Superando a viuvez na velhice: o uso de estratégias de enfrentamento

RESUMO

A viuvez é um grande desafio emocional, significando não apenas a perda do companheiro, mas a ruptura de todos os aspectos da vida do sobrevivente. Investigaram-se as estratégias de enfrentamento utilizadas por 30 idosos viúvos e verificou-se que, tanto homens quanto mulheres, usam com maior frequência, estratégias focadas nos problemas seguidas pelas práticas religiosas.

 

       A morte do cônjuge é um dos maiores desafios emocionais enfrentados na velhice devido ao seu impacto na vida do viúvo e das suas repercussões físicas e emocionais. A perda de pessoas queridas é, usualmente, uma experiência estressante, mesmo que o ente querido esteja doente há algum tempo (Parkes, 1998).

       Em casamentos longos e estáveis, a morte de um dos cônjuges pode deixar um enorme vazio – é a perda de um amor, um confidente, um bom amigo e um companheiro de longa data. Essa perda também é sentida quando o casamento não foi bom, pois o sobrevivente perde o papel de cônjuge. Para a mulher idosa, que usualmente estruturou sua vida e sua identidade em torno dos afazeres domésticos e dos cuidados do marido, o enfrentamento da perda pode ser, particularmente, muito difícil (Rubio, Wanderley & Ventura, 2011).

       Além da perda do companheiro e de um importante papel, ocorre uma mudança na vida social do enlutado. Um novo sentido à identidade é gerado pelo novo estado civil e homens e mulheres atribuem significados diferentes à viuvez. Os amigos e os familiares, num primeiro momento, quase sempre se reúnem ao lado deste. No entanto, pouco tempo depois, retornam para seus afazeres e suas vidas, distanciando-se do enviuvado. Alguns amigos casados podem se sentir mal com o pensamento de que a perda poderia acontecer com eles também e, assim, evitam o viúvo e a viúva que, muitas vezes, sentem-se sem lugar no contato com casais que foram amigos por muitos anos (Parkes, 1998).
        O luto envolve uma sucessão de quadros clínicos acerca das reações a uma perda significativa e ao seu processo de adaptação. No luto observa-se uma desorganização emocional e no idoso podem ocorrer distúrbios da alimentação, do sono, manifestações somáticas, sintomas depressivos e de ansiedade (Oliveira & Lopes, 2008). O luto em idosos está associado a um maior risco de transtorno mental, pior saúde geral, maior, mortalidade e uma percepção mais negativa da própria memória (Trentini, Werlang, Xavier & Argimon, 2009).
       Além disso, os idosos comumente vivenciam situações que podem sobrecarregar o luto, tais como os problemas financeiros e as doenças graves (Kovács, 2008). As mudanças decorrentes da morte do cônjuge são grandes e inevitáveis e requerem esforços adaptativos por parte do viúvo. Nesse momento, os recursos internos são fortemente mobilizados para o enfrentamento da tristeza e para a retomada da funcionalidade no cotidiano (Silva & Nardi, 2011).

       A forma de vivenciar a viuvez varia conforme a história de vida e a personalidade de cada um, bem como das estratégias de enfrentamento utilizadas nessa situação. Sendo este um evento mais frequente na velhice, especialmente para as mulheres, é de grande relevância compreender quais as estratégias que têm sido usadas pelos idosos para superá-lo. Encontramos no grupo dos idosos enlutados uma maior vulnerabilidade, fato que exige a atenção e o tratamento de profissionais da saúde (Doll, 2011).

       Kubler-Ross (1987) propõe uma análise do luto como um processo de enfrentamento e cita a existência dos estágios de negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Segundo a autora, não se deve fixar um padrão, mas estar atento à experiência clínica. Nesse sentido, Santos e Sales (2011) destacam que o luto é vivenciado de maneira diferente para cada indivíduo, sendo difícil estabelecer um modelo universal para as reações que seguem a perda.

       Numa perspectiva cognitivista, Folkman e Lazarus (1980) definem estratégia de enfrentamento (coping) como um conjunto de esforços, sejam eles cognitivos ou comportamentais, para lidar com situações de estresse, cuja demanda pode ser interna ou externa, e que são avaliadas pelos indivíduos como um evento que sobrecarrega ou excede os seus recursos pessoais. Os autores propõem, ainda, um modelo que divide a estratégia de enfrentamento em duas categorias funcionais: estratégia de enfrentamento focalizada no problema e estratégia de enfrentamento focalizada na emoção. A primeira acontece quando tais circunstâncias são vistas com uma possibilidade de mudança. Já a segunda ocorre, de forma geral, quando se conclui que nada pode ser feito para modificar as circunstâncias ameaçadoras do ambiente. As estratégias de enfrentamento são classificadas em dois tipos: dirigidas para o meio (estratégias para alterar pressões ambientais) e dirigidas para si mesmo (estratégias voltadas para mudanças cognitivas ou motivacionais).

       Seidl, Tróccoli e Zannon (2001) destacam as estratégias de busca de suporte social, a religiosidade e a distração. Couto, Novo e Koller (2009) investigaram como a rede de apoio social se articula com o bem-estar psicológico em idosos expostos a eventos de vida estressantes na cidade de Porto Alegre (RS). Os resultados mostraram o efeito protetor das redes de apoio social, de maneira que a maior qualidade desta (maior equilíbrio na reciprocidade entre os tipos de apoio) contribui para a manutenção do bem-estar psicológico, potencializando a resiliência frente aos eventos adversos. Dentro da rede social informal, a família é a fonte primária de suporte e o principal recurso potencializador da saúde física e mental.

       A religiosidade/espiritualidade pode ser considerada como um recurso cognitivo, emocional e comportamental para lidar com uma situação considerada difícil pelo indivíduo. Para Socci (2010), enquanto recurso de enfrentamento, pode suavizar o impacto de eventos negativos, bem como facilitar a aceitação de perdas. Pode ser entendida também como uma motivação para a busca de um sentido para a vida.

        A distração ou o atentar para outros estímulos é outra estratégia de
enfrentamento, sendo uma técnica utilizada na psicoterapia para o manejo da ansiedade, levando à sua diminuição ou controle. (Seidl, Tróccoli & Zannon, 2001). Vale ressaltar que os diferentes tipos de estratégias de enfrentamento não são excludentes, podendo ser utilizados simultaneamente.

       Considerando o impacto da viuvez na qualidade de vida dos velhos e o fato de que cada indivíduo enfrenta esse momento de forma diferente devido às próprias vivências e estratégias de enfrentamento desenvolvidas ao longo da vida, faz-se importante uma maior exploração acerca de tal problemática. O objetivo do presente estudo foi investigar as estratégias de enfrentamento utilizadas por idosos frente à viuvez e identificar as possíveis diferenças de gênero. Acredita-se que os resultados poderão oferecer subsídios para que os profissionais da saúde visualizem novas formas de atuação e intervenção junto a essa população. 

Considerações Finais

       A morte do cônjuge foi considerada uma situação muito estressante na vida dos idosos pesquisados. Para lidar com a viuvez, os idosos utilizaram os quatro tipos de estratégias, tendo maior destaque as focalizadas no problema e as práticas religiosas.
       As estratégias de enfrentamento focalizadas no problema foram exemplificadas por planos de ação para resolver os próprios problemas relacionados à morte em si, tais como: aceitar que a morte aconteceu e procurar fazer outras coisas. O trabalho, a ajuda da família e de pessoas queridas, bem como a participação nos grupos de reflexão nas igrejas, são exemplos de busca por suporte social. Usando as estratégias focalizadas na
emoção, os enviuvados, além de procurarem ajuda profissional para suas angústias e tristezas, também contam sobre as visitas recebidas, das quais gostaram muito, e sobre as expressões de solidariedade, entendidas como uma homenagem ao morto, confirmando para o enlutado a crença de que o morto merece toda a dor que puder ser sentida e expressada. Como estratégias de enfrentamento focalizadas nas práticas religiosas e pensamentos fantásticos, os idosos viúvos podem ter encontrado, no sentimento de fé, o remédio para ter paz interior, confiança e para poder deixar para trás a viuvez.

      O estudo foi realizado com uma amostra formada por critérios de conveniência e pouco representativa, não sendo possível a generalização dos resultados. No entanto, pôde-se evidenciar a importância do apoio aos idosos no processo do luto e da mobilização de recursos sociais e pessoais para o enfrentamento da ausência do cônjuge e para encontrar novos sentidos para a existência. Diferentes caminhos são trilhados por homens e mulheres, preenchidos por sentimentos ambivalentes. Nesse sentido, ressalta-se a importância de novos estudos a respeito do tema. 

https://revistas.pucsp.br/kairos/article/download/17048/12671

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