Uma certa mulher… e um toque

REDESCOBRINDO A PALAVRA DE DEUS

Por Valdir Steuernagel

“Ah, não!”, ela balbuciou. “Não é possível que eu vá passar o resto da vida assim!” E pela sua cabeça passou, como num filme, o seu profundo cansaço. Cansada de sofrer com uma hemorragia infindável. Cansada de ser rotulada como impura e continuar piorando, apesar dos tantos médicos a consumir os seus parcos recursos. Cansada de nada dar certo. Cansada de ser mulher. Apenas uma certa mulher.

Naquele dia, porém, ela sentiu uma ponte de esperança. Quem sabe este seria um dia diferente? “Quantos anos faz que eu vivo desse jeito?”, calculou. Doze! Era muito tempo. Tempo demais. “Será mesmo que hoje será diferente?”, ela se pegou pensando, ou orando, e um sorriso medroso atravessou-lhe os lábios. Então, levantou-se, resoluta: “Um toque! Eu preciso de um toque, e nada mais”. E assim começou o dia dessa certa mulher (Mc 5.25).

Enquanto isso…
Jesus tinha acabado de descer do barco, vindo de mais uma de suas andanças pelas diferentes regiões que margeavam o lago de Genesaré. Era sempre assim: bastava ele chegar, era cercado por um grupo de pessoas que logo se tornava uma multidão, e, à medida que ele ia conversando, essas pessoas lhe traziam os seus enfermos e endemoninhados.

Naquele dia, de repente, percebeu-se um movimento diferente. A multidão parecia abrir caminho para alguém passar. Algo raro. Multidão não abre caminho. No entanto, quem chegava era “o Jairo”, homem conhecido e respeitado na cidade, pois cuidava da sinagoga, o lugar de culto e de reunião da comunidade. Prostrou-se aos pés de Jesus e disse (v. 23): “Minha filhinha está morrendo! Vem, por favor, e impõe as mãos sobre ela, para que seja curada e que viva”. “E Jesus foi com ele” (v. 24).

“Filha, vá em paz!”
“Pronto”, balbuciou a certa mulher, e as forças que a mantinham esperançosa foram sumindo. “Por que sempre comigo?”, ela disse ao seu agitado coração. “Eu junto um pouco de esperança para logo concluir que a minha vez nunca chega. Junto um pouco de dinheiro para ir a um médico e acabo ficando pior. Fui uma das primeiras a chegar à margem do lago e me animei quando vi Jesus olhando para mim. Pensei: ‘É hoje! Afinal, eu só preciso de um toque. Um toque, e pronto’. Dei uns passos na direção dele, até que percebi os olhos dos outros se voltando para esse figurão aí. O meu mundo escureceu. Quando eu vi como Jesus olhou para ele, eu soube o que ele havia decidido. Então pensei: ‘Lá vai ele com o Jairo; e eu sou apenas uma certa mulher’.”

“Mas então algo aconteceu dentro de mim. Uma força surgiu do nada e eu decidi que não deixaria a ocasião passar em branco. Hoje seria diferente. Então forcei o meu caminho como nenhuma mulher faz, ainda mais uma mulher como eu, e toquei nas vestes de Jesus. Afinal, Jairo não pediu para Jesus tocar, ou melhor, impor as mãos na filha dele? Pois então eu iria inverter a cena e tocar em Jesus. Tocar de qualquer jeito, nem que fosse nas suas vestes. Pois não é que eu fiz? Quando me dei conta, já estava tocando nas suas vestes. E então senti algo dentro de mim que me disse: ‘Pronto, mulher, você está ajeitada’. Que coisa maravilhosa! Eu respirei fundo e até acho que um sorriso me invadiu, antes de ficar paralisada de susto.”

“Jesus havia parado. Ergueu a cabeça e perguntou: ‘Quem me tocou? Alguém me tocou’. Eu queria sumir. Os discípulos até tentaram arrazoar que ser tocado no meio da multidão era natural, mas Jesus não arredou o pé. Pelo contrário, ele ‘continuou olhando’ (v. 32) até que eu não aguentei mais. Dei dois passos em sua direção, com os joelhos tremendo que nem vara verde, tentei juntar umas palavras e disse: ‘Fui eu’. Morrendo de medo. Mas não é que as coisas boas daquele dia pareciam não ter fim? Ele me olhou com um jeito carinhoso e sorriu. Pronto. Eu sabia que não estava em apuros. Então ele falou o que eu nunca vou esquecer: ‘Filha, a sua fé a curou! Vá em paz e fique livre do seu sofrimento’ (v. 34). ‘Meu Deus do céu’, eu suspirei, ‘ele me chamou de filha.’ Uma filha curada. Por dentro e por fora. Bem ali eu soube: o que aconteceu comigo é coisa de Deus. Puro Deus.”

“Jesus olhou para mim de novo e sem dizer nada me ‘perguntou’ se estava tudo bem. É claro que estava, mesmo que eu tentasse enxugar minhas lágrimas, que escorriam pelo rosto. Quando minha vista clareou, Jesus já havia se virado e caminhava com Jairo. Só ouvi ele dizer para Jairo ter fé e lembrei que foi isso que ele disse que eu tinha e fiquei muito feliz.”

“Passei o resto do dia zonza, em estado de felicidade e gratidão. Não parava de dizer: ‘Foi Deus. Puro Deus. E ele fez isso comigo. E eu que pensei que ele não me daria atenção, ainda mais diante de Jairo’. Depois ouvi dizer que Jesus foi até a casa dele, onde sua filha de 12 anos havia morrido. Pois não é que Jesus tocou na menina e ela acordou? Vejam só: eu toquei em Jesus para ser curada de um sofrimento de 12 anos e Jesus tocou numa menina de 12 anos e ela voltou a viver. Só pode ser Deus. Esse Deus de nome Jesus.”

Quem tem olhos para ver, veja. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Uma nova mulher

Escrito com base em Marcos 5.21-43.

Valdir Steuernagel é pastor luterano e integrante da Aliança Cristã Evangélica e da Visão Mundial.

https://www.ultimato.com.br/revista/artigos/376/uma-certa-mulher-e-um-toque

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