Perseguição: onde os cristãos são vítimas de opressão e violência

José Li, Frederick, Samuel e Neemias relatam a violência sofrida; cristianismo corre risco em parte do Oriente Médio e enfrenta governos extremistas na Ásia

 

 

Cruz é retirada de igreja protestante pelo governo chinês no Vilarejo de Muyang em Pingyang – 29/07/2015 (Mark Schiefelbein/AP)

Padre Li deixou a China para vir ao Brasil fazer o seminário. No país não havia cursos de formação de religiosos (//Divulgação)

Além dos fiéis e dos líderes religiosos, os próprios templos católicos são hostilizados. Cruzes são arrancadas com frequência, fachadas são depredadas e, em algumas ocasiões, prédios inteiros foram incendiados.

Segundo o padre  Li, que sofreu a perseguição patrocinada pelo governo chinês durante a infância, algumas congregações são obrigadas a fixar uma bandeira da China e um retrato do presidente Xi em seus altares para poderem exercer sua fé livremente.

“Os que se declaram cristão são discriminados nos trabalhos e nas escolas”, afirma. “Mesmo depois de tantos anos, não há liberdade religiosa no país.”

Nacionalismo religioso

O crescimento do nacionalismo religioso em todo o mundo, especialmente no sul da Ásia, também dá impulso à intolerância religiosa.

Baseada na ideia de que um credo único pode fortalecer a unidade de um país e sua identidade nacional, a ideologia tem motivado atos de hostilidade contra minorias cristãs e repressão pelo próprio Estado na Índia, Mianmar, Butão, Nepal e Sri Lanka.

Desde que tomou o poder, o partido de extrema direita Bharatiya Janata (BJP, na sigla em inglês) tem incentivado a ideia de que a Índia deve ser uma nação hindu, com o hinduísmo como sua única fé. Ligada à legenda, a organização Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) é a principal responsável por disseminar essas ideias, por meio da perseguição religiosa.

A população de quase 64 milhões de cristãos tem visto o aumento drástico dos casos de agressão física, de ataques contra igrejas e comunidades, de prisões arbitrárias e de violência sexual desde maio de 2014, quando o BJP conquistou a maioria dos assentos no Parlamento e seu líder, Narendra Modi, assumiu o comando do país como primeiro-ministro.

O objetivo do governo de Modi é fazer da Índia uma nação 100% hindu, livre de outras religiões minoritárias até o fim de 2021. Os poderes Legislativo e Judiciário e organizações ligadas ao governo também têm trabalhado para isso. Em 1947, a intolerância indiana contra os muçulmanos forçara a criação do Estado do Paquistão.

Policiais inspecionam igreja atacada durante culto em Bhayandar, na Índia – 15/11/2008 (Pramod Dethe/Hindustan Times/Getty Images)

“Na Índia há centenas de ataques religiosamente motivados contra cristãos todos os anos”, diz o especialista em liberdade religiosa e ideologias radicais do Centro de Liberdade Religiosa do Instituto Hudson, Paul Marshall. “Esse é talvez o local menos reconhecido dentre os que hoje perseguem os cristãos”, completa.

Pastor Samuel* é um missionário que sofre ameaças de morte constantemente em seu trabalho de fundar igrejas e converter cidadãos indianos ao cristianismo. A pressão é tanta que sua mulher e sua filha tiveram de sair do país, para a própria segurança, e deixá-lo sozinho em seu trabalho missionário.

“Até agora, nos primeiros nove meses de 2018, já registramos 500 ataques contra fiéis e igrejas. Nove pessoas morreram e ao menos dezessete mulheres e meninas foram estupradas”, afirma Samuel, colaborador da Portas Abertas a VEJA. “As pessoas que estão fazendo isso são praticamente todas parte do governo e sabem que não serão punidas.”

Grupos hindus também acusam instituições de caridade cristãs de usar suas atividades para a conversão e se valem de ameaças e da violência para expulsar líderes religiosos e missionários do país. “Centenas de milhares de pessoas estão sendo forçadas a deixar sua fé e se converter ao hinduísmo. A situação é humilhante para muitos”, diz o pastor.

Desde a intensa operação militar que levou à fuga de mais de 700.000 muçulmanos rohingyas de Mianmar, em 2015, o país está na mira da comunidade internacional. O Exército do país foi acusado pela Organização das Nações Unidas (ONU) de realizar execuções em massa de integrantes da minoria étnico-religiosa com “intenção genocida”.

O nacionalismo religioso impulsionado pelo governo de Mianmar, de maioria budista, também atinge outros credos. Em áreas predominantemente cristãs, como o Kachin e o norte do estado de Shan, seguidores do Evangelho são mortos, detidos e forçados a fugir para viver nas circunstâncias terríveis das dezenas de milhares abrigadas em campos de refugiados.

Recentemente, militantes extremistas pró-China atacaram diversas igrejas na fronteira com o país e sequestraram pastores e missionários, alegando que as comunidades não eram autorizadas por suas lideranças. Em diversas outras ocasiões, líderes religiosos foram presos arbitrariamente e cristãos foram assassinados por sua fé.

África

Assim como no Oriente Médio, o extremismo e a opressão islâmica também são os maiores causadores de perseguição na África.

Boko Haram, grupo ligado ao Estado Islâmico, tem praticado genocídio contra os cristãos no norte da Nigéria, obrigando mais de 1,8 milhão de pessoas a deixarem suas casas. Na diocese de Kafanchan, no norte do país, em cinco anos, 988 pessoas foram mortas e 71 aldeias de maioria cristã foram destruídas, além de 2.700 casas e vinte igrejas.

Já o grupo terrorista Al Shabab, ligado aos extremistas da Al Qaeda, atua no sul da Somália e no oeste do Quênia. Em 2 de abril de 2015, os jihadistas invadiram a Universidade de Garissa, localizada a 400 quilômetros da capital queniana de Nairóbi, e mataram pelo menos 147 pessoas.

Frederick veio ao Brasil a convite da Portas Abertas para contar sua história – 04/10/2018 (Gustavo Luizon/VEJA.com)

O principal alvo dos terroristas foi a comunidade cristã. Frederick, aluno da universidade, conta que homens armados do Al Shabab exigiam que os estudantes e professores recitassem trechos do Alcorão e atiravam contra aqueles que não conseguiam fazê-lo. O jovem, que estudava para ser professor, só se salvou porque se escondeu debaixo de sua cama.

“Foi difícil sair do quarto e ver todos os corpos de colegas de classe, de oração, líderes cristãos universitários e amigos, o sangue escorrendo pelo chão”, conta Fred, que perdeu 26 dos trinta companheiros de seu grupo de preces. Os jovens participavam da reza matinal quando foram surpreendidos pelos primeiros tiros.

Depois dessa tragédia, a universidade se tornou um local extremamente policiado, e não foram registrados mais incidentes. Nas cidades grandes, forças de segurança do Quênia vigiam as portas das igrejas e impedem que desconhecidos entrem nos locais. Ainda assim, Fred diz que, em regiões de maioria muçulmana, os cristãos ainda sofrem com a exclusão no dia a dia.

“A liberdade religiosa é um dos direitos humanos mais básicos e não pode ser tirada de nós”, afirma a VEJA o jovem de 24 anos, que desistiu da carreira de professor para se tornar missionário cristão. “Precisamos falar e nos informar sobre isso”, diz.

https://veja.abril.com.br/mundo/perseguicao-onde-os-cristaos-sao-vitimas-de-opressao-e-violencia/

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