Festas juninas, cultura pagã cristianizada

Resolvi procurar algo associado a festas juninas e/ou festas julinas, relacionadas ao paganismo perguntando se estas festas são pagãs ou não e encontrei o seguinte material que anexei abaixo:

No mês de junho/julho, ocorre a maior festividade do calendário escolar: as festas juninas. Aulas são interrompidas para o ensaio da quadrilha,  professores ajudam nos preparativos, pais e amigos são convidados para o evento. Para muitos alunos, a proximidade das férias torna o evento ainda mais excitante.

E nós, professores de História, o que fazemos neste clima de festejos e de pouca concentração nos estudos? Propomos inserir essa manifestação da cultura popular no conteúdo escolar para compreendê-la como um objeto de estudo, isto é, analisá-la sob uma perspectiva histórica buscando seu significado mais profundo das festas juninas.

Fogueira, mastro, bandeirinhas, trajes caipiras, danças… elementos de um ritual muito mais antigo do que os santos festejados. Festa de Santo Antonio, de Nerival Rodrigues 

Festas de tradição rural

Entre os três santos juninos (Santo Antonio, São Pedro e São João), o mais festejado é São João Batista, nascido em 24 de junho. Por isso, as festas do mês de junho eram, inicialmente chamadas de festas joaninas.  Coincide seu nascimento com o solstício de verão (de inverno para a América do Sul) – época em que, na Europa, populações agrícolas muito anteriores ao cristianismo, como os celtas e os germânicos, comemoravam a fertilidade da terra e dos animais e as boas colheitas. Em toda a Europa, acender fogueiras, dançar ao redor do fogo e colher determinadas ervas com qualidades mágicas e terapêuticas eram parte importante dos cultos agrários do solstício de verão. O costume atravessou os tempos e se manteve mesmo depois de oficializado o cristianismo, como verificou James George Frazer que recenseou centenas de cerimônias das fogueiras votivas e festas propiciatórias em junho-julho.

Por sua origem agrária, era (e ainda é) uma festa rural. Daí as festas juninas remeterem a elementos próprios do campo: as bandeirinhas são colocadas no “arraial”, os participantes usam trajes ditos “caipiras” e o local é decorado com bambus, palha, sabugos de milho, folhas de coqueiro e de bananeira.

Festa do solstício de verão, 21 de junho, em Poznan, na Polônia quando milhares de balões são soltos.

A Igreja apropriou-se das festas pagãs do solstício de verão dedicando-as a São João Batista, primo de Jesus Cristo, um pregador judeu “de alta moral, áspero, intolerante, ascético” (CASCUDO, 2000) que, no entanto, é festejado com alegria transbordante, danças, música, bebidas e muitas simpatias, crendices e adivinhações.

Do Beltane pagão ao São João cristão

Muitas brincadeiras juninas têm origem pagã. Acender a fogueira, dançar ao seu redor ou passar por ela eram ritos importantes do Beltane, festival celta realizado no dia 1º de Maio. Era uma festa alegre, feita no bosque, em que as mulheres usavam coroas de flores e todos dançavam. Acendiam-se duas fogueiras para as pessoas passarem entre elas, inclusive o gado e os animais, com o objetivo de purificarem-se de doenças e energias negativas. Daí veio o costume de pular a fogueira nas festas juninas.

Ponto central do festival de Beltane era a celebração da fertilidade, ocasião em que os casais se uniam para gerarem filhos. Cristianizadas as festas juninas, resignificou-se o ritual matrimonial pagão tornando-o um casamento fictício em que um “noivo” e uma “noiva” abrem a dança da quadrilha

Fogueira de São João, em Mäntsälä, Finlândia.

A fogueira de Beltane, incorporada à festa cristã de São João, ganhou outro mito de origem. Contava-se que o antigo costume de acender fogueiras no começo do verão europeu tinha suas raízes em um acordo feito pelas primas Maria e Isabel. Esta, grávida de São João Batista, combinou que o nascimento da criança seria sinalizado com uma fogueira acendida sobre um monte, para que Maria viesse ajudar a prima depois do parto.

A tradição da fogueira está presente na festa dos três santos juninos, mas tem formatos diferentes para cada um. A fogueira de São João é redonda, a de Santo Antônio, quadrada e a de São Pedro, triangular.

Adivinhações de São João para o casamento

Câmara Cascudo lista uma série de adivinhações, quase sempre de casamento, tradicionalmente feitas no Dia de São João. Selecionamos algumas a seguir:

  1. Em noite de São João, passa-se um ramo de manjericão na fogueira e atira-se ao telhado. Se na manhã seguinte o manjericão ainda estiver verde, o casamento é com moço, se murcha, é com velho. O costume é uma tradição que remonta ao início do cristianismo. O enverdecimento vegetal é símbolo da existência humana. Nos contos populares, as árvores que representam os heróis se apresentarem folhas murchas significa que o representado está morto ou em perigo de morte.
  2. Em noite de São João, escreve-se em pedaços de papel o nome de várias pessoas, em seguida enrolam-se os papéis e os colocam na água. O papel que amanhecer desenrolado indicará o nome da futura noiva ou do noivo. A tradição foi herdada do oráculo  grego dos Pálices, na Sicília, onde os papeis eram lançados em uma fonte. Conforme boiassem ou afundassem, ficassem abertos ou fechados interpretava-se o pedido do consultante.
  3. Em noite de São João, escreve-se o nome de quatro pessoas queridas em cada ponta do lençol, em seguida dão-se nós bem frouxos nas pontas. Ao amanhecer, o nó que estiver desmanchado indicará o nome do futuro marido ou esposa. Esta adivinhação liga-se, também, ao oráculo dos Pálices.
  4. Em noite de São João, põe-se um pouco de clara de ovo em um copo contendo água. No dia seguinte se observa o desenho que se formou: se aparece uma igreja é sinal de casamento, se um navio significa viagem próxima etc.  Em Portugal, recita-se a trova ao por a clara no  copo: São João de Deus amado / São João de Deus querido / Deparai-me a minha sorte / Neste copinho de vidro.

O “casamento caipira” que hoje é uma brincadeira típica dos festejos juninos já foi considerado um evento sério. Até o início do século XX, o  casamento realizado na noite Dia de São João junto à fogueira era visto como um sacramento e, portanto, válido perante a sociedade e a Igreja. Os noivos, na presença dos pais, dos padrinhos, pessoas da família e convidados faziam o juramento de união.

Balão, fogos de artifício e mastro

Outros elementos festivos nas festas juninas são os balões e os fogos de artifício. Cinco a sete balões eram soltos para avisar o início da festança. As pessoas escreviam seus desejos e pedidos em pequenos papeis que eram atados nos balões e levados ao céu. Os fogos de artifício, segundo a tradição popular, serviam para despertar São João para as festas juninas. Hoje, pelo risco de incêndios, acidentes e mortes, os balões são proibidos por lei no Brasil e os fogos de artifício com maior poder de estouro devem ser manuseados por pessoas qualificadas.

O mastro é erguido diante da Igreja com música, canto e foguetes. Ele indica que o santo celebrado está presente na festa. Em outra versão, é feito o hasteamento da bandeira com  a efígie do santo patrono.  O mastro é decorado, no alto, com milho, laranja e flores – elementos que evocam as oferendas de pedido ou agradecimento pelas boas colheitas e a fertilidade da terra, reminiscências dos cultos agrários. Sobrevive em alguns lugares o costume de plantar uma árvore  pelos três santos de junho (Santo Antonio, São João e São Pedro).

Outra tradição é o mastro de fitas, também oriundo do festival de Beltane. Trata-se de um mastro de madeira preso no chão e enfeitado com diversas fitas coloridas bem compridas. As cores tem significados variados: amor, saúde, prosperidade, alegria, paz etc. Cada pessoa escolhe uma fita conforme seu desejo e, segurando sua ponta, todos giram ao redor do mastro trançando as fitas como se estivessem tecendo seu próprio destino. A dança de fitas é muito comum em Portugal e na Espanha.

Dança das fitas durante a festa de São João, Fazenda Demétria, Botucatu, SP.

Já a quadrilha tem uma origem mais complicada. Remonta a uma dança medieval, surgida por volta do século XIII, entre os camponeses ingleses. A dança se popularizou e, no século XVIII, chegou aos salões aristocráticos franceses onde foi chamada de contredanse (contradança). Daí ganhou seu formato de dança social, dançada em pares em que os casais formam uma longa fila no salão. No final do século XIX, com algumas mudanças nos passos, foi chamada de quadrille (quadrilha) difundindo-se pela Europa e Estados Unidos.

Santo Antônio, São Pedro e Nhá Chica

O Dia de Santo Antônio foi consagrado na Idade Média pelo papa Gregório IX. Nascido em 1195, de família rica da nobreza portuguesa, ele entrou para a ordem dos franciscanos adotando o nome de Antônio. Pregou em muitas regiões da Itália e sul da França até seu falecimento, ocorrido próximo à cidade italiana de Pádua, em 13 de junho de 1231. Ficou, por isso, conhecido como Santo Antônio de Pádua. Sua popularidade era tamanha que logo seu sepulcro atraiu peregrinos de toda Europa, sendo venerado por ajudar a arranjar casamentos e a resolver causas perdidas.

  • Uma curiosidade: a escolha do 12 de junho como Dia dos Namorados, na véspera do dia de Santo Antônio, não tem nenhum apelo religioso. A ideia foi realmente comercial. A loja Clipper, em São Paulo, contratou em 1940, a agência de propaganda de João Dória. A loja precisava melhorar as vendas de junho, mês considerado fraco para o comércio. Depois das vendas do Dia das Mães, o comércio quase sucumbia até agosto, quando acontece o Dia dos Pais. João Dória elaborou uma campanha para o dia 12 de junho, inspirada no Valentine’s Day – um sucesso no comércio americano – e para o dia 13 de junho, Dia de Santo Antônio, popularmente consagrado como padroeiro dos namorados, com o slogan “Não é só de beijos que se prova o amor”, instituindo o Dia dos Namorados. Tornou-se um evento de sucesso e acabou entrando no calendário das tradições brasileiras.

As festas juninas se encerram com o Dia de São Pedro quando a bandeira do santo é recolhida. A celebração do Dia de São Pedro é uma das mais antigas da Igreja, sendo anterior até mesmo à comemoração do Natal. O 29 de Junho é consagrado a São Pedro e também a São Paulo, data que se convencionou como sendo a do martírio de ambos. Mas a escolha do dia foi intencional: era o dia que os antigos romanos celebravam um culto pagão a Rômulo e Remo, os lendários fundadores de Roma. A Igreja apropriou-se da data considerando São Pedro e São Paulo como “Pais de Roma” que, com seu sangue,“fundaram” a Roma cristã.

Um costume curioso no dia de São Pedro é a obrigação daqueles batizados com o nome do santo de acenderem uma fogueira na porta de sua casa. Além disso, se alguém amarrar uma fita no braço de alguém chamado Pedro, este tem a obrigação de dar um presente ou pagar uma bebida àquele que o amarrou, em homenagem ao santo.

Quadrilha de São João, em Campina Grande, Paraíba

Outra comemoração que começa a ganhar força, é a do dia 14 de junho quando se celebra o Dia de Nhá-Chica, a primeira bem-aventurada negra do Brasil. Filha e neta de escravos, Francisca de Paula de Jesus, a Nhá Chica, nasceu em 1810, no povoado de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, um dos atuais distritos de São João del-Rey, em Minas Gerais. Viveu a maior parte de sua vida na cidade mineira de Baependi, onde faleceu em 1895. Órfã aos 10 anos de idade, Nhá-Chica dedicou sua vida à caridade e amor ao próximo sendo chamada de “Mãe dos Pobres” e “Santa de Baependi”. A beatificação de Nhá-Chica foi assinada pelo papa Bento XVI em 2012.

Festas juninas no mundo

As festas juninas são particularmente importantes no Norte da Europa — Dinamarca, Estônia, Finlândia, Letônia, Lituânia, Noruega e Suécia —, mas também ocorrem em grande escala na Irlanda, Galiza, Inglaterra, Escócia, França, Itália, Portugal, Espanha, Malta, Ucrânia e em outros países como o Canadá, Estados Unidos, Porto Rico e Austrália.

Festa junina, em Arsnäs, na Suecia.

No Brasil, as festas juninas foram trazidas pelos colonos portugueses. São João era festejado com entusiasmo nas missões jesuíticas. As fogueiras e tochas acesas provocavam grande efeito sobre os indígenas. Como as festas juninas coincidia com a época de colheita do milho e de preparação dos novos plantios, a tradição portuguesa acabava fundindo-se às práticas rituais indígenas ligadas à coivara. Em outros países, as festas juninas também ganharam elementos culturais locais. Assim, por exemplo, na Polônia, as pessoas de fantasiam de piratas e comemoram com muita vodka; na Rússia, as moças colocam guirlandas de flores na água dos rios para dar sorte; na Suécia, as festas juninas são mais comemoradas que o Natal e dança-se ao redor de um mastro decorado com flores e folhas; em Portugal, as festas juninas são chamadas de Festa dos Santos Populares e a fogueira é mantida acesa com rosmaninho, uma planta perfumada.

https://ensinarhistoriajoelza.com.br/festas-juninas-cultura-paga-cristianizada/ – Blog: Ensinar História – Joelza Ester Domingues

Mestre em História Social pela PUC-SP. Lecionou nos colégios Marista Arquidiocesano e Santa Cruz, ambos em São Paulo, capital, e também nos cursinhos pré-vestibulares Objetivo e Intergraus. Autora das coleções didáticas “História em Documento” e “Projeto Athos-História”, ambas pela editora FTD. Este blog é um meio para compartilhar sua experiência profissional oferecendo dicas para aulas, roteiros de estudo, reflexões e informações atualizadas de História e seu ensino.

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