Relatório Mundial 2020: China

China

O Partido Comunista Chinês (PCCh) comemorou em 2019 o 70º aniversário de seu governo intensificando a repressão. Sob a liderança do presidente Xi Jinping, o governo chinês uni partidário estreitou seu controle sobre setores da sociedade que considerou como uma ameaça: internet, ativistas e organizações não-governamentais. Também fortaleceram o controle ideológico, particularmente no ensino superior, bem como entre minorias religiosas e étnicas e dentro da administração pública. O governo chinês também dedicou bastantes recursos ao uso de novas tecnologias para controle social, integrando inteligência artificial, biometria e big data ao seu arsenal de monitoramento e formatação de opiniões e comportamentos de 1,4 bilhão de pessoas. A censura do governo agora se estende muito além de suas fronteiras; sua mistura de incentivos financeiros e intimidação está manipulando o discurso sobre a China em todo o mundo.

Treze milhões de pessoas da etnia uigure e outros muçulmanos de origem turca em Xinjiang estão enfrentando uma repressão particularmente dura. A “Campanha de Duras Respostas ao Extremismo Violento” adotada pelo governo tem envolvido detenções arbitrárias em massa, vigilância, doutrinação e a destruição do patrimônio cultural e religioso da região. Estimativas confiáveis indicam que cerca de 1 milhão de muçulmanos de origem turca estão sendo mantidos indefinidamente em campos de “educação política”, onde são forçados a negar sua identidade e se tornar súditos leais do governo. Outros foram processados e enviados para a prisão, e alguns receberam sentenças longas e até mesmo de morte por crimes como “separatismo” ou “subversão”, o que viola direitos fundamentais.

Em um ano no qual o PCCh se interessou especialmente em manter uma fachada de estabilidade, Hong Kong, uma região administrativa especial da China que desfruta de restritas – mas enfraquecidas – liberdades, fez emergir um grande desafio. Depois de junho, pelo menos 2 milhões de pessoas em uma cidade de 7 milhões ocuparam as ruas para exigir maiores liberdades.

Os protestos, provocados pela introdução de emendas legais pelo governo de Hong Kong que permitiriam extradições à China, se transformaram em um movimento de resistência da cidade contra o regime do PCCh.

Vários governos e instituições internacionais emitiram condenações públicas pelas mais flagrantes violações dos direitos humanos na China, mas poucos adotaram ações concretas, como a imposição de sanções ou controles sobre as exportações.

Xinjiang

A extraordinária campanha repressiva de Duras Respostas, lançada em 2014, continuou firme contra a população muçulmana de origem turca. Para combater a crescente preocupação internacional quanto à repressão, as autoridades chinesas organizaram várias viagens altamente controladas para que jornalistas e diplomatas selecionados – inclusive das Nações Unidas – visitassem Xinjiang. Em março, as autoridades de Xinjiang anunciaram que haviam detido quase 13.000 “terroristas” na região desde 2014 e, em 30 de julho, declararam publicamente que “a maioria” mantida nos campos de “educação política” de Xinjiang havia “retornado à sociedade”. Nenhuma das declarações foi substanciada com evidências críveis.

Vários relatos de imprensa em 2019 revelaram que algumas pessoas que foram “liberadas” foram designadas a trabalhar em fábricas contra sua vontade, onde recebiam salários muito abaixo do mínimo legal e eram proibidas de sair.

As autoridades de Xinjiang também continuaram tirando crianças de seus pais, que foram detidos ou exilados, e as mantiveram em instituições estatais de “bem-estar infantil” e em internatos, sem o consentimento ou acesso dos pais.

O governo chinês continua a negar acesso irrestrito à região para observadores independentes – incluindo especialistas em direitos humanos da ONU –, o que dificulta a verificação de informações, principalmente a respeito dos detidos.

O uso de tecnologias para vigilância em massa e controle social pelas autoridades, especialmente em uma região onde as pessoas não podem contestar essas invasões, atingiu níveis nunca antes vistos. A Plataforma de Operações Conjuntas Integradas, um programa de computador central para os sistemas de vigilância em massa de Xinjiang, mantém controle de muitas facetas da vida das pessoas, incluindo seus deslocamentos e uso de eletricidade, e alerta as autoridades quando detecta irregularidades. Até mesmo turistas na região – incluindo cidadãos não chineses – precisam baixar um aplicativo de telefone que os monitora secretamente.

O monitoramento de acadêmicos internacionais e empresas estrangeiras que operam na região aumentou. Uma empresa, a Thermo Fisher Scientific, com sede nos EUA, que forneceu sequenciadores de DNA à polícia de Xinjiang quando as autoridades estavam coletando indiscriminadamente o DNA de habitantes, anunciou em fevereiro que “cessaria todas as vendas e serviços de nossa tecnologia de identificação humana” em Xinjiang.

Hong Kong

Em 23 de janeiro, o governo de Hong Kong apresentou um projeto de lei que criminalizaria “insultos” ao hino nacional chinês. Em 12 de fevereiro, o Departamento de Segurança de Hong Kong propôs mudanças em duas leis, as quais permitiriam a extradição de suspeitos de crimes na cidade para as autoridades chinesas – sendo que estas têm um histórico de torturar suspeitos e sujeitá-los a julgamentos injustos –, ao mesmo tempo em que davam fim a mecanismos de transparência sobre o processo.

Em abril, um tribunal distrital de Hong Kong condenou nove líderes do “Movimento dos Guarda-Chuvas”, um movimento não violento e pró-democracia de 2014, por acusações de incômodo à ordem pública. O jurista e acadêmico Benny Tai e o professor aposentado Chan Kin-man foram condenados a 16 meses de prisão cada um.

Em 9 de junho, a fúria contra as emendas de extradição propostas e a deterioração das liberdades levou 1 milhão de pessoas a protestar, de acordo com os organizadores. Em 12 de junho, dezenas de milhares de pessoas se reuniram perto da sede do Poder Legislativo de Hong Kong, o Conselho Legislativo, para pressionar o governo a abandonar as emendas. Em resposta, a polícia de Hong Kong se mobilizou para dispersar os manifestantes, disparando gás lacrimogêneo, armas de pressão (do tipo beanbag), e balas de borracha. A Chefe Executiva de Hong Kong, Carrie Lam, condenou o protesto, chamando-o de “um motim”. Embora Lam tenha mais tarde suspendido as emendas, sua longa recusa em retirá-las formalmente ou condenar a brutalidade policial, e sua descrição do protesto de 12 de junho como “motim” levou a uma marcha recorde com cerca de 2 milhões de manifestantes em 16 de junho. Em 1º de julho, alguns invadiram o prédio do Poder Legislativo, pintando slogans em algumas paredes. Os protestos se espalharam pela cidade, e continuavam até a elaboração deste relatório.

Embora a maioria dos manifestantes tenha agido pacificamente, a polícia de Hong Kong os dispersou com uso excessivo da força, inclusive espancando aqueles já rendidos e colocados contra o chão. Indivíduos suspeitos de fazerem parte de gangues, ou das chamadas tríades, também atacaram repetidamente manifestantes e legisladores pró-democracia, levando a acusações públicas de que a polícia respondeu de forma inadequada à violência contra os manifestantes. Alguns manifestantes usaram de violência, jogando coquetéis molotov contra a polícia, incendiando bloqueios de estradas e, em vários casos, atacando pessoas que acusavam de serem infiltrados pró-Pequim, inclusive ateando fogo a uma pessoa.

A polícia restringiu cada vez mais a liberdade de reunião, negando pedidos de protesto.

Em 4 de setembro, Lam extinguiu formalmente as emendas, e, em 26 de setembro, encenou um “diálogo” com alguns membros do público. Mas a agitação continuou porque o governo não atendeu à maioria das exigências centrais dos manifestantes, incluindo a implementação do sufrágio universal genuíno – um direito prometido na constituição funcional de Hong Kong – e o lançamento de uma investigação independente sobre os abusos da polícia.

Tibete

As autoridades nas regiões tibetanas continuam a restringir severamente a liberdade de religião, de expressão, de circulação e de reunião, e têm fracassado em tratar das preocupações populares quanto à mineração e à apropriação de terra pelas autoridades locais, que muitas vezes envolvem intimidação e uso ilegal da força pelas forças de segurança. Em 2019, as autoridades intensificaram ainda mais a vigilância das comunicações online e telefônicas.

As autoridades nas regiões tibetanas também intensificaram o uso de uma campanha nacional contra o crime para encorajar pessoas a denunciarem membros das suas comunidades sob a mais leve suspeita de simpatia pelo exilado Dalai Lama ou pela oposição ao governo. Dois casos divulgados pelas autoridades de Qinghai em 2019, envolvendo a oposição local à aquisição de terras pelo governo, demonstram que os tibetanos estão sendo processados por defenderem seus direitos econômicos e culturais.

De maio a julho de 2019, as autoridades expulsaram milhares de monges e monjas budistas do mosteiro Yachen Gar em Sichuan, e as suas habitações foram demolidas. Aqueles sem status de residência em Sichuan foram deportados para suas províncias de origem, onde foram alegadamente detidos para reeducação. Enquanto isso, os líderes da Região Autônoma Tibetana pediram uma intensificação das políticas de “sinicização”, ou assimilação da cultura chinesa, para “fortalecer a gestão dos mosteiros”, sujeitando as populações monásticas a exames “legais” para testar sua competência na reeducação política, e exigindo que figuras religiosas superiores endossassem as políticas estatais na seleção do próximo Dalai Lama.

Na região tibetana de Ngawa, em Sichuan, mais dois jovens se imolaram em protesto contra o governo chinês, em novembro e dezembro de 2018. Desde março de 2009, 155 tibetanos se autoimolaram.

Defensores dos direitos humanos

Em julho, o dissidente Ji Sizun, de 69 anos, morreu sob custódia do Estado. Dois meses depois de ser libertado da prisão, Ji sucumbiu a doenças desconhecidas, enquanto estava sob custódia da polícia em um hospital na província de Fujian. Ele teria sido maltratado enquanto cumpria uma sentença de quatro anos e meio sob falsas acusações de “reunir uma multidão para perturbar a ordem pública” e “se envolver em discórdias”. Como ocorrido em vários outros casos nos últimos anos de proeminentes defensores de direitos humanos que morreram em detenção ou logo após serem libertados, as autoridades não responsabilizaram ninguém pelos atos.

Os tribunais sentenciaram importantes ativistas de direitos humanos a longas penas de prisão após procedimentos fraudulentos. Em janeiro, um tribunal em Tianjin condenou o advogado de direitos humanos Wang Quanzhang a quatro anos e meio de prisão por “subversão”. No mesmo mês, um tribunal na província de Hubei condenou Liu Feiyue, ativista veterana e fundadora do site de notícias de direitos humanos Minsheng Guancha, a cinco anos de prisão por “incitação à subversão”.

Em abril, um tribunal de Sichuan condenou o ativista Chen Bing a três anos e meio por fazer uma celebração em memória do Massacre de Tiananmen, de 1989. Em julho, um tribunal da província de Sichuan proferiu uma sentença de 12 anos a Huang Qi, proeminente ativista e fundador do site de direitos humanos 64 Tianwang, por acusações de “vazamento de segredos de Estado”. Huang, detido desde novembro de 2016, sofre de várias condições de saúde graves para as quais não tem recebido tratamento adequado.

Outros defensores dos direitos humanos foram detidos em 2019. Como parte de uma contínua repressão nacional ao ativismo trabalhista que começou em julho de 2018, a polícia de Shenzhou deteve, em janeiro e março, Yang Zhengjun, Ke Chengbing e Wei Zhili, editores do site de notícias sobre direitos dos trabalhadores New Generation, acusando-os de “se envolverem em discórdias”. Em junho, a polícia de Guangdong deteve o ativista trabalhista Ling Haobo por acusações desconhecidas. Em agosto, as autoridades de Hunan detiveram Cheng Yuan, Liu Dazhi e Wu Gejianxiong, funcionários do grupo anti-discriminação Changsha Funeng, sob acusações de “subversão”.

A polícia de todo o país deteve ativistas e cidadãos que mostraram apoio aos protestos pró-democracia em Hong Kong. Em junho, a polícia de Pequim deteve o ativista Quan Shixin por “se envolver em discórdias”. Em setembro, as autoridades de Guangzhou detiveram Lai Rifu depois que ele compartilhou uma música de protesto nas redes sociais. Em outubro, as autoridades de Guangzhou detiveram Sophia Huang Xueqin, jornalista que escreveu extensivamente sobre o movimento #MeToo na China e sobre os protestos em Hong Kong.

Além de detenções e desaparecimentos forçados, as autoridades continuam sujeitando ativistas e advogados de direitos humanos e suas famílias a prisões domiciliares, assédio, vigilância e proibições de viagens. Em abril, as autoridades de Pequim impediram o advogado Chen Jiangang de deixar a China para participar de um programa de bolsas de estudos nos Estados Unidos. A polícia de Sichuan perseguiu a mãe da ativista Huang Qi, numa aparente tentativa de impedi-la de se manifestar. A polícia se encarregou do desaparecimento forçado da mãe, octogenária, mantendo-a incomunicável em prisão domiciliar por dias e enviando agentes do governo para morar em sua casa. As autoridades de Pequim pressionaram as escolas da cidade a expulsar ou negar a admissão ao filho de 6 anos do advogado preso Wang Quanzhang.

Liberdade de expressão

As autoridades continuaram uma repressão nacional aos usuários do Twitter – rede já bloqueada na China – iniciada em novembro de 2018. As autoridades detiveram ou convocaram centenas de usuários do Twitter, forçando-os a excluir tweets “sensíveis” ou fechar suas contas. Enquanto isso, o governo lançou uma campanha de desinformação no Twitter e no Facebook que qualifica os manifestantes de Hong Kong como violentos e extremos, levando as plataformas a suspenderem centenas de contas originárias da China.

As autoridades restringiram ainda mais a internet na China. Em março, operadores da censura suspenderam as redes sociais de Ma Liang, dono de blog que tinha um público de mais de 16 milhões. Ma foi acusado pela mídia estatal de divulgar informações falsas. Em junho, o regulador de internet da China fechou o site de notícias financeiras wallstreetcn.com e ordenou ao Q Daily, um site de notícias conhecido por suas reportagens sobre questões sociais, que parasse de atualizar o conteúdo por pelo menos três meses.

O governo também estreitou seu controle ideológico sobre universidades e escolas. Em um discurso em março, o Presidente Xi pediu a professores que repudiassem “ideias e pensamentos falsos” ao ensinar ideologias e cursos de política. Em março, a Universidade de Tsinghua suspendeu o proeminente professor de direito, Xu Zhangrun, e o colocou sob investigação depois que ele publicou uma série de textos que alertavam para o aprofundamento da repressão sob o governo Xi.

O efeito da censura do governo chinês continua a ultrapassar as fronteiras chinesas. O WeChat, a popular plataforma de mensagens da China utilizada por mais de um bilhão de falantes de chinês no país e no exterior, está sujeita à censura chinesa habitual aplicada a todas as mídias sociais domésticas. O envolvimento do artista dissidente Ai Weiwei com o filme de Hollywood Berlin, I Love You foi interrompido depois que investidores, distribuidores e outros parceiros suscitaram preocupações sobre a sensibilidade política do artista na China. Em um episódio do programa The Good Fight, a emissora americana CBS censurou uma curta animação que retratava uma série de referências a temas que foram censurados na internet chinesa. A CBS disse estar preocupada com os riscos de seus programas e filmes serem bloqueados na China e com a segurança de seus funcionários na China.

Vigilância em massa

O uso de tecnologias de vigilância em massa pelo governo tem aumentado. Comunidades vulneráveis foram alvo dessas tecnologias empregadas pela polícia, agências de segurança e as entidades públicas e privadas. Em 2019, relatos de imprensa revelaram que uma escola de Hangzhou havia instalado câmeras para monitorar as expressões faciais e a atenção dos estudantes, enquanto uma empresa de Nanjing havia exigido que os operários de saneamento usassem relógios com GPS para monitorar sua eficiência.

Empresas tecnológicas chinesas, particularmente a Huawei, mas também empresas de inteligência artificial, como a Cloudwalk, estiveram sob intenso escrutínio por seus laços com o governo chinês e sua cooperação com empresas estrangeiras de tecnologia. À medida que expandem seus negócios pelo mundo, oferecendo equipamentos e serviços acessíveis a governos e empresas, elas suscitam preocupações de que estejam permitindo a proliferação da vigilância em massa. Em julho, uma reportagem mostrou como empresas de tecnologia dos EUA haviam colaborado com uma empresa chinesa, a Semptian, no desenvolvimento de microprocessadores que permitem aos computadores analisar grandes quantidades de dados de forma mais eficiente, e que a Semptian os havia utilizado para melhorar a vigilância em massa e a censura de agências de segurança chinesas.

A China não tem uma lei unificada de privacidade ou de proteção de dados. Embora o governo mostre um interesse crescente em regular a coleta de dados dos consumidores por parte das empresas privadas, tais regulamentos são limitados ao âmbito comercial.

Liberdade de religião

O governo restringe a prática religiosa a cinco religiões oficialmente reconhecidas em instalações oficialmente aprovadas. As autoridades mantêm o controle sobre as nomeações de funcionários das instituições religiosas, publicações, finanças e candidaturas a seminários. O governo classifica muitos grupos religiosos fora de seu controle como “cultos do mal”, e sujeita seus membros a perseguição policial, tortura, detenção arbitrária e prisão.

Em dezembro de 2018, a polícia deteve o pastor e muitos membros da Early Rain Covenant Church, uma igreja protestante independente na cidade de Chengdu, no sudoeste do país. A maioria foi liberada dias ou meses depois. O pastor Wang Yi, um proeminente membro da comunidade cristã da China e ex-jurista acadêmico, permanece sob custódia policial, tendo sido acusado de “incitação à subversão”.

Em um discurso em março, Xu Xiaohong, o oficial que supervisiona as igrejas cristãs sancionadas pelo estado, demandou às igrejas que extirpassem a influência ocidental e “sinicizassem” ainda mais a religião. Em setembro, uma igreja sancionada pelo Estado na província de Henan foi ordenada a substituir os Dez Mandamentos por citações do presidente Xi.

Em sua campanha contínua para reprimir tradições islâmicas, autoridades em Gansu, em Ningxia, e em outras áreas muçulmanas hui, demoliram cúpulas em mesquitas e proibiram o uso público da escritura árabe.

Um aviso do PCCh proibindo os funcionários aposentados do governo tibetano de executar a kora, a prática de andar em torno de um local sagrado, foi aparentemente emitido no início de agosto de 2019.

Direitos de mulheres e meninas

Como a disparidade estatística entre os sexos no país tornou difícil para muitos homens encontrarem esposas, parece ter aumentado o tráfico de “noivas” para a China vindas de países vizinhos, como Camboja, Laos, Mianmar, Coreia do Norte e Paquistão. Muitas mulheres e meninas são enganadas por meio de falsas promessas de emprego para viajar à China, sendo vendidas a famílias chinesas como noivas e mantidas em escravidão sexual, muitas vezes durante anos. Em abril, um canal de televisão paquistanês conseguiu se infiltrar no que dizia ser um “centro de casamentos” em Lahore, onde seis mulheres e meninas, duas com apenas 13 anos de idade, eram mantidas enquanto aguardavam a viagem à China como noivas.

Em julho, Wang Zhenhua, um proeminente empresário e filantropo, foi detido pela polícia durante a investigação de um incidente de abuso de criança que feriu uma menina de 9 anos. Os operadores da censura do governo inicialmente impediram discussões online e reportagens da mídia sobre o caso, levando a um agitação nas redes. Também em julho, um tribunal em Chengdu decidiu em um caso de suposto assédio sexual em favor da vítima, marcando a primeira decisão desde que o movimento #MeToo ganhou força na China.

Orientação sexual e identidade de gênero

A China descriminalizou a homossexualidade em 1997, mas ainda carece de leis que protejam as pessoas contra a discriminação com base na orientação sexual ou identidade de gênero, e relações entre pessoas do mesmo sexo não são legalmente reconhecidas. Em março, durante a Revisão Periódica Universal no Conselho de Direitos Humanos da ONU, a China aceitou recomendações para adotar legislação proibindo a discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero na educação e no ambiente de trabalho. Entretanto, um porta-voz do Congresso Nacional Popular disse em agosto que o governo não consideraria o casamento igualitário.

Em janeiro, o governo de Guangzhou proibiu a atuação de duas organizações de direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT), incluindo um grupo liderado por estudantes da Universidade de Guangzhou. Em março, operadores da censura do governo cortaram cenas retratando a homossexualidade do filme vencedor do Oscar Bohemian Rhapsody.

Refugiados e solicitantes de refúgio

A China continuou a deter e a retornar à força centenas, e talvez milhares, de refugiados norte-coreanos, violando assim as suas obrigações sob a Convenção sobre Refugiados de 1951. O governo se recusou a considerar norte-coreanos que fogem deste país como refugiados, ainda que aqueles que foram retornados tivessem sofrido perseguição durante muito tempo. A Human Rights Watch considera os norte-coreanos na China como refugiados, isto é, a sua chegada à China os coloca em risco caso sejam enviados de volta.

Principais atores internacionais

Vários governos e parlamentos expressaram publicamente sérias preocupações sobre a situação em Xinjiang e outras graves violações dos direitos humanos pelo governo chinês, e continuam as tentativas de monitorar os julgamentos e ajudar os defensores dos direitos humanos no país. O Congresso dos EUA e o Parlamento Europeu adotaram resoluções e consideraram adotar leis relativas a assuntos como Hong Kong, Tibete e Xinjiang; mas poucos governos se dispuseram a adotar respostas mais rígidas, tais como sanções ou mecanismos de controle sobre exportações, para pressionar Pequim a revisar suas políticas.

Em junho, a Alemanha concedeu o status de refugiado a dois ativistas de Hong Kong.

Em março, a Comissão Europeia anunciou uma avaliação de suas relações com a China, definindo o país também como um “rival sistêmico promotor de modelos alternativos de governança”. A União Europeia, com frequência, suscitou questões de direitos humanos em suas declarações no Conselho de Direitos Humanos, no diálogo UE-China sobre direitos humanos, e em declarações ocasionais ao longo do ano. Contudo, nenhuma preocupação com os direitos humanos foi manifestada publicamente pelos líderes da UE durante a 21ª Cúpula UE-China, realizada em Bruxelas em abril.

Os EUA condenaram retórica e repetidamente as violações dos direitos humanos na China, mas essas declarações foram enfraquecidas pelos comentário do presidente Donald Trump elogiando o residente Xi Jinping. Em outubro, os EUA colocaram o Departamento de Segurança Pública de Xinjiang e suas agências subsidiárias – as entidades semi-militares conhecidas como bingtuan –, além de oito empresas tecnológicas chinesas, em uma “lista de entidades” do Departamento de Comércio, proibindo que fizessem negócios com empresas norte-americanas, em resposta à repressão em Xinjiang. Ao mesmo tempo, o Departamento de Estado dos EUA anunciou que iria reter vistos de funcionários do governo chinês considerados culpados de abusos em Xinjiang.

Em julho, 25 governos assinaram uma carta ao presidente do Conselho de Direitos Humanos da ONU, ecoando o apelo do Alto Comissário para que uma investigação independente fosse conduzida na região de Xinjiang. A China imediatamente organizou uma carta paralela, assinada por 50 governos, elogiando a abordagem regional da China ao “contra-terrorismo” e destacando que as pessoas em Xinjiang “desfrutam de uma sensação mais forte de felicidade”. Ao longo do ano, a Organização de Cooperação Islâmica (OIC, na sigla em inglês) não condenou abusos contra muçulmanos de origem turca em Xinjiang – ao mesmo tempo que criticou severamente os abusos contra muçulmanos em outros lugares – e, em vez disso, elogiou o tratamento dispensado pela China aos muçulmanos.

Política externa

Em abril, Pequim sediou o segundo Belt and Road Forum, o fórum sobre a “Iniciativa Cinturão e Rota” (BRI, na sigla em inglês), anunciada em 2013. A BRI é um programa de infraestrutura e investimento de trilhões de dólares da China, que se estende por cerca de 70 países. Durante o fórum, o Presidente Xi comprometeu-se a cooperar com outros países para promover um desenvolvimento preocupado com o meio ambiente, mas alguns dos projetos da BRI têm sido criticados por falta de transparência, desrespeito às preocupações da comunidade e ameaças de degradação ambiental.

Em fevereiro, milhares de pessoas no estado de Kachin, em Mianmar, marcharam para protestar contra uma proposta de megaprojeto de uma usina financiado pela China. Em março, o Banco da China, estatal, disse que avaliaria o compromisso de financiamento de uma usina hidrelétrica na Indonésia.

No final de 2018, as autoridades chinesas detiveram dois canadenses, Michael Kovrig e Michael Spavor, no que é amplamente visto como um ato de retaliação contra o Canadá pela prisão de Meng Wanzhou, um executivo da gigante tecnológica chinesa Huawei.

Em agosto, Pequim deteve formalmente o escritor e cidadão australiano nascido na China, Yang Hengjun, sob acusações de espionagem, sete meses depois de ele ter sido detido no sul da China.

As autoridades chinesas continuaram a tentar restringir a liberdade acadêmica em outros países. Em fevereiro, o consulado chinês em Toronto disse aos estudantes da Universidade McMaster para alertarem o consulado sobre a participação de acadêmicos em um evento sobre a repressão em Xinjiang. Em várias universidades na Austrália, em agosto, estudantes pró-Pequim tentaram silenciar à força outros estudantes que se manifestavam pacificamente em apoio ao movimento democrático de Hong Kong; incidentes semelhantes foram relatados em toda a Europa, Nova Zelândia e Estados Unidos. Poucas universidades se manifestaram em defesa do direito de todos os estudantes e professores à liberdade acadêmica.

https://www.hrw.org/pt/world-report/2020/country-chapters/337682

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