de que você perdeu seu senso de direção. Se este é o caso, não seria esta uma boa oportunidade para reduzir a velocidade e redirecionar-se?

Questões para reflexão e discussão

1. Quais tarefas inacabadas são motivos de grande preocupação para você nesse instante?
2. Quais as demandas urgentes de terceiros que mais pesam sobre você?
3. Faça uma lista de dois ou três objetivos mais importantes em sua vida para os próximos seis meses ou para o próximo ano.
4. Quando foi a última vez que você separou ao menos uma hora para analisar seu direcionamento?
5. A esta altura, que fração de tempo em cada semana você poderia reservar para rever suas atividades e reformar suas prioridades e sua agenda?

CHARLES E. HUMMEL

EDITORA ULTIMATO – VIÇOSA – MG

Esse post foi publicado em A família, Periódicos, Ultimato. Bookmark o link permanente.

2 respostas para LIVRES DA TIRANIA DA URGÊNCIA – PARA ONDE VAI O SEU TEMPO?

  1. rfbarbosa1963 disse:

    Lições de Liderança em Ageu

    -Se você se esquecer do que é fundamental, irá tornar-se um escravo do que é imediato(Ag 1:3_9).
    “Quando os líderes e o povo falham em manterem as prioridades corretas, o desapontamento é sempre o resultado. Não se trata de trabalhar mais arduamente, mas com mais sabedoria.”
    -A atividade nem sempre significa realização.
    -A questão não é “Minha agenda ficará cheia?” mas “O que encherá minha agenda?”.
    -Se você não avaliar, ficará estagnado.
    -As prioridades são uma questão de percepção e prática; preciso conhecer e aplicá-las.

    Da Bíblia da Liderança Cristã – Ageu.

    Curtir

  2. rfbarbosa1963 disse:

    Nos primeiros anos da Petrobras fiz parte da Brigada de Incêndio.
    A Brigada de Incêndio é um grupo de pessoas que trabalham em diversos órgãos operacionais e que atuam como o Corpo de Bombeiros quando há uma emergência qualquer. Este grupamento passa por treinamentos periódicos diversos, sendo acionado por telefone ou sirene.
    Qualquer emergência indica que algo errado aconteceu. A ação imediata é resolver a emergência e depois há a formação de uma comissão para identificar as causas e tomar as providências saneadoras e corretivas para que algo semelhante não aconteça no futuro.

    Emergência é quando há uma situação crítica ou algo iminente, com ocorrência de perigo; incidente; imprevisto. No âmbito da medicina, é a circunstância que exige uma cirurgia ou intervenção médica de imediato.
    Urgência é quando há uma situação que não pode ser adiada, que deve ser resolvida rapidamente, pois se houver demora, corre-se o risco até mesmo de morte. Na medicina, ocorrências de caráter urgente necessitam de tratamento médico e muitas vezes de cirurgia, contudo, possuem um caráter menos imediatista. Esta palavra vem do verbo “urgir” que tem sentido de “não aceita demora”: O tempo urge, não importa o que você faça para tentar pará-lo.

    No entanto, há situações de emergência que necessitam de uma intervenção urgente, ou seja, que não podem se prolongar.

    A diferença concentra-se mais no campo da medicina. Por exemplo: hemorragias, parada respiratória e parada cardíaca é emergência. Luxações, torções, fraturas (dependendo da gravidade) e dengue são urgência.

    Então porque este termo: “Livres da tirania da urgência”. Lembro-me do que o 1º casal fez para esconder a sua nudez. Está escrito em:
    Gn 3:7
    “Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.”

    Isto mesmo, eles cobriram a sua nudez com folhas de figueira. Esta ação humana foi algo necessário para cobrir a sua nudez, ou seja, cobrir as suas falhas.

    No âmbito das escrituras e da nossa vida cotidiana, cobrir as falhas indica uma emergência que pode ocorrer novamente. Por isto o termo “Livres da tirania da urgência”, porque envolve perda de vida.

    A ação humana para cobrir a nudez deles foi usar uma folha de figueira, porém a ação divina foi:

    Gn 3:21
    “E fez o SENHOR Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu.”

    Foi necessário o sacrifício de um animal para cobrir a nudez do 1º casal. Como está escrito:

    Hb 9:22
    “E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão.”

    A ação divina imediata para cobrir a nudez do 1º casal foi o sacrifício de um animal, prenunciando a necessidade do sacrifício divino na pessoa do Cordeiro Santo de Deus, que não apenas cobre, mas apaga as nossas transgressões:

    Jo 1:29
    “No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.”

    Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s