O crente como árvore plantada junto ao ribeiro de águas

INTRODUÇÃO

Antes de qualquer coisa é necessário que conheçamos um pouco do contexto o qual nosso “texto chave” está inserido. Podemos começar pelo título do Salmo 1º “A felicidade dos justos e o castigo dos ímpios”. O título fornece uma visão geral do assunto que vai ser tratado numa determinada passagem. Portanto, podemos concluir de inicio que o salmista vai tratar de um paralelismo existente entre essas duas classes, (os justos e os ímpios), ou mais precisamente apresentar um quadro antitético entre as duas classes. Isso é “o caminho do justo e o caminho dos ímpios”, “a recompensa dos justos e a recompensa dos ímpios”.

Nosso versículo chave trata dos benefícios da vida dos justos. Ele possui basicamente quatro partes, ou quatro sentenças distintas, separadas por uma vírgula (,); vamos recapitular:

– Pois será como a árvore plantada junto às correntes de águas,

– a qual dá o seu fruto na estação própria,

– e cuja folha não cai;

– e tudo quanto fizer prosperará.

Estas divisões contribuem bastante para compreendermos a mensagem de um texto. Cada sentença contém uma ou mais informação que completa a ideia principal do salmista.

Neste texto o crente é comparado a uma árvore não uma árvore comum, mas uma que detêm algumas qualidades especiais.

1º Uma árvore “frutífera”.

2º Uma árvore adulta, com potencial de produtividade.

3º Uma árvore privilegiada “plantada junto aos ribeiros de águas”

AS ALEGORIAS DO CRENTE NA BÍBLIA

As Escrituras usam várias figuras para representar a Igreja de Cristo, como os crentes em particular. Todas elas são relevantes, ensinam lições diversas. As lições que estas figuras ensinam se encacham nos diversos aspectos da vida cristã. Dependendo do que queremos enfatizar na vida cristã podemos tomar uma destas figuras como ponto de partida.

O texto bíblico em ênfase apresenta-nos uma alegoria muito expressiva da vida do crente. Para conhecermos as lições que essa figura oferece é necessário deter um pouco de nossa atenção em seu estudo.

Essa é uma figura riquíssima em significados, portanto para explorarmos um pouco de seu potencial é necessário criarmos um ponto de partida, ou um método de estruturação, para facilitar a compreensão e maximizar nosso aprendizado.

Deteremos nossa atenção nas três principais lições que podem ser extraídas da figura.

1º – A estabilidade “ou maturidade da arvore”

2º – A ramagem e folhagem da arvore

3º – A frutificação da arvore.

ESTABILIDADE

  1. Estabilidade é sinônimo de firmeza
  2. Estabilidade é sinônimo de segurança
  3. Estabilidade também é sinônimo de maturidade
  4. Estabilidade também é sinônimo de solidez.

O que garante a estabilidade da arvore são suas raízes.

Para garantir a estabilidade da árvore, as raízes devem possuir algumas qualidades fundamentais:

  • Devem ser múltiplas
  • Devem ser multidimensional
  • Devem ser profundas

No contexto bíblico as raízes simbolizam o conhecimento espiritual, ou o conhecimento cristão. Assim como uma árvore sem raízes não pode subsistir diante das tempestades, o crente não pode permanecer de pé diante de Cristo sem possuir um sólido conhecimento da Palavra de Deus.

Os fundamentos da árvore são suas raízes, os fundamentos do crente é seu conhecimento da Palavra.

A Bíblia afirma que o povo de Israel pereceu por falta de conhecimento: “O meu povo está sendo destruído por falta de conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que você não deve ser sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos” (Os 4.6). Por isso a Bíblia nos exorta sempre “Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor”: (Os 6.3 a).

O conhecimento do crente deve ter as mesmas qualidades do que a raiz da árvore:

  • Devemos tê-lo em grande proporção (grande conhecimento)
  • Deve ser multidimensional (Rm 14.14; 1ª Co 1.5). (Amplo).
  • Deve ser profundo (com clareza).

GALHOS E FOLHAGEM DA ARVORE

Os galhos e folhagem representam muito para uma árvore. Isso demonstra, à primeira instância, que se trata de uma árvore saudável, segundo, que se trata de uma árvore com grande propensão de frutos.

Uma árvore que possui muitos galhos tem mais chances de ser mais produtiva que uma árvore com poucos galhos. Dos galhos procedem os rebentos, que produzem flores, que por sua vez produz os frutos.

Uma árvore frondosa, que tem muitos galhos e folhagem é admirada por todos. As folhas funcionam como um adorno para árvore, como também um atrativo irresistível aos pássaros e animais que se aconchegam à sua sombra.

Os galhos representam as diversas áreas da vida cristã: família, matrimônio, trabalho, ministério, recreação, finanças e acima de tudo os empreendimentos do crente de um modo geral.

Quando menosprezamos algumas dessas áreas, nos tornamos semelhante a uma arvore com poucos galhos. De uma arvore que tem poucos galhos não se espera muitos frutos.

Os galhos funcionam como garantia, ou prova de que virão muitos frutos. Uma árvore produtiva divide seu potencial de produtividade com sua extensão imediata, os galhos, que por sua vez divide com seus renovos.

Há um percentual de produtividade correspondente a cada extensão. Portanto quanto maior o numero de extensão, maior será o resultado.

Espiritualmente falando, existe certo número estabelecido de extensões (ou áreas) na vida do crente. Estas são as áreas básicas da vida de todos. Se formos negligentes no cuidado delas, serão como galhos secos presos a árvore, que além de diminuir seu percentual e potencial de produtividade, diminui sua beleza externa, sua admiração.

Outras áreas igualmente importantes na vida do crente, vão sendo adicionadas, de acordo com sua ocupação social, e principalmente, sua ocupação no Reino de Deus. O próprio crente pode adicionar extensão a sua vida cristã, ou a sua vida pessoal. Isso fala como já dissemos, não somente de áreas específicas da nossa vida, mas também daquilo que apostamos, daquilo que empreendemos. Devemos voltar nossa atenção ao que diz o texto chave deste estudo “e tudo quanto fizer prosperará” (v 3 a).

Podemos expandir nosso potencial de crescimento. Espiritualmente falando não existem limites para estendermos nossa influencia, ou nossa potencialidade. O que devemos considerar é que, quanto maior nossa expansividade, mais estruturas devemos ter. Uma arvore de grande porte, ou expansividade deve possuir raízes múltiplas e profundas para que possa resistir às tempestades. Quanto maior e mais robusta for a arvore, maior deverá ser sua capacidade de resistência. O mesmo principio é válido para os cristãos.

A fonte de vitalidade folhas

As folhas da arvore mantem-se vivas através da vida que emana dos galhos, trocos e raízes. As raízes extraem os nutrientes da terra e distribuem por toda arvore. Portanto a qualidade do terreno vai influenciar muito na formação, frutificação, e vida útil, da arvore.

No texto em estudo o crente é comparado a uma arvore plantada junto aos ribeiros de águas. Isso significa lugar, e clima totalmente favoráveis para o crescimento e frutificação. O ribeiro de águas simboliza o Espírito Santo, a fonte de nossa vitalidade, e também Cristo, a fonte de viva, que jorra para vida Eterna (Jo 4.14). Se permanecemos Nele, temos a vida eterna.

A duração das folhas

As folhas de uma arvore não duram por toda vida. Sua vida é efêmera e muito circunstancial. Os fatores climáticos influenciam diretamente nessa questão.

O processo de renovação de folhagem de uma arvore é contínua. A cada estação do ano às arvores tomam novos aspectos em sua forma exterior. Isso vai desde um estado pleno de folhagem, à ausência total da mesma.

Na vida espiritual, no entanto deve ser diferente. As estações do ano que representam “fases distintas da vida cristã”, não podem influenciar no processo de folhagem do crente como arvore. Nem tão pouco as circunstâncias diversas, que tenta nos abater, sem aviso prévio.

As folhas simbolizam os “adornos da vida cristã”. Ou mais precisamente os “dons espirituais”. Algumas características cristãs são vitais. Isso é, são fundamentais para nos identificar como cristãos. Podemos citar, por exemplo, a virtude do “amor” (1ª Co 13). A “fé” (Hb 11.6), nossa “esperança” em Cristo. Essas virtudes revelam nosso caráter, nosso homem interior. Outras virtudes são ornamentais. São também de valor inexprimível, como as citadas anteriormente, a diferença é que elas não pretendem revelar nosso ser interior, mas dar um aspecto puramente cristão a nossa vida exterior. Jesus disse que no fim dos tempos muitas pessoas seriam portadoras de notáveis dons espirituais, mas ficariam de fora do Reino de Deus (cf. Mt 7.22,23).

Os “dons” são adornos pra vida cristã, não sua essência. Em outras palavras os dons são os adornos externos, enquanto o “Fruto do Espírito”, (Gl 5.22) a essência da vida cristã.

Tanto a natureza como as Escrituras Sagradas revelam essas verdades. Pode haver arvores com expressiva folhagem, mas estéreis, isso é que não dão frutos. Algumas foram arvores frutíferas em outros tempos, mas hoje são estéreis. Outras nunca deram frutos, sempre foram estéreis.

Jesus deixou-nos esse exemplo: Ao visitar certa arvore (figueira) não encontrou nela frutos, mas apenas folhas:

“Ora, de manhã, ao voltar à cidade, teve fome; e, avistando uma figueira à beira do caminho, dela se aproximou, e não achou nela senão folhas somente; e disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti. E a figueira secou imediatamente. Quando os discípulos viram isso, perguntaram admirados: Como é que imediatamente secou a figueira?”. (Mt 21.20).

Os comentaristas da Bíblia são quase unanime em afirmar que a “figueira” que Jesus amaldiçoou simbolizava Israel. Israel a figueira de Deus não produzia mais frutos. Assim como aquela figueira, muitos cristãos hoje não produzem mais frutos, vivem apenas de aparência. O fim dessas pessoas é trágico, Jesus falou disso em outra passagem:

“E passou a narrar esta parábola: Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha; e indo procurar fruto nela, e não o achou. Disse então ao viticultor: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho; corta-a; para que ocupa ela ainda a terra inutilmente?” (Lc 13.6,7).

João Batista também falou sobre o destino da arvores infrutíferas:

“E já está posto o machado á raiz das árvores; toda árvore, pois que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” (Mt 3.8).

A FRUTIFICAÇÃO DA ARVORE

A expectativa de todo agricultor ao cultivar uma plantação são os frutos. Uma arvore não será louvada por produzir espessa folhagem ou ramos. Isso pode ser admirável, desde que conceba a ideia dentro de sua respectiva fase. Uma arvore frutífera só será louvada quando produzir frutos.

O mesmo podemos dizer dos crentes. Ter uma vida cristã repleta de adornos é louvável, mas insuficiente para substituir a pratica da verdadeira piedade. A vida cristã não deve ser apenas aparente, mas vital em todos os seus aspectos. Fomos chamados para darmos frutos, Jesus disse:

“Vós não me escolhestes a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos designei, para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda” (Jo 15.16).

O que representam os frutos

A Bíblia fala em diversas passagens sobre a necessidade dos crentes produzirem frutos. Os frutos são uma prova viva de que estamos em Cristo, e Ele em nós (Jo 15.1-4). Mas afinal, o que são esses frutos? Muitos, em todos os tempos e lugares tentaram identificar esses frutos com as várias práticas da vida cristã. Alguns afirmam que os frutos representam “ganhar almas para o Reino de Deus”. Outros afirmam que os frutos significam “ser fiel na entrega de dízimos e ofertas” na casa de Deus. Julgando pelo contexto geral das Escrituras podemos admitir todas essas alternativas. Mas podemos ao mesmo tempo dizer que elas não define perfeitamente o conceito bíblico dos “frutos”. Os frutos, a primeira instância, simbolizam o caráter cristão, que são os “frutos de nossa justiça”, e em segundo representam a totalidade de nossa nova natureza criada em Cristo, com suas principais características. Paulo, a meu ver, descreveu o mais perfeito conceito de frutos quando escreveu aos gálatas:

“Mas o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade. A mansidão, o domínio próprio; contra estas coisas não há lei”. (Gl 5.22,23).

O fruto do Espírito é uma obra operada pelo Espírito Santo no interior do crente. Mas não se trata de algo instantâneo, que acontece como um passe de mágica. É uma obra realizada em parceria entre o crente e o Espírito Santo. Deve ser cultivada. O fruto do Espírito compõe nosso “homem interior”. Se evidenciamos o fruto do espírito em nossas vidas é sinal de que realmente “nascemos de novo” (Jo 3.5). É sinal de que refletimos a nova criação de Deus.

O fruto do Espírito é a natureza de Cristo formada em nós. Quando praticamos evidenciamos esse fruto, refletimos a glória de Cristo:

“Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2ª Co 3.18).

Exalamos o seu bom perfume:

“Porque para Deus somos um aroma de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem” (2ª Co 2.15).

O fruto do Espírito é tratado aqui no singular, pois deve ser entendido como a “obra do Espírito”. A obra do Espírito é posta em contraste as várias obras da carne (Gl 5.19,20). O fruto do Espírito possui nove gomos ou partes “amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, domínio próprio e mansidão”. São inter-relacionadas e interdependentes. Juntos formam a perfeição de Cristo, a completude de Deus no homem:

“…até que todos cheguemos…ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo;” (Ef 4.13).

Resumindo, não podemos ser arvore frutífera sem possuirmos tais qualidades. É tempo de cultivarmos o precioso fruto do Espírito.

O destino das arvores infrutíferas

Falamos disso resumidamente anteriormente. Agora vamos tratar mais acuradamente do assunto.

A Bíblia fala de um Deus de amor, ao mesmo tempo em que fala Dele como Deus de juízo. Isso não significa que Deus possua duas facetas, mas que possui características que aparentemente são contraditórias. Paulo escrevendo aos Romanos diz:

“Considerai, pois a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; para contigo, a bondade de Deus, se permaneceres nessa bondade; do contrário também tu serás cortado” (Rm 11.22).

Sobre o amor de Deus o apóstolo João declara: “E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem permanece em amor, permanece em Deus, e Deus nele” (1ª Jo 4.16).

Sobre o Juízo de Deus declara o escritor de Hebreus “pois o nosso Deus é um fogo consumidor” Hb 12.29.

Deus não somente ama, Ele é o amor por excelência, a personificação do amor, mas como Deus é também justo deve julgar e condenar tudo que contrário a sua natureza santa e perfeita.

Jesus advertiu seus seguidores da possibilidade de serem cortados da videira caso não produzissem frutos (Jo 15.6). Paulo escrevendo aos Romanos afirma que Israel, os ramos naturais da videira foram cortados, porque não produziram frutos. Os gentios foram enxertados contra a natureza na oliveira que é Cristo, mas se não derem frutos, serão igualmente cortados (Rm 11.17-21).

Essas referências falam de uma rejeição de Deus, ocasionada não por questões de escolha de Deus, mas de escolha pessoal de cada um. Deus na verdade não rejeita ninguém (Jo 6.37) as pessoas que é se auto excluem da comunhão com Deus.

CONCLUSÃO

Se estamos ligados a Cristo, como um ramo ligado a videira, temos condições de produzir toda sorte de frutos no Reino de Deus, e temos acesso a todas as bênçãos espirituais por intermédio do Espírito Santo.

Mas se estamos desligados, nosso fim é trágico; sedo ou tarde seremos cortados da presença do Senhor.

Não é mais tempo de brincarmos de ser crentes, é tempo de nos despertar para essa realidade. Não podemos esquecer que Deus é amor, mais também é fogo consumidor.

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