O Sacerdócio Universal dos crentes na perspectiva do pentecostalismo

 

     O que precisa ficar claro é que, sem deixar de reconhecer o valor do trabalho do grande reformador alemão, diferentemente do que se pensa, a doutrina do sacerdócio universal dos crentes, tal como se entende bíblica e atualmente, não é uma invenção do século XVI e não foi Lutero quem a criou. Pela exiguidade de espaço não é possível abordar todo o processo de elitização a que o cristianismo foi historicamente sendo submetido culminando na estrangulação da participação leiga que, como se pode ver em Atos dos Apóstolos, era obra do próprio Deus : “E também Saulo consentiu na morte dele. E fez-se, naquele dia, uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos foram dispersos pelas terras da Judeia e da Samaria, exceto os apóstolos. E uns varões piedosos foram enterrar Estêvão e fizeram sobre ele grande pranto. E Saulo assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão. Mas, os que andavam dispersos iam por toda a parte anunciando a Palavra” (8:1_4).

       Assim, não se pode ignorar sem ser injusto, o papel do metodismo no século XVIII e do pentecostalismo desde o inicio do século passado no exercício do sacerdócio universal dos crentes como se entende atualmente. Cumprindo o ideal bíblico de ser um reino de sacerdotes, e tal, diga-se de passagem, mais importante que qualquer outro aspecto, posto que, conforme o já citado teólogo anglicano, Alister McGrath, “o que legitima a igreja e seus oficiais não é a continuidade histórica com a igreja apostólica, mas a continuidade teológica”, ou seja, “É mais importante pregar o mesmo evangelho que os apóstolos do que ser membro de uma instituição que é derivada historicamente deles”. E é exatamente isto que fez John Wesley, a exemplo da igreja do primeiro século, ao reconhecer o trabalho leigo ao lado do dos oficiais, impressionado com o que faziam os pietistas e os irmãos Morávios. Todavia, conforme observa Kenneth Collins, especialista nos estudos do grande avivalista britânico, “Wesley vai além de seus colegas morávios e pietistas em seu extenso uso de pregadores leigos, com frequência, chamados ‘ajudadores’, e também uma quantidade de ‘assistentes’ que ajudavam na supervisão desses pregadores”. Não obstante, Wesley fazia uma “distinção entre mensageiros comuns e extraordinários”, visando mostrar a diferença entre o povo todo e um Filipe, por exemplo (At 8:1_8,26_40).

       De correlato ao trabalho de Lutero, e dos reformadores, Wesley também não visava , com o metodismo, a criação de uma nova igreja em relação à Anglicana, mas sim ser “uma ordem reformadora dentro da comunhão de fé mais abrangente”. Isso porque, conforme Collins, “na avaliação de Wesley, a igreja mais abrangente tem constante necessidade de reforma e, por conseguinte, sempre requer uma ordem transformadora, profética em seu âmbito, para que os elementos formais ‘objetivos’ da tradição – necessários à transmissão da fé para as gerações subsequentes – não sejam mais importantes que a devida consideração que deve ser dada aos elementos ‘entusiásticos‘, ‘sobrenaturais’ e ‘subjetivos’ exigidos na presença curadora do Espírito Santo em todo o poder redentor característico do Espírito”. O mesmo autor completa dizendo que tal postura trata-se de “uma compreensão dinâmica e carismática da igreja, e em que a Reforma é continua”. Tal é necessário, se se quiser pensar a Reforma como um processo e não meramente como um evento a ser celebrado. O princípio reformista não pode ter ficado lá atrás há 500 anos. Conforme a frase latina e emblemática da Reforma, Eclessia reformata et semper reformanda secundum verbum Dei, ou seja, “A igreja reformada e sempre reformando de acordo com a Palavra de Deus”, precisa ser uma realidade por conta da dinâmica e da atuação humana na igreja. Daí a importância da observação de Collins ao dizer que “da mesma forma que o metodismo precisava da Igreja Anglicana em seu contexto, também a Igreja Anglicana precisa da sociedade metodista para seu testemunho”. Tal semelhantemente se deu com as Assembleias de Deus no Brasil. Daniel Berg e Gunnar Vingren não vieram ao país para fundar A Missão Evangélica da Fé Apostólicaantes, queriam apenas pregar o Evangelho completo (At 2:14_39).

Neste aspecto, novamente, há vários paralelos entre o metodismo e o pentecostalismo”, diz Collins, “em termos de herança wesleyana e do reavivamento que o precedeu, é marcada por muitos impulsos reformistas”. O pentecostalismo, completa o mesmo autor, “de forma semelhante a Wesley, desenvolveu uma historiografia, uma forma de interpretar a história da igreja, que enfatiza o vital cristianismo escritural”, ou seja, os “pentecostais não contentes apenas com a forma da religião (que era religião mais que suficiente para os ricos e para a mais determinada classe média alta), desejavam o poder da religião”.  Citando Steven Land, Collins vai dizer que toda vez que a igreja cristã se torna “poderosa”, do ponto de vista humano, ela entra em declínio espiritual e é justamente este “enfraquecimento de um cristianismo popular e cada vez mais mundano [que] foi questionado por muitos profetas, como ‘as crises de Lutero (justificação), de Wesley (santificação) e do pentecostalismo (cheios do Espírito), [e] o que levou às necessárias e inevitáveis reformas’”. O autor ressalta a observação de Harvey Cox de que a expansão do pentecostalismo por todo o Hemisfério Sul é algo “tão extraordinário que, na verdade, [pode até ser considerado como] uma nova reforma que está em andamento”. Isso porque, “À luz de recente trabalho minucioso de peritos em sondar a opinião pública e de demógrafos, fica claro que, no século XXI, a fé cristã se manifesta de novas formas que premiam a atividade capacitadora do Espírito Santo tanto na vida pessoal como corporativa”. Este aspecto experiencial é, inclusive, algo que encontra respaldo na chamada pós-modernidade, conforme venho insistindo há tempos.

       A despeito de ser pentecostal, é possível dizer, sem paixão alguma, que “o metodismo do século XVIII e o pentecostalismo moderno, [são] vitais e [também] novos movimentos do Espírito, [que] com frequência, são considerados ‘desestabilizadores”‘. Conquanto isto seja exatamente o que faz, ou provoca o ímpeto reformista  ou a ordem reformadora em qualquer sistema, o pentecostalismo acaba sendo censurado por não se enquadrar nos cânones do tradicionalismo. Não obstante, tal “designação embora dada no sentido negativo, na verdade, é uma expressão positiva do caráter desses movimentos” ou seja, “eles desafiam os poderes vigentes, abrem caminho, por assim dizer, a fim de pavimentar a estrada para a nova vida e a genuína liberdade, a vida de um coração libertado para a graça do Espírito e pelo amor profundo, curador e satisfatório”. Não é isto que tem acontecido há mais de um século no Brasil? A palavra e o púlpito franqueados às pessoas das camadas mais simples e populares da sociedade? Tudo por causa da igualdade produzida pelo espírito de Deus que age indistintamente? O crente que se converte ao Evangelho de Jesus Cristo no Pentecostalismo não precisa de autorização para exercer o seu “sacerdócio”, posto que o ímpeto do Espírito já o leva a agir assim. Dessa forma, desde o inicio do pentecostalismo, a admiração é que “homens sem letras e indoutos” (At 4:13) sejam canais de Deus para a transmissão da mensagem que os doutores fazem questão de obliterar (Lc 11:52; At 4:15_20). A grande ironia que se verifica neste meio milênio de reforma Protestante, é que, mesmo sendo uma expressão que muitos teimam em não reconhecer como herdeira de tal acontecimento, o pentecostalismo tem demonstrado ser, ao lado do metodismo do século XVIII, uma das únicas expressões da religião cristã a levar a efeito o sacerdócio universal dos crentes.

APOSTILA DO 9º CONGRESSO NACIONAL DE ESCOLA DOMINICAL

CELEBRANDO OS 500 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE

Pr CÉSAR MOISÉS CARVALHO/RJ

CPAD

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