O trabalho social como missão: começando pela igreja

“Missão” tem origem na palavra mittere (latim) que significa enviar, mandar, emitir, arremessar. Ela foi adotada pela igreja na Idade Média para descrever o envio de Jesus por Deus ao mundo no poder do Espírito Santo.

Quem envia? Deus

Para onde? Para um mundo divorciado do seu Criador

Para fazer o quê? Reconciliar consigo mesmo todas as coisas.
Com que autoridade e poder? No poder do Espírito Santo.

Começamos a usar a palavra “missão” no século passado, todas as vezes que uma igreja enviava pessoas para uma atuação religiosa específica em lugares distantes. Os motivos principais eram promover a conversão dos não-cristãos e implantar igrejas.

Ao focar exclusivamente nestes dois motivos cometemos o erro de individualizar e institucionalizar demais a missão da igreja no mundo. Distanciamo-nos do modelo deixado por Jesus que via a pessoa de forma integral, o indivíduo como parte de uma comunidade, cada comunidade como parte de uma realidade maior, e esta realidade como parte integrante da história que ele mesmo escreve e cujo fim será marcado por um reino de justiça e paz.

Isto não é difícil de perceber se olharmos, por exemplo, o que o Novo Testamento diz sobre o final dos tempos. A maioria destes textos escatológicos relata acontecimentos que afetarão radicalmente não apenas pessoas, mas também a natureza, os poderes, os governos, as etnias, as nações. A grande notícia hoje é que a reconciliação (com o Criador e com as criaturas) é possível, e está disponível em todas as esferas da experiência humana. O evangelho anunciado no Novo Testamento vai muito além da resposta individual (conversão) e da conquista de novos adeptos à fé cristã (novas igrejas); ele abrange toda a história humana e todo o universo!

Voltando às origens

Voltemos então às origens. “Novamente Jesus disse: ‘Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio” (Jo 20.21).

Quem nos envia? Jesus.

Para onde? Para os ambientes onde reina a injustiça e o descaso para com o nosso Criador. Como consequência, a vida é desvalorizada, o ser humano é oprimido – especialmente aqueles que não detêm poder.

Para fazer o quê? Para servirmos como agentes de reconciliação. Cristo tornou possível a paz entre o Criador e a criatura, entre a criatura e o seu próximo, entre a criatura e o seu meio ambiente (Co 1.20).

Com que autoridade e poder? No poder do Espírito Santo.

Objetivos básicos no trabalho social cristão

Partindo desta perspectiva de missão, que contribuição específica o trabalho social cristão pode oferecer ao mundo? Quando uma igreja envia um de seus membros para o trabalho social entre crianças e adolescentes socialmente vulneráveis, ela deve entender que a missão na qual acaba de se envolver deve atingir quatro objetivos básicos:

– Resgate e cura. Para as crianças e adolescentes vulneráveis a mensagem de reconciliação traz a promessa de que é possível quebrar o ciclo opressor que governa seus relacionamentos. Eles podem e devem buscar ajuda para sair de situações violentas e desumanas. Eles descobrem que não foram predestinados a serem vítimas de tudo e de todos. Já em um processo de cura, eles descobrem que é necessário abrir mão de serem juízes daqueles que nos feriram – Deus se encarregará deles. E mais, descobrem que ele quer nos perdoar e curar, ele está do nosso lado e tem um futuro promissor para nós!

– Cuidado. As necessidades diárias de crianças e adolescentes não podem esperar por processos burocráticos intermináveis. Eles precisam de comida, um lugar seguro para morar, uma escola para frequentar, alguém para abraçar e aconselhar, hoje! Há mil e uma maneiras de prover estes cuidados. No final, todos eles devem dizer a mesma coisa para a criança: você mora no coração de Deus!

– Defesa. Lutamos por melhorias práticas na vida das crianças, mas não paramos por aí. Queremos ver crianças e adolescentes fazendo as pazes com Deus e com as pessoas que os rodeiam. Por isto, lutamos pela família. Queremos que eles tenham convivência em uma comunidade na qual os valores do reino de Deus começam a ser observados. Por isto, lutamos pela garantia dos direitos das crianças e adolescentes negligenciados. Queremos ver a sociedade caminhando para uma reconciliação com Deus que resulta em ações práticas de justiça, por isto lutamos nos espaços públicos e buscamos influenciar nossas autoridades para que suas decisões beneficiem as crianças e suas famílias.

– Promoção. Num mundo onde Jesus é o Rei, as crianças serão acolhidas como cidadãs, não como objetos de consumo, como é a realidade de tantas hoje. Isto significa treinar a nós mesmos a enxergar as crianças pela perspectiva de Jesus, começando no seio da igreja! Se Jesus participasse de nossas igrejas hoje, que reformas ele faria no jeito de tratarmos as crianças? Teríamos crianças ministrando, na sua simplicidade, a seu modo, a nós adultos? Será que a nossa adoração seria tão “adultocêntrica” como é hoje? Reconheceríamos a espiritualidade dos pequeninos como algo a ser admirada e imitada?

O trabalho de Deus de “reconciliar consigo mesmo todas as coisas” exige de nós uma resposta que envolve nosso compromisso e engajamento. Apesar disso ele é essencialmente uma obra divina, e, é claro, divinamente orquestrada. Parte do que almejamos só acontecerá no futuro. No presente anunciamos esta nova ordem inaugurada por Jesus na sua morte e ressurreição há dois milênios.

Que programa de governo pode fazer isto? Que autoridade humana instituída pode ligar na terra algo que será ao mesmo tempo ligado no céu? (Mt 18.18.) No entanto, fomos comissionados para fazer justamente essa tarefa, que se torna impossível se não ocuparmos todas as brechas disponíveis na sociedade.

No trabalho social é comum expressarmos tristeza e até mágoa em relação à igreja. Como manifestação da presença de Jesus na terra, ela precisa se empenhar em nos enviar, nos capacitar, nos acolher de volta quando adoecemos na alma. E nós, trabalhadores, precisamos reconhecer que a obra é de Deus e que a missão é da igreja. Reconciliemo-nos então com ela!

Revista Mãos Dadas Edição nº 28 Junho 2012

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2 respostas para O trabalho social como missão: começando pela igreja

  1. Entre dores e amores: comunhão na comunidade

    Por Karen Bomilcar

    “Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve entregá-lo a ninguém. Envolva-o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde-o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sem movimento, sem ar – ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai tornar-se indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa a uma tragédia ou pelo menos ao risco de uma tragédia é a condenação. O único lugar onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e perturbações do amor é o inferno”.
    [C. S. Lewis em Os Quatro Amores]

    Onde existem pessoas, estamos sujeitos ao sofrimento

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    Cresci no ambiente de comunhão da comunidade cristã. Ali, aprendi, fui desafiada, encorajada, nutrida e também ferida e decepcionada. Conheci o gosto da tristeza, da traição, da indiferença. Onde existem pessoas e relacionamentos, estamos sujeitos ao sofrimento das relações. Por isso me aproximo do tema de maneira realista, como quem experimentou da ambiguidade deste contexto, mas também experimenta o amor e esperança viva do potencial curador da comunidade cristã através da presença transformadora do Cristo em nós.

    Depois de experimentar a dor na comunidade, este trecho de C.S. Lewis em Os quatro amores me relembrou a tentação e os riscos da estagnação neste lugar de dor e isolamento, e me encorajou a caminhar na direção da reconciliação e da renovação do amor pela comunidade. Lembrei que também sou parte da comunidade com potencial de agregar ou ferir. Fui relembrada da aridez da vida quando nos isolamos e dos riscos que isto representa à saúde emocional e espiritual. Meu trajeto de cura também foi em comunidade, experimentando o potencial reconciliador e restaurador que o Espírito Santo promove em nosso meio. Estou falando do corpo de Cristo, família que nos foi dada e que encontramos espalhada ao redor do mundo. Esta expressão visível de Deus que nos identifica para além de traços culturais e idiomas, este corpo de Cristo que se norteia pela Palavra e busca viver essa dinâmica comunitária sob este paradigma.

    A fé cristã é relacional, comunitária. É pessoal, porém não é privada. Precisamos uns dos outros para crescer. É desejo de Deus que estejamos todos reunidos em nossa diversidade, promovendo unidade, sendo instrumento e um sinal visível com a missão de levar a luz de Cristo a todos os homens.

    Apesar da natureza espiritual da comunidade cristã, precisamos lembrar de que consiste em um agrupamento de seres humanos feridos que necessitam ser resgatados, redimidos e que caminham num constante processo de transformação e conversão de seu próprio coração ao coração de Deus. Os conflitos relacionais serão frequentes, as dores serão inevitáveis, mas somos o povo da reconciliação e isso precisa ser praticado em nosso meio. Mas como entendemos o conceito de comunidade e quais são nossas expectativas e frustrações?

    Entender o conceito e a dinâmica da comunidade minimiza a possibilidade de frustrações

    imagem

    A comunidade é comumente descrita como um lugar ou local, e a maioria das pessoas se refere a ele como algo que não permanece com eles uma vez que eles deixam esse espaço particular. É preciso ampliar esta percepção, inserindo o aspecto relacional, pessoas reunidas com um interesse comum, visão, missão ou direção. Embora a comunidade geralmente seja um termo descrito para se referir a um lugar em que ocorre a interação social em torno de laços comuns, a conexão e o sentido de pertença não são necessariamente presentes ou experimentados. É preciso atentar para essa dinâmica relacional.

    Em comunidade sabemos que o espaço é compartilhado e que temos limites e possibilidades na interação, mas construímos um espaço de confiança e liberdade para caminhar na direção um do outro. Isso transcende a noção de lugar, mas pode incluir a localização como uma referência para onde esses relacionamentos são desenvolvidos. Buscamos um sentimento de pertencimento e compromisso uns com os outros. Estas expectativas por si só, podem gerar frustração.

    Expandindo o conceito de comunidade para a realidade da vida cristã, vemos através deste paradigma que o pecado e a independência criaram nossa alienação de Deus e uns dos outros e que Deus deseja restaurar-nos através do seu Espírito. Nosso modelo para desenvolvimento de relacionamentos deve ser a compreensão do Deus Triúno, a Trindade, como uma comunidade relacional própria, vivida em interdependência e em reciprocidade amorosa.

    Um chamado à amizade

    Um chamado à amizade

    O cristianismo pode ser descrito como um chamado à amizade. Como seguidores de Cristo, somos convidados a um relacionamento com Ele, em que não somos mais chamados de servos, mas amigos. É de grande importância reconhecer a necessidade de integrar o mandamento de Deus para amar a Deus com todo o nosso coração e também amarmos nosso próximo. A consciência de que a amizade de Deus para nós é um presente define a prerrogativa de todas as outras relações a serem estabelecidas em comunidade. Assim como a amizade de Deus para nós é graça, as pessoas que Ele nos dá em amizade também são graça para nós. Essa integração é fundamental para a vida cristã e estabelece o paradigma relacional em que devemos viver.

    O modelo de interdependência é retratado na vida da Trindade e foi vivido por Jesus no mundo como ele encontrou pessoas. Como Jesus vivia entre amigos e em comunidade, e quando se encontrou com pessoas, ele mostrou a graça presente na interdependência. Em nosso relacionamento com o Cristo a consciência de nossas vulnerabilidades nos confronta com a necessidade de uma vida de humildade e reconhecimento de que somos seres dependentes que precisam da graça de Deus e essa relação nos ensina a deixar nosso isolamento. Uma vida de amizade com Deus presume uma aliança e nossas amizades espirituais também devem ser cultivadas como uma aliança de quem assume um compromisso alegre de uma vida compartilhada à medida que somos moldados à imagem de Cristo.

    Sobre a tensão entre dependência e independência, John Stott aborda o tema ao lembrar aos cristãos que, na pessoa de Cristo, Deus nos ensinou que a dependência tem uma dimensão que precisa ser abraçada e que não afeta nosso estado de dignidade como pessoas:

    “A recusa de depender dos outros não é uma marca de maturidade, mas de imaturidade (…) Nós chegamos ao mundo totalmente dependentes do amor, cuidado e proteção dos outros. Passamos por uma fase de vida quando outras pessoas dependem de nós. E a maioria de nós vai sair deste mundo totalmente dependente do amor e dos cuidados dos outros “.

    A importância do equilíbrio entre autonomia e independência

    equilíbrio

    Fomos criados para a interdependência. Existe uma estreita conexão entre nosso aprendizado e crescimento, e a maneira como desenvolvemos relacionamentos. O que caracteriza uma aliança, um relacionamento, é “conhecer com” ou “na presença de” e isso é algo integral e essencial para aprender e conhecer. Em todas as nossas experiências formativas, percebemos que nossos encontros com a realidade são mediados e interpretados neste contexto de relacionamento, na presença de outro.

    Uma das principais dificuldades no estabelecimento de relações autênticas, transparentes e significativas é a presença de pecado em nossos corações, que conduz ao desejo de independência e que nos leva ao individualismo radical. Nossa constante luta entre viver a partir do medo ou a partir do amor é o que prejudica nossa capacidade de abrir nossos corações a Deus e aos outros, pois nos limitamos ao nosso próprio conhecimento sobre quem somos e quem é Deus sem a perspectiva mais ampla que o outro pode oferecer e trazer para nossas vidas.

    A cultura também fala contra a dedicação a relacionamentos profundos e significativos. Somos ensinados a viver vidas autônomas e independentes e, em vez de compartilhar nossas vulnerabilidades e fraquezas para um processo de crescimento e cura e estimulados a aprender a gerir sozinhos essas características da melhor maneira possível na tentativa frustrada de impedir novas interferências em outras áreas de nossas vidas. Através do nosso desenvolvimento como pessoas, aprendemos a temer o desconhecido, e ao fazê-lo, ignoramos as contribuições e as perspectivas que os relacionamentos podem nos trazer ou de como ele nos desafiará para mudanças e crescimento.

    Como base para a interdependência saudável, existe o contributo fundamental do autoconhecimento, que proporciona benefícios à comunidade como um todo. Em seu poema “Cura”, Wendell Berry afirma que “quanto mais coerente alguém se torna em relação a si mesmo como criatura à luz do Criador, mais plenamente adentra na comunhão com todas as criaturas”. Quando a autoconsciência e o autoconhecimento são nutridos, as pessoas entram em comunidade com expectativas mais equilibradas, além de uma noção mais realista de suas limitações e possibilidades. O equilíbrio entre a solitude que traz crescimento e a vida em comunidade é essencial. Extremos são perigosos.

    Afinal, o que esperar da comunidade?

    comunidade

    Essa noção de limitações e possibilidades é o que dá o tom para o desenvolvimento de relacionamentos saudáveis. As pessoas vão ao encontro da comunidade sobrecarregadas de expectativas e culpa por não ser o que deveriam ser. Embora uma comunidade ideal não exista, uma comunidade deve ser onde as pessoas entendem que são aceitas, apesar de suas fraquezas e limitações existentes. Onde seus dons e possibilidades são incentivados e ativamente envolvidos. Onde oferecemos oportunidades de recomeço e reconciliação.

    Ao nos aproximarmos como comunidade cristã, é importante perguntar o que posso ser em comunidade, o que posso oferecer e como posso caminhar. A grande dificuldade dos nossos dias é o caminho inverso, o questionamento do que a comunidade pode me oferecer e como pode satisfazer minhas necessidades e contribuir para a minha vida. Quando foco em Deus e no outro, o Espírito Santo trabalha nas minhas fragilidades enquanto ofereço o que posso e quem sou à comunidade, enquanto sirvo as pessoas ao meu redor e isso é tratado no coração de outros da mesma forma. Quando adentro a comunidade com esta perspectiva, administrar expectativas, tolerar frustrações e permanecer em unidade torna-se um caminho mais viável.

    Na comunidade cristã, com nossas práticas espirituais, temos o espaço para celebração, oração, confissão, perdão, transformação. Precisamos uns dos outros, precisamos de Deus em nós e entre nós. Que nas diferentes fases da vida e momentos de nossa caminhada com Deus, possamos encontrar esperança de nutrir, recomeçar e reencontrar a beleza da comunhão com Ele e uns com os outros. Quanto a mim, sugiro: comece ao redor da mesa, nutrindo a fé e compartilhando a vida. Não despreze o potencial dos pequenos encontros, transformadores, que se expandem para toda a comunidade.

    Igreja viva

    • Karen Bomilcar trabalha como Psicóloga Clínica Hospitalar. É mestre em Teologia e Estudos Interdisciplinares – Regent College/UBC (Canadá). Atualmente reside em São Paulo (SP), integra a equipe de liderança do Fórum Cristão de Profissionais (IBAB-SP) e também dedica seu tempo à música, literatura, cuidado pastoral e cultivo de amizades, especialmente ao redor da mesa.

    Ilustrações de Anderson Monteiro.

    http://www.ultimato.com.br/conteudo/entre-dores-e-amores-comunhao-na-comunidade?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Ultimas+356

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  2. Qual é a relação entre evangelismo e ação social?

    Qual deveria ser a relação entre evangelismo e ação social no contexto de nossa responsabilidade cristã total?

    Se admitirmos que não temos liberdade nem para focalizar na evangelização a ponto de excluir o cuidado social, nem para tornar o ativismo social um substituto do evangelismo, precisaremos definir a relação entre os dois. Há três tentativas principais de se fazer isso.

    Primeiro, alguns consideram a ação social um meio de evangelismo. Neste caso, evangelismo e conversão são os objetivos principais, mas a ação social é um meio preliminar útil e efetivo para alcançar estes objetivos. Em sua forma mais ostensiva, isto faz do trabalho social (seja alimentação, saúde ou educação) o açúcar no comprimido, a isca no anzol, ao mesmo tempo em que, em sua melhor forma, dá ao evangelho uma credibilidade que, de outra maneira, ele não teria. Em qualquer dos casos o cheiro de hipocrisia permeia nossa filantropia. O que nos impele a nos engajarmos nisso é um motivo francamente dissimulado. E o resultado de fazer do nosso programa social um meio para outro fim é que produzimos os chamados “cristãos cesta básica”. Isso é inevitável se nós próprios temos sido “evangelistas cesta básica”. Eles herdaram essa ilusão de nós.

    Não é de se admirar que Gandhi tenha dito, em 1931: “Considero que o proselitismo disfarçado de trabalho humanitário é, no mínimo, doentio […]. Por que eu deveria mudar de religião devido ao fato de um médico que professa o cristianismo como sua religião ter me curado de alguma doença?”.

    A segunda maneira de relacionar evangelismo e ação social é melhor. Ela diz respeito à ação social não como um meio para o evangelismo, mas como uma manifestação do evangelismo, ou, pelo menos, do evangelho que está sendo proclamado. Neste caso, a filantropia não está anexa ao evangelismo de modo artificial, externamente, mas cresce a partir dele como sua expressão natural. Podemos quase dizer que a ação social torna-se o “sacramento” do evangelismo, pois faz a mensagem significativamente visível. J. Herman Bavinck, no famoso livro “An Introduction to the Science of Missions”, defende esse ponto de vista. Medicina e educação são mais do que “um meio legítimo e necessário de criar uma oportunidade para a pregação”, escreve ele, pois “se estes serviços são motivados pelo próprio amor e compaixão, então eles deixam de ser simplesmente preparação, e naquele exato momento tornam-se pregação”.

    Até aqui não devemos hesitar em concordar com isso, pois existe um precedente marcante no ministério de Jesus. Suas palavras e ações estavam correlacionadas, as palavras interpretando as ações e as ações incorporando as palavras. Ele não somente anunciou as boas novas do reino; ele também manifestou visíveis “sinais do reino”. Se o povo não acreditasse em suas palavras, disse ele, então que acreditassem nele “ao menos por causa das mesmas obras” (Jo 14.11).

    O bispo John V. Taylor adota um pensamento semelhante em sua contribuição à série “Fundamentos Cristãos”, intitulada For All the World. Ele escreve sobre uma “apresentação do evangelho em três aspectos”, que significa que os cristãos são chamados para “articular o evangelho […] por meio do que eles dizem (proclamação), do que são (testemunho) e do que fazem (serviço)”. Isto também é verdade, e dita de maneira distinta. Mesmo assim, me deixa apreensivo. Pois faz do serviço uma subdivisão do evangelismo, um aspecto da proclamação. Não nego que as boas obras de amor tiveram um valor evidente quando realizadas por Jesus e verdadeiramente têm um valor evidente quando realizadas por nós (Mt 5.16). No entanto, não consigo aceitar que esta seja sua única ou mesmo maior justificativa. Se for, ainda assim, e talvez até conscientemente, elas são apenas um meio para justificar um fim. Se as boas obras forem uma pregação visível, então elas esperam um retorno; mas se as boas obras forem o amor visível, então elas são feitas “sem esperar nenhuma paga” (Lc 6.35).

    Isso me traz ao terceiro modo de explicar a relação entre evangelismo e ação social, que creio ser a forma verdadeiramente cristã, ou seja, que a ação social é uma parceira do evangelismo. Como parceiros, os dois se completam, mas são, mesmo assim, independentes entre si. Lado a lado, cada um se sustenta por si e possui sua própria autonomia. Nenhum deles é um meio para o outro, ou mesmo uma manifestação do outro, pois cada um é um fim em si mesmo. Ambos são expressões de amor genuíno. Como o Congresso Anglicano Evangélico Nacional em Keele declarou, em 1967, “Evangelismo e serviço cheio de compaixão pertencem, juntos, à missão de Deus” (parágrafo 2.20).

    O apóstolo João me ajudou a compreender isso com as palavras de sua primeira carta: “Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (1ªJo 3.17-18). Aqui o amor em ação emerge de uma situação com dois momentos. Primeiro, “ver” um irmão passando necessidade e segundo, “possuir” os meios para satisfazer essas necessidades. Se eu não relacionar o que “tenho” ao que “vejo”, não posso afirmar que o amor de Deus habita em mim. Além do mais, esse princípio se aplica a qualquer tipo de necessidade vista. Posso ver uma necessidade espiritual (pecado, culpa, perdição) e ter o conhecimento do evangelho que satisfará essa necessidade. Ou a necessidade que vejo pode ser uma enfermidade, a ignorância ou uma moradia precária e posso ter o conhecimento médico, educacional ou social para aliviar a situação. Ver a necessidade e possuir o recurso impele o amor a agir, e a ação será evangelística, social ou até mesmo política dependendo do que “vemos” e do que “temos”.

    Não significa que palavras e atitudes, evangelismo e ação social, são parceiros tão inseparáveis que todos nós devamos nos engajar em ambos o tempo todo. As situações variam, e o chamado dos cristãos também. Com respeito às situações, haverá momentos em que o destino eterno da pessoa é a consideração mais urgente, pois não devemos nos esquecer que os homens sem Cristo estão perecendo. Porém, certamente haverá outras vezes em que a necessidade material da pessoa será tão premente que ela não será capaz de ouvir o evangelho se o compartilharmos com ela. O homem que caiu entre os salteadores precisava, acima de tudo, naquele momento, de remédios e curativos para suas feridas, não de folhetos evangelísticos nos bolsos! Semelhantemente, nas palavras de um missionário em Nairóbi, citado pelo bispo John Taylor, “um homem faminto não tem ouvidos”. Se o nosso inimigo estiver faminto, nosso mandato bíblico não é evangelizá-lo, mas alimentá-lo (Rm 12.20)! E existe ainda a diversidade de chamados cristãos, e todo cristão deve ser fiel ao seu próprio chamado. O médico não deve negligenciar a prática da medicina para evangelizar, nem o evangelista deve se distrair do ministério da palavra para ministrar às mesas, como os apóstolos logo descobriram (At 6).

    • Trecho publicado originalmente em A Missão Cristã no Mundo Moderno, de John Stott (Editora Ultimato).

    http://ultimato.com.br/sites/blogdaultimato/2017/07/22/qual-a-relacao-entre-evangelismo-e-acao-social/

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