Mulheres que são bênçãos

Muitas vezes anônimas, obreiras evangélicas prestam magníficos serviços ao próximo e ao Reino de Deus.

Por Gisele Bastos

O que podem ter em comum a periferia do Recife (PE), os hospitais da Cidade Maravilhosa, uma aldeia indígena no Mato Grosso do Sul, uma ilha próxima à capital gaúcha, as ruas de São Paulo e uma casa simples de São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio? Pessoas que precisam de ajuda, com certeza. Mas todos esses contextos tão diferentes também têm outras particularidades que os unem – e elas atendem pelo nome de Madalena, Fabiana, Sandra, Maria, Eulália e Sílvia. Sim, todas são mulheres comuns, daquelas que cuidam da família, vão para o trabalho e enfrentam seus problemas. Apenas seis entre as outras quase 30 milhões de evangélicas que vivem no país – nada menos que 68% da Igreja Evangélica brasileira. São como tantas outras irmãs em Cristo, que amam ao Senhor e procurar viver de acordo com os ensinos da Palavra. Mas vão além: elas fazem. Em uma sociedade de tantas injustiças e diferenças, gente como Madalena, Fabiana, Sandra, Maria, Eulália e Sílvia chegaram à acha que não basta crer; é preciso fazer. E elas fazem. Cada uma, ao seu modo, tomou para si o chamado de Cristo para ir ao encontro do necessitado, esteja onde estiver. E, se a verdadeira acepção da palavra “santo” é separado, pode-se dizer, sem sombra de dúvida, que elas são santas. Afinal, separaram parte importante de suas vidas para visitar o enfermo, alimentar o faminto, vestir o nu, levantar o caído. Elas são as mulheres do Senhor, mulheres que estão mais interessadas em ser bênção do que receber bênçãos. E quem ganha, claro, é o Reino de Deus.

De casa e coração abertos

Para Madalena dos Santos, uma vida não tem preço. Com recursos próprios e muita dedicação, Madalena abriga viciados em sua própria casa

 “Aos 17 anos, meu filho Marivaldo Afonso Calado se envolveu com drogas”, conta Madalena Martins Afonso dos Santos, de 56 anos. Na época, em 1993, ela estava afastado do Evangelho. “Foi um sofrimento, uma tristeza ver meu filho naquele estado”. O drama levou-a de volta para a igreja e para os braços de Cristo. O rapaz foi para uma instituição de recuperação evangélica e conseguiu largar o vício. Mas Madalena não ficou satisfeita. “Fiz um voto com Deus. Resolvi cuidar de dependentes químicos. Quando eles saem das clínicas, ficam sem referências e muitos não têm para onde ir”, justifica. Viúva, Madalena compromete quase a metade de sua renda para manter o trabalho, em sua própria casa, em São Gonçalo (RJ). Ela não se importa – “Se conseguir ganhar uma alma, estou ganhando galardão no céu”, diz, com simplicidade. Hoje, são quatro pessoas dividindo uma casa pequena: além dela o do filho, estão lá João Carlos Mello, de 37 anos, e Carlos Alberto Salgado, de 28. Em certas ocasiões, a casa está mais cheia. Uma moça, que chegou em estado deplorável e cujo nome Madalena prefere preservar, ficou com ela lá seis meses. Hoje, casada e longe das drogas, é visita constante. A rotina tem de ser espartana. “Todos ajudam nas tarefas. Às oito horas, estamos de pé. Pela manhã, às 8 horas, todos já levantaram. Depois do café, eles têm a tarefa de limpar e arrumar a casa e o quintal. O João é o responsável pela cozinha. Após o almoço, assistem televisão, de preferência programas evangélicos. No sábado, fazemos um culto e, às vezes, convido algum pastor para pregar. Tenho aprendido muito da palavra de Deus e cheguei a uma conclusão: temos que olhar pelo ser humano”. A casa ficou pequena, e Madalena começou a pedir a Deus um lugar maior, onde pudesse atender mais pessoas. “O Senhor me deu o sonho de um centro de recuperação. Estamos prestes a conseguir. Procurei o proprietário de um espaço indicado pela vizinhança, que é próximo da minha casa, e disse que não tinha condições de comprar o imóvel, e por isso quis alugá-lo. Ele simplesmente me entregou a chave e disse para eu ficar o tempo necessário”. É um sítio grande com duas casas; uma será feita de dormitório e, na outra, será instalado o refeitório. “Contamos apenas com doações”, continua a pensionista. O lugar é muito pobre, sem água encanada, iluminação pública ou coleta de lixo. “Mas Deus tem sido fiel”, diz Madalena, resoluta. “Acho que é por isso que Deus me colocou aqui: para cuidar destas pessoas. Hoje é uma satisfação receber cada vida na minha casa. Estou com a minha renda toda comprometida, mas não sou apegada a dinheiro, não. Não vou levar nada deste mundo, e tudo que tenho foi emprestado por Deus. Tudo posso naquele que me fortalece.”

Madalena Martins Afonso dos Santos é pensionista e dedica todo o seu tempo aos viciados que abriga em sua casa, em São Gonçalo (RJ)

Mensageira da esperança

Sílvia leva palavras de fé a pacientes internados nos hospitais do Rio de Janeiro. A obreira em trabalho de capelania com um pequeno paciente: “Dividir o amor de Deus é uma alegria”

 Foi durante sua primeira gravidez que Sílvia Helena Migueis Bastos, carioca de 45 anos, conheceu a irmã Francisca. “Ela fazia visitação aos doentes nos hospitais e me convidou para acompanhá-la”, lembra. Numa das primeiras visitas, Sílvia conheceu uma soropositiva em estado terminal. “Sua família morava longe e passei a visitá-la todos os dias”. A nova amiga lhe pedia que levasse comida, mas Sílvia fez muito mais do que isso – apresentou-lhe a Cristo, o pão da vida. A paciente converteu-se ao Evangelho. “Na semana seguinte, ela morreu”, conta.  Sílvia percebeu que a visitação hospitalar era o seu chamado. Ela buscou, então, preparar-se para exercer o ministério da capelania, estudando no Centro Integrado de Educação e Missões (CIEM). “Já faz 15 anos. O meu coração transborda de amor; sinto-me feliz e realizada”, garante. “Para mim é uma alegria dividir o amor de Deus com aquelas pessoas, levando o conforto e a paz que há em Jesus”. Naturalmente, a obreira já viu muitos milagres. “Certa vez, encontrei um garotinho de apenas seis anos de idade. Ele fora atropelado, e os médicos diziam que não havia esperança. A criança parou de andar, falar, enxergar e ouvir”. O menino jazia em posição fetal, inerte. “No meu coração, eu tinha a certeza de que algo poderia ser feito. Todos os dias, ao seu lado, eu cantava, orava e contava histórias bíblicas. Ao final de uma semana, ele abriu os olhinhos”, emociona-se Sílvia. “Para minha surpresa, numa visita, ele me recebeu levantando o seu bracinho com dificuldade, puxou meu pescoço e me deu um abraço, com um lindo sorriso, dizendo: ‘Oi tia!’ Ouvir a voz daquela criança e sentir seu abraço foi muito gratificante, um incentivo para que eu não desistisse nunca de levar o Evangelho e a esperança aos doentes internados.”

Sílvia Helena Migueis Bastos é casada, estudante de psicologia e membro da Igreja Batista Itacuruçá, no Rio de Janeiro

Gerando renda e dignidade

A empreendedora social Fabiana Dumont apoia mais de 400 artesãs carentes

A empreendedora social Fabiana Dumont jamais pensou em trabalhar com projetos de geração de renda em comunidades carentes. “Realmente, tudo foi preparado por Deus e ele tem aberto todas as portas para a promoção da justiça social e para que estas pessoas possam ter uma vida mais digna”, garante. Ela atua criando grupos de trabalho em comunidades de extrema pobreza da Grande Recife, envolvendo principalmente mulheres. Em Aguazinha, bairro de Olinda, Fabiana apoia artesãs que antes trabalhavam no lixão da cidade. “Elas produzem peças recicladas e bijuterias que hoje são comercializadas até na Holanda”, explica. Já na comunidade das Carolinas, na vizinha Jaboatão dos Guararapes, ela ajudou a montar o grupo Esperança, cujas integrantes produzem peças em tecido, móbiles e chaveiros que também são exportados e até vendidos em lojas badaladas da região. “Além de renda para suprir necessidades da família, este trabalho representa dignidade”, pontifica Fabiana. “Algo que ouvi certa vez e nunca esqueci é que, quando investimos na formação e geração de renda para as mulheres, a vida da família como um todo melhora, porque elas investem tudo nos filhos, em uma alimentação melhor e em melhorias para suas casas”. As duas frentes de trabalho são apoiadas por igrejas de confissão anglicana, que dão suporte na utilização das instalações de seus templos para as oficinas e o estoque, ajudam na gestão da produção e abrem espaço em eventos para a venda das peças. “Atualmente, trabalhamos com cerca de 30 grupos produtivos, envolvendo mais de 400 mulheres”, informa. Mais de 1,3 mil pessoas já foram beneficiadas. Como muitas das artesãs não são crentes, o trabalho tem forte viés evangelístico. “Não nasci num lar evangélico”, revela Fabiana. “Por estranho que pareça, comecei a buscar Deus porque queria definições na minha vida, inclusive na área profissional. Mas Deus fez muito mais do que imaginei. Hoje, é um privilégio trabalhar com algo que ele plantou no meu coração. Creio que nosso trabalho tem sido um instrumento de Deus para trazer libertação da opressão causada pela pobreza extrema. Tenho convicção de que Deus me usa para proporcionar vida mais digna a essas mulheres, com a condição mínima de ter pão na mesa”.

Fabiana Dumont, 38 anos, é pós-graduada em comércio exterior e sócia da empresa Bio Fair Trade, que presta apoio aos grupos de produção formados por mulheres carentes. Ela congrega na Igreja Presbiteriana das Graças, em Recife (PE)

Amor, gratidão e felicidade

O campo missionário de Maria Antonia são as ruas de São Paulo

São Paulo, a maior cidade brasileira, com quase 12 milhões de habitantes, tem também problemas sociais gigantescos. Um dos mais dramáticos é o da população de rua. Os sem-teto amontoam-se sob marquises e viadutos, em condição de extrema vulnerabilidade. Mas a mineira Maria Antonia Rabelo de Araujo faz o que pode para mitigar o drama desses excluídos. “Há muitos anos, realizo um trabalho social voluntário com moradores de rua”, diz. Antes de conhecer a Jesus com o Salvador, ela passou um período de três anos em depressão. “Sentia vontade de morrer, sem ânimo para nada”, lembra. O vazio que sentia dentro de si impulsionou-a em direção ao próximo. “Sempre gostei de ajudar as pessoas”. Convertida em um culto da Igreja Internacional da Graça de Deus, Maria Antonia tornou-se uma evangelista vibrante. “Eu falava de Jesus para a população de rua quando ia e voltava da igreja. Eles são muito carentes, mas, se tratados com amor, ficam gratos e felizes. O amor muda qualquer situação”. Com o tempo, ela reuniu um grupo de trabalho com ajuda de outros crentes. “É um trabalho de formiguinha, mas é o próprio Deus quem nos move. Depois de algum tempo, fui levantada como pastora, ganhei uma sala e uma equipe composta por psicólogos, advogados, assistente social e pedagoga, todos voluntários. No momento estou atendendo uma garota de programa. Ela chegou na igreja quase sem roupa. Sentei ao seu lado e perguntei como poderia lhe ajudar. O Senhor me deu estratégia certa e ela está vindo todos os dias na igreja”. Outro foco de sua atuação são os idosos abandonados. “Encontrei muitos velhinhos nas ruas. Eles se acham um peso para a família e vão embora. Como muitos não sabem ler, montamos cursos gratuitos que funcionam nas dependências da igreja, das seis da manhã às oito da noite, com professores também voluntários”. A pastora lembra bem de Antonio do Nascimento Peixoto, o primeiro morador de rua que atendeu. “Todos os dias, eu falava que Jesus o amava. Hoje, ele é pastor em Fortaleza, no Ceará”, diz, satisfeita. Com o tempo, Maria Antonio organizou o trabalho, que hoje conta com cadastros e listagens de todas as doações recebidas e para quem foram entregues. Mas não perde de vista o essencial: “Esse trabalho é a minha vida.” 

Maria Antonia da Silva Rabelo de Araújo vive em São Paulo, tem 50 anos, é casada e pastora em temo integral

Escola da vida

Obreira da Missão Caiuá, Eulália educa pequenos índios. O casal de missionários Eulália e Gervásio dedicam suas vidas aos índios do Mato Grosso do Sul.

 Trabalho com a Missão Evangélica Caiuá, em Mato Grosso do Sul. Sou professora, mas não exerço essa função em escola, só no ministério. Deus abriu as portas e permitiu que viéssemos trabalhar na aldeia de Taquaperi com a tribo guarani-kaiwá. Amo este povo e este lugar”. Assim, Eulália Maria de Souza Lopes, de 61 anos, resume seu trabalho. Isso é o que ela faz hoje, porque, desde a juventude, envolveu-se com a obra missionária em diversas partes do país. O marido, Gervásio, também é missionário, e os três filhos adultos estão envolvidos com a obra do Senhor – uma delas segue para o Afeganistão agora em setembro. Eulália está completamente integrada à vida e à rotina dos índios.

“Desde o início, meu ministério é com crianças e adolescentes. Ao chegar, fiquei impressionada com o grande número de crianças que vinham à igreja e começamos a trabalhar de maneira zelosa e constante com elas aos domingos, na Escola Bíblica Dominical, e também nas escolas. Treinamos uma equipe formada por adolescentes, jovens e outros voluntários. O resultado foi maravilhoso!”, lembra. “Tenho também um grupo de discipulado semanal com lições bíblicas e músicas, para crianças de quatro a 12 anos. Estou preparando a classe de adolescentes e jovens de amanhã. Atualmente são 48 matriculados nesse grupo. É lindo, abençoado e animador ver esse ministério”. Um dos maiores desafios é em relação ao idioma. “Há falta de obreiros nativos para ajudar com a tradução, pois não falo guarani fluentemente. Os índios menores não entendem bem o português. Fica difícil desenvolver o programa, mas estamos pedindo ao Senhor da seara por obreiros”. Sobre as dificuldades e a distância dos filhos, ela é taxativa: “Não troco isso por nada. É maravilhoso relembrar como era e como está a igreja aqui na aldeia, em todos os aspectos. Há grandes mudanças nas construções, nas famílias, nas vidas. Só Deus para fazer isso.”

 Eulália Maria de Souza Lopes é professora na Missão Evangélica Caiuá, no Mato Grosso do Sul

No jardim de Deus

Iniciativa de crente batista transforma a vida de moradores da Ilha das Flores, cuja miséria foi mostrada em documentário premiado.

O premiado documentário Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado, mostra o cotidiano de abandono e miséria das comunidades insulares do Rio Guaíba, que banha a capital gaúcha. Pois foram cenas com as do filme que a pedagoga gaúcha Sandra Penno imaginou nos seus sonhos missionários quando menina. “Eu dizia à minha mãe que seria missionária”, lembra, divertida. E virou, mesmo. Ela trabalhou em escolas cristãs e foi obreira em vários estados do Brasil durante 20 anos, até voltar à sua Porto Alegre, sem saber exatamente o que fazer ali. “Fiquei inquieta com a realidade tão dura mostrada no filme. Então, eu e um pequeno grupo de mulheres da Igreja Batista de Mont’Serrat orávamos incessantemente por aquela comunidade. Resolvemos ir lá”. Corria o ano de 2007 e uma grande enchente assolou a Grande Porto Alegre. A Ilha das Flores ficou praticamente submersa. “Atravessamos a pé uma das pontes e vi a escola e as casas simples, a maioria de madeira, imersas diante da força das águas”. A estrada ficou intransitável e Sandra e suas companheiras não puderam voltar. “Bati na porta de uma casa. Cinco mulheres estavam lá dentro, e logo perguntaram o que eu estava fazendo ali. Respondi que tinha ido lá para falar que Deus existe e que pode mudar a história de qualquer pessoa, em qualquer lugar. Em pouco tempo, me tornei amiga daquelas mulheres”. Em pouco tempo, Sandra encontrou maneiras de ajudar na prática. A coisa começou com encontros informais, estudos bíblicos, reuniões de oração e almoços. Logo, outros evangélicos aderiram. “Distribuímos muitas doações e visitamos as casas, entre elas a de alguns recicladores de lixo a céu aberto. Vi olhos brilhando por um pedaço de pão em meio aos sacos de lixo. Era uma cena que ia muito além do documentário, até as crianças comiam restos”. Em 2010, nasceu o projeto Jardim de Deus, com voluntários em mutirões de limpeza nos quintais. O lixo foi retirado e em seu lugar foram plantadas árvores frutíferas, hortas e flores. “Organizamos uma instituição social para implantação de uma cozinha comunitária. O prédio que abriga o Instituto de Educação e Desenvolvimento Humano – que faz trabalhos beneficentes e filantrópicos –, foi construído e reformado com ofertas das igrejas e da sociedade civil”, comenta Sandra. “Atualmente vivemos um período de consolidação da Igreja Jardim de Deus, que nasceu no coração da ilha. Percebo que a Ilha das Flores é hoje muito diferente da comunidade que conheci há cinco anos. A conquista da cidadania e a melhoria de condições de vida já é realidade para muitas famílias. Com coração grato, louvo a Deus pela dedicação de cada irmão que, de maneira tão desprendida, se doou nesse trabalho tão especial.”

Sandra Mara Kindlein Penno, 52 anos, é graduada em Pedagogia e tem mestrado em Educação. Ela é membro da Igreja Batista de Mont’Serrat, em Porto Alegre (RS) 

Cristianismo Hoje  Revistas, Novidades, Liderança da Igreja & Estudos Bíblicos

Anúncios
Esse post foi publicado em Bíblia, Cristianismo Hoje, Mulher, Periódicos. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Mulheres que são bênçãos

  1. A carta de uma reformadora subversiva

    Genebra, 15 de abril de 1560.

    Carta de uma reformadora

    Queridas irmãs em Cristo em 2017, M.D. deseja salvação e crescimento na graça de Jesus Cristo.

    Que alegria saber que mesmo vivendo eu aqui em Genebra, tão distante de vocês não somente no espaço físico, mas também no tempo, posso fazer com que escutem a minha voz.

    Quero me apresentar a vocês. Chamo-me Maria Dentiere, nasci na cidade de Tournai, na Bélgica, em 1495, portanto 522 anos nos separam. Fui freira agostiniana e passei boa parte da minha vida em um convento, chegando a ser abadessa, ou seja, uma supervisora. Com acesso livre à biblioteca, encontrei ali os escritos de Lutero.

    Como foi importante ler a Palavra de Deus e os textos bíblicos usados pelo grande reformador, que confrontavam a superstição adotada pela igreja romana, abriram meus olhos. Realmente a verdade nos liberta: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” (João 8.32). “A Tua Palavra é a verdade.” (João 17.17).

    Eu havia passado muito tempo na escuridão da hipocrisia, e somente Deus foi capaz de fazer-me enxergar minha condição e conduzir-me à luz verdadeira. Finalmente, eu confiei exclusivamente em Cristo para minha salvação e grande foi a minha alegria.

    Mas, é claro, que não pude permanecer naquele convento, precisei fugir e fui para Estrasburgo, um ponto de encontro de huguenotes (protestantes franceses) e outros protestantes que eram perseguidos em suas nações.

    Meu envolvimento com a causa reformada, foi total, desde o início. Não consigo fazer nada pela metade e, principalmente, em relação ao compromisso com a verdade da Palavra de Deus, sei que não devo me omitir.

    Depois de quatro anos em Estrasburgo, casei-me, em 1529, com o pastor Simon Robert, que também havia sido um agostiniano, portanto, falávamos a mesma língua e tínhamos vivido a mesma experiência.

    Foi então que Guilherme Farel, sim, o mesmo que desafiou Calvino a se comprometer com a causa da Reforma em Genebra, nos convidou a ir para aquela cidade. Foi um tempo bom aquele, aprendíamos mais sobre a doutrina reformada e pregávamos o Evangelho da Graça. Porém, cinco anos depois, meu esposo faleceu. Meu segundo esposo foi Antônio Froment, diácono de Farel em Genebra, que também se tornou pastor.

    Deus me deu um espírito de ousadia e destemor, que espero que vocês, queridas irmãs, também tenham. Sei que os tempos são outros, aí no futuro. Mas, sei que enfrentam também grandes desafios e temem falar de Cristo porque podem ser consideradas inconvenientes. A pressão a que se acomodem ao modo de pensar de sua época é bem grande.

    Quanto a mim, podem imaginar tempo mais perigoso? A igreja idolatrada por toda a Europa era a católica, e fora dela não havia salvação, mas eu me atrevi a entrar no convento das clarissas e lhes falar sobre os textos bíblicos que jamais lhes foram explicados. Eles davam base às doutrinas reformadas e integravam as mulheres à sociedade e à liberdade de servirem a Cristo além dos muros.

    Não diz a Bíblia que não devemos esconder a luz? Não afirma que somos sal da terra e luz do mundo? Como podemos brilhar escondidas dentro dos muros de um convento? Ou dentro das paredes de nossas casas? Ou mesmo caladas nas igrejas?

    Pela graça de Deus e pela força do Seu Espírito Santo, não me calei mais. E minha principal palavra foi em defesa das mulheres que permaneciam sem direito a pregar. Eu comecei a criticar de forma aberta as lideranças protestantes por limitarem o ensino das Escrituras aos homens.

    null

    Conhecer a Palavra de Deus, para mim, foi tão libertador e importante, que queria que todas as mulheres em meu tempo tivessem também acesso a ela.

    Escrevi uma carta em março de 1539 para a rainha Margarida de Navarra, na qual defendi uma participação mais ativa das mulheres na sociedade e na igreja. Usei muitos argumentos bíblicos em defesa do ministério da pregação e ensino feminino, como: a mãe de Moisés, que desafiou a lei para proteger seu filho; a mulher samaritana, que se tornou pregadora após encontrar-se com Jesus e as mulheres que foram ao sepulcro vazio onde foram convocadas pelo próprio mestre a divulgarem a ressurreição.

    Eu não tenho lido nada na Bíblia sobre mulheres como falsas profetisas e, com ousadia, ainda afirmo que não foi uma mulher que vendeu e traiu Jesus Cristo, mas sim um homem: Judas.

    Eu creio, com todo o meu coração, que se Deus concedeu graça a algumas boas mulheres, revelando-lhes algo santo e bom através de sua Sagrada Escritura, elas não deveriam abster-se de escrever, falar ou declarar tal graça, mesmo encontrando oposição, pois não devem enterrar seus talentos.

    Vocês também creem assim, queridas irmãs? Também entendem que devem contar a história de Jesus e levar almas à salvação? Ou são reprimidas pela sociedade em que vivem, que não tem a mesma convicção de vocês?

    Eu defendo a doutrina reformada do “sacerdócio universal dos crentes” e, para mim, todos, homens e mulheres salvos por Cristo tem a graça e a responsabilidade da pregação do evangelho. Nós temos dois evangelhos: um para os homens e outro para as mulheres? Ou, um para os sábios e outro para os tolos? Não somos todos um em Jesus Cristo? E em qual nome somos batizados, no de Paulo ou de Apolo? No do Papa ou de Lutero? Não é no nome de Cristo?

    Em minha epístola eu conclamei a irmã do rei da França a aconselhá-lo a acabar com todas as divisões religiosas em seu reino, pois ele havia sido comissionado por Deus para aquele governo.

    Minha obra foi considerada subversiva porque nela declarei que os verdadeiros pregadores do Evangelho, entre os quais, Calvino, haviam sido desrespeitados, quando foram expulsos da cidade pelos atuais governantes que eram fracos, intrigantes, disseminadores de dissenção e só cuidavam de seus próprios interesses financeiros.

    Será que na época de vocês, os governantes são justos e não buscam seus próprios interesses?

    Meu texto foi confiscado pelo governo de Genebra e o gráfico que o imprimiu foi preso. O protestantismo me fez, portanto, a sua primeira vítima de censura, a exemplo da prática da igreja romana que, em seu Index, listava os livros proibidos à fé cristã.

    Mesmo assim, não me calei e acabei irritando Farel, que transferiu meu esposo para a cidade vizinha de Massongy. Senti-me muito injustiçada, e a ingratidão daqueles reformadores a quem defendera, feriu meu coração.

    Na minha carta para a rainha de Navarra, eu escrevera que “embora não fossemos autorizadas a pregar em assembléias e igrejas públicas, não nos era proibido escrever e aconselhar umas às outras, com todo amor”. Eu lhe declarei que meu desejo era o de encorajar as mulheres a não terem medo de serem exiladas por causa da Palavra de Deus. Nós podemos ser caluniadas, injustiçadas e discriminadas, mas Deus nos honra e nos ama.

    Eu queria tanto que as mulheres lessem e entendessem os escritos sagrados. Minha esperança era que no futuro as mulheres não fossem tão desprezadas como no passado… em todo o mundo.

    Vocês, agora, têm mais informações históricas e podem descobrir que faleci em Genebra, em 1561, reputada como joio na minha igreja e como má conselheira para o meu marido. Em meu leito de morte, porém, recebi elogios de Calvino e, posteriormente, a história considerou minha epístola como um tratado teológico. Em 2002, meu nome foi gravado no Muro dos Reformadores daqui de Genebra, ao lado de grandes vultos da Reforma, como: Calvino, Farel, Knox e Zwínglio.

    Nunca foi meu objetivo obter reconhecimentos humanos, ou fama, ou poder. Eu só queria que todas nós mulheres, a uma só voz, unidas no tempo e no espaço, erguêssemos nossas vozes para dizer que só Jesus Cristo salva. Eu desejava que nada nos limitasse, mas eu me entristecia com tantos impedimentos.

    Porém, também me alegro, porque sei que as mulheres são especiais e diferentes, elas não amam o poder, não almejam cargos, nem altas posições eclesiásticas; elas adoram verdadeiramente a Jesus Cristo e seu único desejo é servi-Lo e divulgar as Suas boas novas.

    Queridas irmãs, continuem amando e servindo a Cristo, a história posterior a vocês também narrará seus feitos como narra os meus. E, lembrem-se do que é mais importante: nos céus todas seremos galardoadas pelo bom trabalho realizado na seara do nosso mestre.

    Só a eternidade poderá aquilatar a perda para o Reino de Deus com o silêncio das vozes femininas, causado por nós mesmas, quando nos calamos, ou por outros quando não permitem que exerçamos nossos dons espirituais.

    Minha última recomendação a vocês, juntamente com meu abraço de despedida, é para que não se apeguem a este mundo, mas sim acumulem tesouros nos céus, porque serão eternos e imperdíveis. E prossigam sempre firmes e pródigas na obra do Senhor. Que Ele abençoe a todas.

    Com carinho,
    Maria Dentiere

    Nota: Carta fictícia escrita por Rute Salviano a partir da biografia de Maria Dentiere.

    • Rute Salviano é licenciada em Estudos Sociais, bacharel em Teologia (especialização em Educação Cristã), mestre em Teologia (concentração em História Eclesiástica), pós-graduada em História do Cristianismo pela UNIMEP e autora de Uma Voz Feminina na Reforma, Uma Voz Feminina Calada Pela Inquisição e Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, publicados pela Editora Hagnos.

    http://www.ultimato.com.br/conteudo/a-carta-de-uma-reformadora-subversiva

    Curtir

  2. MONICA disse:

    SOLICITO INFORMAÇÃO PARA ME CAPACITAR PARA TRABALHAR COM ESSE MINISTÉRIO DE COM DEPENDENTES QUÍMICOS.ONDE POSSO ME CAPACITAR (CURSOS, PALESTRAS, EXPERIENCIAS ETC) . O ESPIRITO SANTO TEM ME INCOMODADO. SEMPRE APARECE ALGUÉM DO MEU LADO PRECISANDO DE AJUDA.JESUS ABENÇÕE .iRMA MONICA.

    Curtir

    • rfbarbosa1963 disse:

      Monica, paz do Senhor Jesus. Ao ler o seu comentário pensei em dois ministérios que certamente trabalham com pessoas nesta sistuação, inclusive conheço um pouco do 2º (JOCUM), pois tive a oportunidade de conhecer o Lazaro da Jocum, cuja base aqui no Rio de Janeiro é em Santa Cruz da Serra em Duque da Caxias. Na época Eles se apresentaram lá na REDUC em dois lugares diferentes, um na Vila das Empreiteiras e outro no Auditório no prédio da Superintendência. Foram peças teatrais que abordavam a dependencia química. Acredito que eles possuem algum tipo de curso ou palestra que trata do assunto, ok.
      Vou lhe passar o link para acessar os dois ministérios. Ai voce poderá encontrar uma forma de contacto com os mesmos, ok.

      1º)Exercito da Salvação
      http://www.exercitodoacoes.org.br/

      2º)JOCUM (JOVENS COM UMA MISSÂO)

      http://www.jocum.org.br/

      Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s