A cada dia 21 mil chineses tornam-se cristãos

Hong Kong e Shenzhen: duas regiões capitalistas na China

Numa mesma aeronave e com uma única escala, percorri os 18.500 quilômetros que separam São Paulo de Tóquio em 24 horas e 50 minutos. Não sei quantas vezes ouvi a Tocata e fuga em ré menor, de Bach, com os fones de ouvido. De repente, uma das comissárias avisou que alguém havia deixado uma prótese dentária no toalete… Ouvi umas risadinhas. Ao meu lado, uma mocinha nipo-brasileira de 17 anos estava temerosa. Era sua primeira viagem de avião. Em Tóquio, Fabiana teria de tomar outro avião para Nagoia, onde o pai estaria à sua espera. A moça se juntaria aos quase 250 mil brasileiros descendentes de japoneses que estão trabalhando no Japão para melhorar sua condição de vida. No aeroporto de Los Angeles comprei a revista China Today e em Narita (um dos aeroportos internacionais do Japão) li vários recortes de jornais sobre a China, que tinha levado comigo, enquanto esperava o vôo para Hong Kong, onde cheguei tarde da noite. 

No dia seguinte, liguei de um orelhão para a família no Brasil e me lembrei de que, no início do século passado, a troca de correspondência entre a Inglaterra e a Índia gastava normalmente um ano. Almocei no McDonald’s com Gilmar e Kátia Pimenta e seus dois filhos pequenos, e Amilton da Conceição. Gilmar é lapidário da Emerald Mines desde 1984, primeiro nos EUA e, depois, em Hong Kong. Converteu-se nessa cidade há 14 anos por intermédio do missionário brasileiro Olinto de Oliveira, que hoje trabalha em Macau. Ele e a esposa têm sido uma bênção para vários missionários que desenvolvem seu ministério na ex-colônia britânica. Naturalmente ambos são de Governador Valadares. Já o atacante Amilton, ex-jogador do São Paulo Futebol Clube (1985-95), é Atleta de Cristo e joga hoje no Rangers, em Hong Kong. A esposa, Marta da Conceição, é diretora da Escola Dominical da Shepherd Church. 

Hong Kong tem uma área de 1.092 quilômetros quadrados e uma população de 6,3 milhões. Há menos de três anos foi devolvida à China, da qual é uma das regiões administrativas especiais. Mais de 75% dos moradores de Hong Kong trabalham na indústria de serviços: banco, seguro, telecomunicações e turismo. 

Gastei duas horas para obter meu visto de entrada na China. Lá encontrei o francês Max Gattein, que viajou conosco até Cantão. Digo conosco porque me fiz acompanhar do gaúcho Jurandir, que é estudante na China. Eu havia tentado tirar meu visto no Brasil mesmo, mas quando informei à funcionária do Consulado da República Popular da China no Rio de Janeiro que eu era pastor e pretendia escrever uma reportagem sobre o país, ela me disse que, nesse caso, eu precisaria de uma autorização do Ministério do Exterior da China e não poderia pregar em nenhuma igreja. As exigências diminuíram um pouco depois que enviei para o consulado algumas edições da revista Ultimato e o livro O Mineiro com Cara de Matuto ao redor do mundo, e depois de explicar que, na verdade, estava apenas aproveitando a oportunidade de passar uma semana na China antes de participar de um congresso internacional de missões a realizar-se em Kyoto, no Japão, de 25 a 29 de outubro do ano passado. 

Já havia feito uma pequena incursão na China, quando estive em Macau no início de 1994. Visitei apenas a cidade de Shenzhen, a uma hora e meia de barco de Macau. Nada escrevi até então sobre a China porque Shenzhen é como Hong Kong, uma cidade, digamos, capitalista dentro de um país comunista. Queria conhecer a China como de fato ela é. Shenzhen é um admirável cartão de visita da China. Vi ali o China Folk Culture Villages, um belo mostruário das muitas etnias chinesas. Participei de um culto no apartamento de um professor universitário, ao lado de dois australianos, três coreanos, um americano, um brasileiro e uma chinesa. Cantamos em inglês e em chinês. Lemos a Bíblia e oramos. Conheci um depósito de Bíblias entradas clandestinamente no país por meio de turistas, sobretudo japoneses. 

Duas Cláudias brasileiras em Kai-Feng 

De Hong Kong a Cantão, uma cidade com mais de 3 milhões de habitantes, a distância é curta. Fomos até lá para tomar o trem noturno para Zhengzhon. Só deu para ver uma enorme e linda estação ferroviária, cheia de gente. Ali comi um ovo cozido no chá. O primeiro missionário protestante a ir para a China, em setembro de 1807, chamava-se Robert Morrison e fixou residência em Cantão. Viveu 52 anos, a metade dos quais na China. Foi ele quem traduziu para o chinês o Novo Testamento, em 1813, e o Velho Testamento, em 1819. Escreveu também um dicionário chinês–inglês em três volumes. Dizia que a língua chinesa era um “mar sem margens”. Seu colega de ministério William Milne, 3 anos mais novo, exagerava: “Para dominar o chinês é necessário um homem com corpo de bronze, pulmões de aço, cabeça de carvalho, olhos de águia, coração de apóstolo, memória de anjo, vida de Matusalém”. Os dois eram ingleses. Quando Morrison morreu, em 1834, um dos candidatos que se ofereceram à Sociedade Missionária de Londres para substituí-lo foi Robert Kalley, que acabou indo para a Ilha da Madeira e depois para o Brasil (1855). Em sua vida, Morrison batizou Tsae A-ko, em julho de 1814, 7 anos depois de iniciar seu ministério, e mais dez convertidos. No final daquele século, missionários presbiterianos fundaram um colégio em Cantão. 

De Cantão a Zhengzhon são 1.613 quilômetros. Gastamos 18 horas, numa confortável cabine com seis camas (duas beliches), sem portas. O trem estava lotado. Em cada cabine havia duas grandes garrafas térmicas com água quente, para o passageiro fazer chá ou colocar numa caixa de papelão cheia de macarrão pré-cozido e temperado, muito usado na China. 

Pela manhã, Jurandir me chamou para me apresentar Cathy Mao, que ele havia conhecido na cabine ao lado e descoberto que era cristã. De fato, a moça havia se convertido numa universidade no sul da China. Trata-se de uma jovem empresária que trabalha no ramo de compra e lapidação de jóias, na China e em Sri Lanka, onde passa a maior parte do tempo. 

Depois de atravessar campinas e mais campinas muito bem regadas e plantadas, chegamos às 12h30 em Zhengzhon, capital da província de Henan, com mais de 1,2 milhão de habitantes. Nunca na minha vida vi tanta bicicleta estacionada . Elas estavam ao lado da estação. Entramos num empório de três andares, cheio de homens e mulheres vendendo, comprando, comendo a sua marmita ou jogando damas, dominó ou cartas. 

À noite jantei num restaurante pé de porco, frango, carne de boi, cabrito, brócolis e arroz, com o Rev. Song Feicheng e esposa. Ele é diretor de um seminário teológico e presidente de outro. Durante a refeição misturamos duas bebidas, uma tipicamente chinesa (chá quente sem açúcar) e outra tipicamente americana (coca-cola gelada). Fiz uma pequena entrevista com o pastor chinês. Na noite seguinte visitei com o Rev. Feicheng duas igrejas não-oficiais. Na primeira, havia 24 mulheres e um ou dois homens, reunidos num templo não muito pequeno, com bancos, púlpito e um velho harmônio. Não me pareceu ser uma igreja clandestina, a não ser por não ter o seu templo frente para a rua. O pastor disse que era uma igreja semi-oficial. Na segunda igreja, encontrei um galpão cheio de fiéis, sobretudo mulheres. Uma senhora dirigia a reunião. Cantaram uns quatro hinos, inclusive o clássico Santo, santo, santo. Deram-me a palavra. Disse-lhes que eu os amava muito e que um dia cantaríamos todos juntos numa mesma língua. Esta tinha cara de igreja não-oficial, pois se reunia num galpão dentro de um terreno cercado e com pouca ou nenhuma iluminação. Feicheng é pastor de uma igreja oficial e dá assistência a essas igrejas não-oficiais. 

Passei algumas horas em Kai-Feng, antiga capital da China Imperial, a 70 quilômetros de Zhengzhon. Lá me encontrei com duas moças nipo-brasileiras — Cláudia Tanaca, de São Paulo, e Cláudia Asano, de Pereira Barreto, SP — que se converteram no Japão há coisa de três anos e agora estudam o mandarim na Universidade de Kai-Feng. Ambas são da Igreja Missionária do Deus Vivo, no Japão, fundada pelo pastor brasileiro Ricardo Kitaoka. Conheci um casal mais ou menos jovem que almoçou conosco. Eles têm um filho de 6 anos e meio e são cristãos há pouco tempo. Fizeram questão de que eu conhecesse a casa de um só cômodo onde moram, num cortiço. O banheiro é comunitário. Os dois estavam bem vestidos, ele de colete e gravata. Na ida para o restaurante, ela me deu a mão. Uma das Cláudias me explicou que era sinal de amizade. Fiz questão de visitar um padre católico romano de 80 e poucos anos. Ele ainda celebra missa duas vezes por dia (às 6 e às 9 horas). A freqüência é pequena. Para chegar à rodoviária, tivemos de enfrentar um trânsito enorme e desordenado: as ruas estavam tomadas de bicicletas, triciclos, motocicletas, táxis amarelos, ônibus e muitos pedestres. A impressão que eu tive é que a vez pertence ao mais afoito. 

Oito milhões de bicicletas 

Gastamos pouco mais de 8 horas para percorrer os 689 quilômetros que separam Zhengzhon de Pequim. Outra vez de trem-leito. 

Depois de deixar as malas no hotel, fomos logo para a famosa Praça da Paz Celestial (Tian Na Men, em chinês), considerada a maior praça do mundo. De fato, é um quadrilátero de 40 hectares que pode comportar mais de um milhão de pessoas. Defronte ao prédio da Assembléia Popular Nacional, havia um enorme painel luminoso, mostrando que faltavam apenas 59 dias para a China ter Macau de volta, o que aconteceu em 20 de dezembro de 1999. 

Fotografei uma menina de 4 ou 5 anos que estava junto da mãe. Ela fez pose para ser fotografada. É filha única, como em quase todos os casos. Se os pais dela também são filhos únicos, a menina não tem irmãos, não tem primos, não tem tios e nunca terá sobrinhos e cunhados. Com a política de um filho por casal, adotada há mais de 20 anos, a família chinesa horizontal está desaparecendo. O que se mantém é apenas a família vertical: avós, pais, filhos e netos. Quem tem mais de um filho é discriminado pela sociedade, não recebe aumento salarial e sofre outras restrições. O jornalista brasileiro Jayme Martins, que viveu 20 anos na China, diz que esses filhos únicos são uma espécie de “pequenos imperadores” e, mimados por seus pais e avós, tornam-se preguiçosos, egoístas e geniosos. Se esse programa de incentivo para que os casais tenham apenas um filho der o resultado esperado, isso só vai acontecer daqui 5 anos. O governo acredita que a população da China começará a decrescer no ano 2005. Com cerca de 1,3 bilhão de habitantes hoje, quem sabe o número descerá para a metade no ano 2060! Essa é a esperança do governo. Naturalmente, um controle de natalidade é necessário, pois a população da China cresce uma Austrália por ano (18,1 milhões). Um em cada cinco habitantes do planeta é chinês. Para obter sucesso com o programa do filho único, o governo distribui gratuitamente preservativos e dispositivos intra-uterinos aos casais em seus lugares de trabalho (foram 1,5 bilhão de preservativos em 1993). Recorre-se também ao aborto, especialmente se a ultra-sonografia revelar que a mãe está grávida de uma menina e não de um menino. Em muitos lugares da China ainda se dá mais importância ao filho homem do que à filha mulher. Enquanto a média geral é de 105 ou 106 meninos para cada 100 meninas, na China o número de meninos tem aumentado a cada ano por causa do aborto: em cinco das trinta províncias do país, o número de meninos chega a 120 para cada grupo de 100 meninas. 

Fotografei também um senhor de certa idade e de barbas compridas numa cadeira de rodas. Ele me chamou para perto dele. Pensei que era para me pedir algum dinheiro. Então o homem tirou a sua própria câmera fotográfica do bolso e pediu ao Jurandir bater uma foto dele comigo. Senti muito não poder bater um papo em chinês com ele. 

Não houve tempo para visitar o interior do mausoléu de Mao Tse-Tung, o homem que fundou o Partido Comunista, em 1921, e transformou a China numa nação comunista, em 1949, quando tinha 56 anos. Ele morreu em 1976, aos 83. Apesar de ter sido uma das pessoas mais poderosas do mundo, Mao Tse-Tung está ali há 24 anos, inerte e insepulto. 

Do outro lado da Praça da Paz Celestial, acha-se o Palácio Imperial, com seus 9 mil aposentos, mais velho que o Brasil, pois foi concluído pelo imperador Yong Le, um século antes de Pedro Álvares Cabral. É também chamado de Cidade Proibida, já que, na época dos mandarins, o povo não podia entrar lá. 

Antes de me retirar daquele lugar, fui obrigado a me lembrar do massacre de estudantes (até hoje não se sabe o número certo de vítimas) ocorrido naquela praça em junho de 1989. Também me lembrei das fotografias que vi nos jornais do majestoso desfile militar de três semanas atrás, para comemorar o 50º aniversário da revolução que derrubou o generalíssimo Chang Kai-Check e inaugurou a República Popular da China. 

Pequim é uma das mais velhas e populosas cidades do mundo. Tem 4.000 anos e mais de 10 milhões de habitantes. É uma cidade muito bonita. Nela trafegam mais de 8 milhões de bicicletas. Defronte a um templo budista, fotografei uma senhora de aparência bem idosa dirigindo um triciclo. Nas amplas avenidas da parte moderna da cidade, quando o sinal fica verde, número enorme de bicicletas põem-se em movimento. Além do Templo do Lama, visitei também o Templo de Confúcio, o Templo do Grande Sino e o Templo do Céu, onde os imperadores costumavam orar e oferecer sacrifícios de animais para obter boas colheitas. Andei de metrô, de ônibus, de táxi e a pé o dia inteiro. À noitinha, enquanto esperava Jurandir, que tinha ido a uma loja, fiquei parado num imenso calçadão, num lugar que me pareceu chique demais. De repente, as pessoas começaram a se afastar de um determinado ponto da calçada, ao som de uma valsa de Strauss. Então o chão virou uma fonte luminosa a jorrar água colorida para cima, numa dança que acompanhava o ritmo da música. O espetáculo durou alguns minutos e foi muito bonito. Por meio de sinais, solicitei a um transeunte que escrevesse para mim o nome que estava gravado debaixo do busto de alguém que havia vivido entre 1918 e 1987. Ele me atendeu mas não resolveu o problema, pois escreveu no papel que eu lhe dei o nome em chinês e não com os caracteres ocidentais… 

Enquanto Jurandir não chegava, assentei-me num banco da rua e pus-me a fazer minhas anotações. Dois ou três rapazes assentaram-se no mesmo banco e um deles procurou ler o que eu estava escrevendo. Outro me ofereceu um cigarro. Lamentei outra vez não saber chinês para me comunicar, para testificar de Jesus, para evangelizar. Para mim não existe melhor estratégia missionária do que a arte de amar as pessoas, de fazer verdadeira amizade e de evangelizá-las pessoalmente. 

Igrejas públicas e igrejas particulares 

Parece que o italiano Mateus Ricci (1552-1610) soube fazer amizade durante os 10 anos em que morou em Pequim. Aliás, fazem agora exatos 400 anos que Ricci chegou a Pequim, depois de aprender o chinês em Macau. Ele é o mais famoso missionário católico romano de todo o Oriente depois de Francisco Xavier (1506-1552). Embora nunca tenha se encontrado pessoalmente com o imperador, Ricci o conquistou mantendo em funcionamento os dois relógios que lhe deu de presente e desenhando-lhe mapas. Para que o cristianismo fosse aceito pelos chineses, o jesuíta tornou-o o menos estrangeiro possível. Quando Ricci morreu, em 1610, aos 58 anos, havia 2 mil cristãos na China, 20% destes na capital. Entre os convertidos havia chineses nobres e preparados. 

Morrendo de canseira e sono, já no hotel, recebi a visita de um professor universitário aposentado que sabia do meu interesse em ficar bem por dentro da situação da igreja na China. Este chinês é um notável líder cristão. As opiniões dele não batem perfeitamente com as opiniões do Rev. Song Feicheng, com o qual conversei em Zhengzhon. Ele não tem grande simpatia pelas igrejas oficiais; acredita que elas sofrem demasiada influência do governo. Mas morre de amores pela chamada igreja subterrânea. Entendo que a questão é muito delicada e para tratar dela é necessário evitar os extremos e, especialmente, a paixão ideológica. Não se pode tirar partido da religião para defender o capitalismo ocidental nem para acusar o comunismo chinês. Não temos muita autoridade para condenar a ditadura da esquerda porque tivemos, aqui no Brasil, na Argentina e no Chile, a ditadura da direita, sem dúvida mais amena que as ditaduras da China, da antiga União Soviética e de outros países comunistas. 

Em primeiro lugar, é bom lembrar que as restrições que o governo chinês impõe à religião não atravancaram a igreja. A cada dia, mais de 21 mil chineses se tornam cristãos. A estimativa é de que exista hoje de 80 a 100 milhões de crentes na China. Em termos numéricos, há muito mais fiéis na China comunista do que nas Filipinas, o único país cristão do Extremo Oriente, e do que na Coréia do Sul, onde o evangelho tem crescido de modo incomum. Em termos percentuais, a China só perde para as Filipinas e Coréia do Sul. A situação na China é incomparavelmente melhor do que no Japão, onde há total liberdade de pregação. Quem me confirmou esse número de cristãos chineses foi o mundialmente conhecido Thomas Wang, atual presidente do Centro Internacional da Grande Comissão, com o qual me encontrei em Kyoto, poucos dias depois de minha passagem pela China. Quando os 6 mil missionários estrangeiros, especialmente americanos, foram expulsos da China há 50 anos, havia 750 mil cristãos. Hoje esse modesto número pode ser multiplicado por mais de 130 vezes. 

Tanto os católicos romanos como os protestantes estão divididos em igrejas oficiais ou públicas e igrejas não-oficiais ou particulares, também conhecidas aqui no Ocidente como igrejas subterrâneas, nome que provoca a ira comunista. As igrejas particulares não aceitam a intro-missão do Partido nem do governo. As igrejas públicas aceitam essa limitação para continuar a existir de forma mais visível, dentro de circunstâncias especiais. Comete pecado de juízo temerário aquele que discrimina a igreja pública por julgá-la infiel a Jesus e às Escrituras. Eventualmente essa igreja pode abrigar algum ministro de tendência liberal em questão de doutrina, como a igreja particular pode abrigar algum líder sem pureza doutrinária. Há também cristãos que se movem entre as duas posições, como o Rev. Feicheng, que é pastor de uma igreja pública e, ao mesmo tempo, dá assistência e proteção a uma ou mais igrejas particulares. No caso da Igreja Católica Romana, a situação parece ser mais complicada, porque o governo teima em nomear os bispos, quando, em todo o mundo, quem faz isso é Roma. A igreja que mais cresce é a igreja particular, não-oficial. Há muito mais igrejas evangélicas do que igrejas católicas. 

É claro que o cristianismo e qualquer outra religião (budismo, taoísmo, islamismo e, agora, a seita Falung Gong) sobrevivem com muita dificuldade na China. Elas são uma minoria, mesmo incluindo as religiões folclóricas: talvez apenas 20% da população. A maioria não professa religião alguma (cerca de 67% na estimativa de David Barrett para o ano 2000) ou professa o ateísmo (cerca de 13%). Os membros do Partido Comunista, o pessoal das Forças Armadas e os menores de 18 anos não podem filiar-se à igreja. De fato, tem havido muitas prisões, mortes e perseguições por causa da fé. Mas, como sempre acontece, uma das causas do espantoso crescimento da igreja na China é o sofrimento. As outras razões, diz o livro editado por Jonathan Chao (The China Mission Hand-book, capítulo IV), são a fome espiritual, o avivamento, a pregação itinerante, os sinais e maravilhas operados pelo Espírito e a ajuda que vem do exterior. 

A grande maioria dos cristãos são do sexo feminino. O grosso mesmo dos crentes está na zona rural, onde vive 70% da população. As três províncias que detêm a maior porcentagem de fiéis são Zhejiang, Henan e Anhui, não muito distantes de Xangai, onde viveu o missionário inglês James Hudson Taylor (1832-1905), fundador da muito bem-sucedida Missão do Interior da China (China Inland Mission). Por ocasião de sua morte, em 1905, aos 73 anos, a missão tinha 825 missionários de várias nacionalidades espalhados por todo o país, mais de 300 estações missionárias, mais de 500 evangelistas chineses e 25 mil conversos. Uma das razões do sucesso de Hudson Taylor foi o esforço que ele fez para se identificar o máximo possível com o povo da terra. Seu neto James Hudson Taylor III, de 70 anos, nascido em Kai Feng, antiga capital da China, é o atual diretor da famosa OMF (Overseas Missionary Fellowship), que é a continuação da China Inland Mission. Esse Taylor III esteve no Brasil em 1987, por ocasião do I Congresso Missionário Ibero-americano (COMIBAM). Gao Ying, pastora de uma igreja em Pequim, diz que 60% dos 400 pastores ordenados a partir de 1979 são mulheres. 

Quando Jesus ordenou a evangelização de todas as nações até os confins do mundo, a China tinha 57 milhões de habitantes e quem estava no poder era a dinastia Han. As mulheres romanas já usavam roupas feitas da famosa seda chinesa e a China rivalizava com o Império Romano. Embora a China estivesse incluída na Grande Comissão, parece que a evangelização do país teria começado apenas 6 séculos depois de Cristo, graças aos cristãos nestorianos. Na época, a China era governada pela dinastia Tang (de 618 a 907) e provavelmente era o país mais rico e civilizado do mundo. A partir daí, houve muitas marchas e contra-marchas até a chegada dos jesuítas no século XVI e dos protestantes no século XIX. O atual embaraço movido pelo governo comunista não é o único na história das missões chinesas. Os missionários que trabalham na China estão cansados de ser expulsos do país. Uma das expulsões mais distantes aconteceu no século XVII, quando os manchus tomaram conta do governo. 

A Grande Muralha e Xangai 

No sábado pela manhã, fomos de ônibus à Grande Muralha (Chang Cheng, em chinês) cerca de 70 quilômetros ao norte de Pequim, já na região montanhosa. Tida como “a única realização humana de dimensões suficientemente grandes para ser visível do espaço”, a Grande Muralha, que originalmente cobria a distância entre o mar Amarelo e a Porta de Jade (2.695 quilômetros), é o trabalho de construção de maior envergadura do planeta. Dizem que ela foi construída por dezenas de milhares de criminosos, a partir do ano 214 a.C., por iniciativa do imperador Che Huang-Ti, da dinastia Tsin, para afastar os invasores vindos do resto da Ásia. Por fotografias, nunca tinha percebido que as muralhas subiam e desciam as partes mais altas e íngremes das montanhas. Julgava que elas, como os rios e as estradas, iam acompanhando os vales. 

Havia muita gente andando por ali, não só turistas estrangeiros, mas também chineses. Num amplo estacionamento, onde havia uma infinidade de lojas e casas de lanche, almoçamos, eu e Jurandir, arroz, caule de alho, tomate com ovo e verdura. Não comemos carne desta vez. Não foi, porém, por causa do ditado que diz que o chinês come tudo que tem quatro pernas, exceto mesa… Quase comi com a mão, pois foi uma luta para achar uma simples colherzinha de plástico. Se alguém me repreendesse por não usar os pauzinhos, eu lhe diria que, há mais de 4.600 anos, os chineses comiam com o auxílio de um primitivo garfo de osso, de acordo com recentes descobertas arqueológicas. Nesse local havia um placar comunicando, como os da Globo, que faltavam tantos dias para a chegada do ano 2000. 

Embora com 36 horas de antecedência, não consegui lugar no trem-leito de Pequim para Xangai, no sábado à noite. Fui obrigado a tomar um avião da Air China no domingo pela manhã, o que me impediu de conhecer a mais populosa e cosmopolita cidade da China, já que no início da tarde embarcaria para Osaka, no Japão. Percorremos os 1.160 quilômetros entre Pequim e Xangai em uma hora e meia. Estranhei não haver nenhuma referência a Santos Dumont na reportagem sobre a história da aviação na revista de bordo. 

No Aeroporto de Xangai, comprei dois livros com excelentes fotografias, um das Montanhas Huangshan e outro de Xangai mesmo. As montanhas e os desertos ocupam dois terços da China. Lá estão os montes Himalaia e o pico mais alto do mundo, o Everest, assim chamado em honra ao topógrafo inglês George Everest. O pico tem 8.882 metros de altitude. Apenas 13% do território da China pode ser cultivado, mas dele se tira alimento suficiente para quase toda a população. 

Xangai é impressionante por seu tamanho, por sua arquitetura antiga e moderna, por sua economia e por sua beleza. Embora a maior parte dos chineses nasça, viva e morra em suas próprias cidades, apenas 15% da população de Xangai é formada de nativos. Ali está o terceiro maior porto do planeta e um dos mais antigos. Foi nele que desembarcou, no dia 1o de março de 1854, um rapaz solteiro de apenas 22 anos chamado Hudson Taylor, o famoso missionário inglês que se fez chinês. 

Fundado em Xangai em 1921, o Partido Comunista já não é o mesmo. De alguns anos para cá, está havendo uma cuidadosa abertura para o capitalismo, um casamento econômico entre o capitalismo ocidental e o socialismo chinês. O governo explica que a China quer ser um país só, mas com dois sistemas econômicos. 

Às 14h50 tomei o avião para Osaka, encerrando assim uma viagem de sete dias pela China. No Aeroporto de Kansai, duas horas depois, dois japoneses de terno e gravata, um deles com um buquê de flores para me entregar, de acordo com o costume da terra, levaram-me para Kyoto, onde, no dia seguinte, começaria o anunciado congresso internacional de missões.

https://www.ultimato.com.br/revista/artigos/264/a-cada-dia-21-mil-chineses-tornam-se-cristaos

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