A fuga nos vícios

Celebrando a recuperação!

O que tornava Davi especial não era como ele entrava em suas crises, mas como saía delas. Ele sempre voltava para a presença do Senhor e o buscava.
Em um belo dia, ninguém toma esta decisão: “Acho que vou me tornar um viciado!”. O que acontece é que alguém sente alguma dor, ou rejeição, ou solidão e procura algo que o alivie disso.
No começo a “substância” parece funcionar porque ela entorpece os sentimentos negativos e proporciona um pico de euforia, mas depois continua expandindo o próprio vazio que deveria preencher: traz menos alívio e apenas um pouco de prazer.
Uma atriz famosa internou-se em nossa clínica para tratamento de dependência química e começou a relatar como começou a usar cocaína. Ela tinha de fazer uma apresentação e estava muito insegura. Um colega seu ofereceu a droga, e ela experimentou. Sentiu-se encorajada e percebeu que o medo passou. Gostou da experiência e passou a usar pequenas doses antes de toda apresentação. Com o tempo, precisou aumentar as doses para obter o efeito desejado. Algumas semanas depois percebeu que já estava dependente e usava a droga todas as vezes que sentia necessidade. Quando foi internada, havia tomado uma dose tal que ficara três dias e três noites dormindo depois que de passado o efeito. Já não conseguia mais trabalhar.
O tratamento começava com a abstinência da droga e cuidados médicos caso ela precisasse de algum medicamento, que era dado num curto intervalo de tempo. Depois ela já era capaz de enfrentar as crises de abstinência com a terapia e outras atividades que a clínica oferecia.
Uma das nossas ferramentas de trabalho era o Programa dos Doze Passos do Alcoólicos Anônimos. Ela foi reconhecendo sua impotência perante a droga e através das palestras resolveu entregar sua vida a Deus. Quando escreveu seu inventário, relatou feridas emocionais desde a sua infância e foi descobrindo as raízes de sua insegurança e de seus medos. Encontrou nos amigos da clínica, e posteriormente na irmandade dos grupos anônimos, uma nova família, e aprendeu a receber amor e atenção que não tivera em sua família de origem. Teve uma recaída, voltou à clínica e retomou o tratamento. Desta vez foi mais fácil. Ela tinha boa vontade para parar de usar a droga e foi encontrando suas forças em Deus. Alguns anos já passaram, e até onde sabemos continua sóbria. Lembro-me também de um executivo que era dependente de álcool. Começou a beber nos bailinhos da adolescência para poder se soltar e ficar à vontade com as garotas, pois era bastante retraído. Fora criado numa família cujo pai era militar e recebeu forte repressão durante sua infância. O medo de fazer algo que o pai censurava tornou-o um adolescente inseguro e medroso. No começo bebia controladamente, mas depois foi perdendo o controle, e quando foi internado estava a ponto de perder seu posto de vice-presidente de uma empresa multinacional. Durante o tratamento foi encontrando em Deus um novo pai e conseguiu um crescimento emocional. Livrou-se das bebedeiras aprendendo a evitar o primeiro gole e tratando de suas feridas emocionais num processo terapêutico. Mais tarde entrou em contato com uma igreja evangélica, aceitou Jesus como seu poder superior e hoje faz parte de um ministério chamado Celebrando a Recuperação, que usa os Doze Passos e as Oito Bem-Aventuranças.
Tivemos muitas outras experiências com pessoas que deixaram de usar álcool e drogas. Fica claro que, tratando-se de drogas psicoativas, o álcool e outras drogas atuam em uma parte de nosso cérebro chamado sistema límbico e alteram nossas emoções. O efeito pode ser calmante ou euforizante. A pessoa perde sua consciência, que é nosso centro de censura, e passa a ter um comportamento totalmente antissocial.
Creio que os portadores de dependência são na sua maioria pessoas que sofrem e têm medo de enfrentar os desafios da vida. Penso que a igreja pode acolhê-las e ajudá-las a se livrarem das drogas. O primeiro passo é aceitá-las sem condená-las. Essas pessoas precisam se sentir seguras para receberem a ajuda adequada.
Hoje trabalhamos com o Celebrando a Recuperação, que trata não somente de compulsivos à droga, mas também às compras, ao sexo, ao jogo, etc. E como sabemos que todos somos pecadores e temos compulsão a pecar, cremos que todos precisamos do Celebrando. Durante o programa apresentado pelo Celebrando, passamos a reconhecer Jesus como nosso Salvador e Senhor de nossa vida. Estudamos os passos e as bem-aventuranças, num programa baseado na Palavra de Deus. Aprendemos a aplicar a graça de Deus em qualquer circunstância de nossa vida e a celebrar nossas vitórias um dia de cada vez. “Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal” (Mateus 6.34).
Aprendemos a colocar nossa ansiedade sobre Cristo, pois Ele tem cuidado de nós (Fp 4:6-7).
Compartilhamos nossas dores e vitórias em pequenos grupos e confessamos nossos pecados uns aos outros. “Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados” (Tg 5:16).
Escolhemos entre nós um companheiro que já tenha mais experiência em sua recuperação para nos ajudar sempre que precisarmos. “É melhor ter companhia do que estar sozinho, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas. Se um cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se. Mas pobre do homem que cai e não tem quem o ajude a levantar-se” (Ec 4:9-10).
Estamos sempre prontos a ajudar outros em suas dependências e compulsões, pois isso faz parte da manutenção de nossa sobriedade.
Carlos Barcelos é pastor, casado com Elza. Ambos são psicólogos e trabalham com dependentes químicos há mais de trinta anos.
São membros da Igreja Batista Memorial de Alphaville e dirigem o Celebrando a Recuperação para o Sul do Brasil.
Revista Lar Cristão
Edição 129
Novembro . Dezembro | 2012
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Uma resposta para A fuga nos vícios

  1. Shela Holda disse:

    Great collection, many thanks for sharing Eric 🙂

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