Os novos arranjos familiares

Por Carlos “Catito” e Dagmar Grzybowski

A pesquisadora Judith Wallerstein¹, depois de acompanhar por 25 anos um grupo de 131 crianças, filhos de pais separados, afirma que “a grande maioria dos filhos não quer que seus pais se divorciem”. A família é aquele agrupamento de pessoas destinadas a proteger a criança, que é frágil e indefesa no seu processo de maturação até chegar ao ponto de ser capaz de enfrentar a vida de forma autônoma.

A quebra de uma estrutura original leva a criança a sentir-se insegura, o que pode refletir-se em sintomas comportamentais. Assim, os filhos acalentam o desejo de que a estrutura original permaneça intacta para lhes fornecer a estabilidade e tranquilidade necessárias para seguirem seu processo de crescimento.

Entretanto, as estruturas que compõem a “família” nem sempre são os modelos tradicionais idealizados na cultura. Especialmente na nossa cultura de valorização do “umbigocentrismo”, é fácil encontrar estruturas que passaram por várias mudanças advindas de seguidas rupturas relacionais entre aqueles que deveriam ser os cuidadores das crianças na família.

Uma estrutura familiar em que há vários casamentos e, como resultado, vários meios-irmãos pode facilmente se tornar confusa e com fronteiras frouxas, gerando fragilidade no sistema familiar. Filhos que sonham com o restabelecimento da família intacta (antes do divórcio) muitas vezes boicotam os novos relacionamentos dos pais, os quais precisam manejar com cuidado tais situações a fim de não produzirem mais rupturas relacionais.

Pais que têm filhos de um primeiro casamento terão obrigatoriamente de lidar com tensões, ciúmes e conflitos entre os filhos do primeiro casamento e os filhos do casamento atual (ou filhos do primeiro casamento do cônjuge). Muitas vezes irão se defrontar com a rejeição por parte dos filhos a um novo relacionamento dos pais.

Quem entra em um relacionamento com uma pessoa que tem filhos de um relacionamento anterior precisa lidar com a tensão entre adotar emocionalmente estes filhos e manter distância, não se envolvendo nos assuntos entre o cônjuge e seus filhos.

Em Marcos 3.31-35, Jesus cria um novo conceito de família: a família da fé. Nessa perspectiva, a família é constituída dos que estão ligados pelos laços da fé, não por laços consanguíneos ou por contratos matrimoniais, ou seja, há uma atitude de fé que transcende os laços consanguíneos e os contratuais. Isso é oposto aos nossos conceitos sociais e culturais, em que a família é definida pelos laços de sangue e de contratos, que normatizam as questões de transmissão patrimonial.

Acredito que o conceito proposto por Jesus pode ajudar a resolver as tensões de famílias “colcha de retalhos”. As relações em famílias recasadas e com filhos podem se tornar complicadas, entretanto a mudança de percepção sobre o significado último do termo família pode nos ajudar a diluir as tensões e a viver de forma mais harmônica.

Carlos “Catito” e Dagmar são casados, ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família. São autores de Pais Santos, Filhos Nem Tanto. Acompanhe o blog Casamento e Família

Nota
1. WALLERSTEIN, J.; LEWIS, J.; BLAKESLEE, S. Filhos do divórcio. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

https://www.ultimato.com.br/revista/artigos/375/os-novos-arranjos-familiares

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