Um inimigo que precisa ser resistido

       Nós, crentes em Jesus, vivemos uma luta  contínua contra o pecado, em vigilância constante, pois existe um inimigo externo ao qual precisamos resistir, que é o próprio diabo: “Sujeitai-vos, pois a Deus; resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4:7). O outro inimigo é interno, ou seja, a carne: “Andai em Espírito e não cumprireis a concupiscência da carne.  Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne; e estes opõem-se um ao outro; para que não façais o que quereis” (Gl 5:16,17). O ensino do Sr Jesus e dos seus apóstolos enfoca o tema com frequência. E, Tiago, o primeiro pastor da Igreja de Jerusalém, já via desde muito cedo a necessidade de os crentes resistirem aos inimigos externo e interno. 

RESISTINDO O INIMIGO

       O Senhor Jesus provou na tentação do deserto que o diabo não é invencível, desde que se resista a ele com a Palavra de de Deus. Veja que Jesus resistiu às três últimas investidas do diabo no deserto com um “está escrito” que não deu chance alguma ao Maligno, de modo que “o diabo o deixou” (Mt 4:11). O relato de Lucas afirma que o diabo se ausentou de Jesus temporariamente: “E, acabando o diabo toda a tentação, ausentou-se dele por algum tempo” ( Lc 4:13). Quando os crentes se revestem do Senhor Jesus e da força do seu poder contra as astutas ciladas do diabo (Ef 6:10,11), devem depois de tudo isso “ficar firmes” (v.13). Isso porque o diabo volta a atacar. Mesmo depois de derrotado no deserto, o diabo continuou insistindo; o Novo Testamento conta que Jesus foi tentado não somente nos quarenta dias imediatamente após o batismo no rio Jordão, mas durante todos os dias do seu ministério (Lc 22:28; Hb 4:15). Isso mostra que Satanás é persistente no ataque, e na vida cristã não é diferente. O fato de ele fugir de nós pela nossa resistência não significa que a vitória seja definitiva, por essa razão devemos estar atentos em todo o tempo.

       A primeira parte do capítulo 4 de Tiago apresenta uma lista de comportamentos que devem estar longe da vida cristã.  São as paixões resumidas em quatro categorias: 1)Contenda entre irmãos, 2)mundanismo, 3)insubmissão a Deus e 4)maledicência.

CONTRA A CONTENDA

       Tiago revela haver um clima de contenda no seio a igreja nos primeiros anos de sua história. Na lista das seis coisas com as quais Deus se aborrece, há o acréscimo de uma sétima que Deus abomina: é o que semeia contenda entre os irmãos (Pv 6:17_19). Se a epístola de Tiago foi dirigida especificamente aos primeiros cristãos de origem judaica dispersos pelo vasto império romano, como parece indicar a introdução da carta (Tg 1:1), esses irmãos judeus deviam conhecer essa passagem do livro de Provérbios. Além do mais, os dois maiores mandamentos – amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (Mt 22:37_40; Mc 12:29_31) – eram conhecidos das igrejas. Jesus disse: “Bem aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mt 5:9).

       O pecado da contenda significa em intriga, confusão e em jogar um contra o outro criando um ambiente ruim. Tiago emprega metaforicamente a expressão guerras e pelejas: “Donde vêm as guerras e pelejas entre vós?” (Tg 4:1). É uma linguagem tão pesada que há até quem afirme, como Adam Clarque, que essas guerras e pelejas sejam uma referência às disputas internas que haviam entre os judeus de Jerusalém nos levantes contra Roma. A população da Judeia estava dividida nessa época sobre a luta pela libertação do poder romano. A expressão “entre vós” não diz respeito à população em geral da Judeia, mas especificamente entre os crentes.

       Qual a fonte dessas contendas? Tiago responde: os maus desejos, “os vossos deleites” (v. 1b), ou seja o hedonismo, a cultura do prazer que se originou na filosofia epicurista, fundada por Epicuro, de onde vem o nome  (321 – 270 a.C.). Os epicuristas estavam muito em voga entre os romanos na era apostólica, o apóstolo Paulo discursou para eles juntamente com os estoicos no areópago, em Atenas (At 17:18). O termo “hedonismo “, hedoné, em grego, aparece cinco vezes no Novo Testamento, para descrever deleites ou prazeres ilícitos (Lc 8:14; Tt 3:3; Tg 4:1; 3:2; 2ªPe 2:13). Era essa a fonte das contendas e cujos resultados eram cobiças, invejas, disputas e fracassos, pois o pedido deles não era atendido, uma vez que o problema estava na motivação: “para o gastardes em vossos deleites” [hedonais] (Tg 4:3).

CONTRA O MUNDANISMO

       Tiago chama esses crentes de “adúlteros e adúlteras”, seguindo a linguagem metafórica muito comum no Antigo Testamento para indicar a infidelidade dos israelitas ao seu Deus e descrever a apostasia de Israel (Ez 16:20_22; 23:3_5; Os 2:2_8). O mundanismo envolve a infidelidade de Israel, da igreja ou de um cristão; é chamado na Bíblia de adultério, prostituição e fornicação espiritual (Jr 3:8; Ez 16:32; Ap 2:20). Ao exortar contra adultério espiritual, Tiago associa esse desvio ao mundanismo.

       As palavras gregas para  “mundo”, no Novo Testamento, são Kosmos e aion.  Ambas significam o mundo físico: “Vós sois a luz do mundo [kosmos]” (Mt 5:13). “Pela fé entendemos que os mundos [aion] pela Palavra de Deus foram criados” (Hb 1:3), e também o pecado: “a amizade do mundo [kosmos] é inimizade contra Deus” (Tg 4:4). O substantivo grego aion tem o sentido “sistema de cousa, século”. Aparece para “Deus deste século” (2ªCo 4:4). A palavra “mundo” Rm 12:2 é aion e refere-se ao pecado. A expressão “não vos conformeis com este mundo” significa que não devemos nos amoldar ao pecado. A transformação de nossa mente e de nosso interior é pelo Espírito Santo (2ªCo 3:18), e isso repele o modelo mundano pecaminoso.

       Nenhum crente contesta o fato de a Bíblia condenar o mundanismo”. Isso é ponto inquestionável. Embora a palavra “mundanismo” não seja encontrada na Bíblia, seu conceito o é. Refere-se a tudo aquilo que desagrada a Deus (Tg 4:4; 1ªJo 2:15,16). O conceito de mundanismo, nos dias dos apóstolos, consistia nos teatros, nos jogos e na devassidão (ELWELL, vol.II, 1988, p.597). 

       Entre as várias modalidades de teatro, havia entre os romanos o nudatio mimarum, “desnudamento das mimas “, com gesto mímico da expressão corporal e da dança. Como o nome já diz, as bailarinas se apresentavam desnudas. Os jogos romanos eram demais violentos para a piedade cristã. Não somente as lutas de gladiadores, mas também as corridas de cavalos, sempre terminavam em mortes. As olimpíadas daqueles dias era uma festa pagã, em homenagem a Zeus, principal divindade grega, que segundo a mitologia grega, habitava no Olimpo. Além disso seus atletas participavam desses jogos completamente desnudos, por isso os rabinos protestavam veementemente contra a participação dos judeus nesses eventos. 

    A devassidão fazia parte da cultura greco-latina. Devassidão é libertinagem, licenciosidade depravação de costumes.  A ARC traduz o substantivo grego pornoi, plural de pornos, “prostituto, fornicador”, por “devassos”. O apóstolo Paulo combateu a devassidão : “No erreis, nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus” (1ª Co 6:10).

      O conceito de mundanismo é o mesmo ainda hoje; não mudou. A diferença é estar mais ampliado. Segundo a Bíblia de Estudo Pentecostal, Satanás apresenta uma idéia mundana de moralidade, “das filosofias, psicologia, desejos, governos, cultura, educação, ciência, arte, medicina, música, sistemas econômicos, diversões, comunicação de massa, esporte, agricultura, etc., para opor-se a Deus e ao seu povo, à sua Palavra e aos seus padrões de retidão”. Tudo isso deve ser analisado à luz do seu contexto. Não é pecado ser médico, nem é pecado o crente estudar medicina. O diabo, porém pode usar, como tem feito, a medicina para destruir os valores cristãos: prática do aborto e da eutanásia, por exemplo; a ciência, para o ateísmo; a música, para o sensualismo. O mesmo pode acontecer na política, nos sistemas econômicos e outros, mas nem por isso a Bíblia condena alguém por ser músico, cientista, político ou empresário. Tudo depende do contexto e da finalidade.

CONTRA A INSUBMISSÃO A DEUS

       Tiago denuncia um clima de insubmissão a Deus e exorta os crentes dizendo que “Deus resiste aos soberbos, dá, porém, graça aos humildes. Sujeitai-vos, pois,  a Deus; resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4:6,7). O soberbo é o arrogante, orgulhoso (Lc 1:51; 2ªTm 3:2). O termo grego é hyperéphanos, literalmente, “estar acima dos demais”. O soberbo é aquele que se considera acima dos outros, e Deus resiste a este tipo de pessoa. Essa passagem é uma citação da Septuaginta (Pv 3:34).   O apóstolo Pedro exorta também aos seus leitores nesse sentido (1ªPe 5:5). O verbo grego para “submissão” em “sujeitai-vos a Deus” é hypotasso, “sujeitar, estar em sujeição”, que vem da preposição, hypó, “sob”, e do verbo tasso, “ordenar”. O substantivo, hypotage, de hypotasso, significa “submissão, subordinação, obediência” (2ªCo 9:13). Hypotasso é usado para traduzir cerca de dez verbos hebraicos na Septuaginta. Trata-se de um termo originalmente militar e aparece com frequência em referência à subordinação política (Sl 47:4). Mas, às vezes, essa sujeição pode ser voluntária (1ªCr 29:24), e no Novo Testamento aparece também como submissão voluntária e recíproca (Lc 2:51; Cl 3:18). Submissão significa obediência.

       Quem se humilha diante de Deus reconhece as suas debilidades e fraquezas e passa depender cada vez mais de Deus. Desse modo, o crente se achega a Deus e Deus se achega ao crente, que sobre os domínios do Espírito, passa a ter uma vida transformada; mãos limpas fala de purificação e santificação (Sl 24:4; 1ªPe 1:22). Os de “duplo ânimo”, os crentes indecisos e divididos em suas decisões entre Deus e o mundo (Tg 1:8), reconhecem que não é possível servir a dois senhores (Mt 6:24). Lamentar as misérias e chorar, converter riso em pranto e gozo em tristeza, é reconhecer seus próprios pecados. E, nessa submissão e humildade, Deus exalta os fiéis (Tg 4:8_10). Obediência, portanto, pode ser definida como prova suprema da nossa fé em Deus e do nosso amor a ele.

CONTRA A MALEDICÊNCIA

       O outro problema que precisa ser eliminado é a maledicência: “Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Aquele que fala mal dum irmão, ou julga a seu irmão, fala contra a Lei, e julga a Lei; mas se julgas a Lei, não és mais observador da Lei, mas juiz” (Tg 4:11). Essa exortação refere-se ao cuidado do crente com o uso da língua. Tiago reconhece a fragilidade humana e afirma que todos nós tropeçamos na palavra (Tg 3:1_12). A Bíblia diz que não há ser humano que não peque (1ª Re 8:46; Ec 7:20); esse pensamento é ensinado no Novo Testamento (1ªJo 1:8;2:2). Mas o termo grego para “falar mal” é katalaleo, “falar mal de, falar contra, injuriar, caluniar”; não se trata de mera fofoca ou fuxico, mas de difamação. Esse verbo só aparece três vezes no Novo Testamento, e as outras duas vezes se referem às calúnias dos incrédulos contra aos crentes (1ªPe 2:2; 3:16). Trata-se de uma prática que em nada combina com a vida cristã.

       Note que se fala com muita frequência entre as pessoas não evangélicas sobre os sete pecados capitais. O que isso significa? Foi um monge místico de vida austera, chamado Evágrio Pôntico (345_399), que criou um catálogo de oito pensamentos ruins, ou dos demônios: gula, luxúria, amor ao dinheiro, cólera, melancolia, acédia, vanglória e orgulho. Essa lista foi adaptada posteriormente pelo papa Gregório Margo (540_604), que substituiu Acédia por preguiça, melancolia por inveja e vanglória por orgulho. Essa lista dos hoje conhecidos como sete pecados capitais á mais conhecida pelo público secular e pelos católicos. Não é uma lista bíblica, mas todos nós sabemos que cada vício ou pecado nela constante é de fato condenado nas Escrituras Sagradas. Evágrio e muitos outros antigos se dedicaram longamente à tácita do combate contra a tentação: “O objetivo dessa lista é, não servir para o exame de consciência antes da confissão, como é o caso em geral na tradição ocidental, mas dar meios de combater espiritualmente cada um desses vícios” (Willians, 2004, p. 1369).

       São informações adicionais para os irmãos que, com certeza, já ouviram falar dos “sete pecados capitais” e talvez não saibam o significado ou a origem disso. Nós temos o Espírito Santo que nos guia em todas as coisas (Jo 14:16, 17) e não necessitamos de tabelinhas para nos manter em comunhão com o Senhor Jesus. 

O TRATO COM AS OUTRAS PESSOAS E A BATALHA ESPIRITUAL

        A batalha espiritual é uma realidade. A luta de todo aquele que serve ao Senhor Deus é contra o pecado, que pode ser uma tentação do Diabo ou da própria carne. Muitas vezes, o desafio surge no modo como tratamos os irmãos e as irmãs, daí a necessidade de prestar atenção para apresentar diante de Deus todas as coisas, inclusive nosso comportamento. A contenda entre irmãos, o mundanismo, a insubmissão a Deus e a maledicência são alguns aspectos que devem estar sobre vigilância na batalha. Devemos, portanto, nos colocar na presença de Deus a fim de resistir a esses inimigos.

Bibliografia:

Batalha Espiritual – O povo de Deus e a Guerra Contra as Potestades do Mal  – Livro de Apoio das Lições Bíblicas do 1ºT 2019 Adulto CPAD.

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