Exortações na Grande Maratona da Fé

TEXTO ÁUREO

“Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta.”

(Hb 12:1)

Comentários do texto

O capítulo 12 de Hebreus continua com o tom exortativo característico da autor. Neil R. Lighrfoot observa que o capítulo 11  não está isolado desta seção. Ele destaca que o autor

“combinando fervor e o discernimento religiosos, trata-e de uma brilhante exortação colocada em meio a duas grandes seções apelatórias (10:19_39 e cap. 12) com respeito ao empreendimento cristão. Este capítulo então começa ou continua um desafio aos leitores para que perseverem na fé até o fim”.

Tendo discorrido sobre a odisseia dos heróis da fé, o autor introduz um elemento de conclusão de sua longa dissertação sobre o valor da fé na vida do crente. Estamos cercados de todos os lados pelo testemunho daqueles que ousaram acreditar nas promessas de Deus e viver à altura delas. Ele exorta seus leitores a deixar todo embaraço. A palavra grega usada aqui para “embaraço” é onkos, que significa peso, massa, e só aparece aqui no Novo Testamento. Philip E. Hughes destaca que esse termo é usado em relação a um atleta que se despirá para a ação, tanto pela remoção do peso supérfluo — mediante rigoroso treinamento — como pela remoção de todas as suas roupas. Muitas coisas à nossa volta não são pecados, mas podem tornar-se um peso do qual precisamos nos livrar. 

Verdade Prática

Assim como  um atleta, o cristão corre a grande maratona da fé.

Leitura Bíblica em Classe

Hb 12:1_8; 13:15_18

Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta,

tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus.

Pensem bem naquele que suportou tal oposição dos pecadores contra si mesmo, para que vocês não se cansem nem desanimem.

Na luta contra o pecado, vocês ainda não resistiram até o ponto de derramar o próprio sangue.

Vocês se esqueceram da palavra de ânimo que ele dirige a vocês como a filhos: “Meu filho, não despreze
a disciplina do Senhor nem se magoe com a sua repreensão,

pois o Senhor disciplina a quem ama, e castiga todo aquele a quem aceita como filho”.

Suportem as dificuldades, recebendo-as como disciplina; Deus os trata como filhos. Ora, qual o filho que não é disciplinado por seu pai?

Se vocês não são disciplinados, e a disciplina é para todos os filhos, então vocês não são filhos legítimos, mas sim ilegítimos.

Por meio de Jesus, portanto, ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor, que é fruto de lábios que confessam o seu nome.

Não se esqueçam de fazer o bem e de repartir com os outros o que vocês têm, pois de tais sacrifícios Deus se agrada.

Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria, não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês.

Orem por nós. Estamos certos de que temos consciência limpa e desejamos viver de maneira honrosa em tudo.”

COMENTÁRIO

INTRODUÇÃO

Os dois capítulos finais da Carta aos Hebreus constituem-se como um dos mais fortes apelos exortativos de toda a epístola. A exortação, que começa no capítulo 12, é que cada um corra a “maratona da fé”que está proposta. A palavra grega agon traduzida como “carreira” tem o sentido de luta, conflito, esforço e corrida. No capítulo 11 o autor havia falado das promessas de Deus como o alvo a ser alcançado, agora ele coloca o cristão dentro da maratona da fé, correndo rumo a essa meta. Como toda corrida é preciso fazer os preparativos necessários. e isso tem uma razão de ser — toda  corrida, especialmente a maratona, demanda algum tipo de esforço e sofrimento. O sofrimento aparece como algo intrínseco da corrida, já que ela exige uma vida disciplinada. Todavia, nada disso deve servir de desmotivação, já que estamos numa pista onde outros, bem antes de nós, também já trilharam.

Ponto Central

  • Precisamos de fé para correr a grande maratona que nos está proposta.

I – A CORRIDA PROPOSTA

1.O exemplo dos antigos.

       Muito embora o autor fale sobre o futuro, ele o faz com um olhar no passado. A “grande nuvem de testemunhas” (Hb 12:1) é uma referência dos heróis da fé  aos quais ele se referira no capítulo 11. Aqueles homens e mulheres de Deus do mundo antigo também entraram na corrida. Eles correram, e correram tão bem, que por essa razão tinham agora suas vidas como exemplos. Suas vidas e exemplos devem servir de motivação a todo que se propõe a entrar na corrida.   

2.O exemplo de Jesus.

O autor faz um apelo para que os crentes olhem “para Jesus, autor e consumador da fé,  o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus ” (Hb 12:2). Essas palavras devem ser lidas a partir do contexto do primeiro século. O judaísmo, como uma religião milenar, possuía um sistema cerimonialista muito rígido. Esse ritualismo quando contrastado com a fé cristã, ainda embrionária, gerou fortes conflitos. Muitos crentes não demonstravam convicção suficiente para suportar essa pressão e, por isso, esses crentes abandonavam a nova fé ou voltavam para o antigo sistema que haviam abandonado. O autor apela então para o exemplo de Jesus, que mesmo suportando a afronta, a vergonha e a ignomínia, não abandonou a carreira que lhe fora proposta.

3.O exemplo da Igreja.

A visão do autor em relação a seus companheiros de caminhada é a mais realista possível. Ele não nega em nenhum momento desconhecer a realidade pela qual eles estão passando. O sofrimento é uma realidade implacável que os cerca. Contudo, o seu apelo é que eles vejam o sofrimento por outro ângulo. Longe de ser um sinal de reprovação divina, o sofrimento é tido pelo autor como um instrumento pedagógico usado por Deus. O escritor volta-se para o Antigo Testamento onde esse ensino é bem claro (Hb 12:5,6). Por isso, ninguém na jornada da fé, quando surpreendido pelo sofrimento, deve esmorecer e abandonar a corrida.

SUBSÍDIO BIBLIOLÓGICO

“O chamado a perseverar como filhos (12:1_13)

      O vínculo entre a fé e a perseverança (ou paciência) no capítulo 11 torna-se a plataforma para o chamado à perseverança em 12:1_13. em 11:40, duas frases sinalizam o retorno à aplicação pessoal para os leitores originais e para nós: ‘Alguma coisa melhor a nosso respeito’ e ‘para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados’. Tendo descrito a história e os trunfos espirituais dos antigos santos, que se tornaram possíveis causas de sua fé e perseverança, o autor novamente enfoca o desafio que seus leitores têm de serem firmes na fé e perseverantes para suportar as provas (cf. 12:1_3,7 com 10:32,36). Ele desenvolve três incentivos principais que deveriam inspirar seus leitores a perseverarem como crentes no Senhor:

  • O incentivo do exemplo de seus antepassados (21:1);
  • O incentivo do exemplo de Cristo (21:2,3);
  • O incentivo do relacionamento do Pai-Filho que tinha com Deus (12:4_11)”.

II-CORREDORES BEM TREINADOS

1.Respeitam limites.

O autor lembra a seus leitores:  “segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12:14). Certo autor ressalta que a santificação, como usada na Epístola, é principalmente um termo ritual  (Hb 10:14,22). Da mesma forma que, sob a Antiga Aliança, a pessoa impura não poderia entrar num recinto  sagrado para adorar, assim também sem santidade a visão final  de Deus será impossível (cf. Mt 5:8). O pensamento se volta aqui, porém, para a prática da santidade e da moral. “Corredores” bem treinados respeitam limites.

2.Mantêm a mente limpa.

Com o texto de Deuteronômio 29:18 em mente, o autor fala em tom exortativo do “cuidado” que deveriam ter a fim”de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela  muitos se contaminem” (Hb 12:15). Moisés havia advertido o antigo Israel sobre os males da idolatria e seu fruto amargo, a apostasia. Alguém contaminado com a erva daninha da apostasia sem dúvida contaminaria toda a comunidade. A única forma de se manter livre desse mal era manter uma mente sóbria, limpa pela Palavra de Deus. Dessa forma era possível não permitir que o grupo fosse contaminado. Ninguém com raiz de amargura no coração consegue fazer com êxito a caminhada da fé. “Corredores” bem treinados mantêm a mente limpa.

3.Valorizam as coisas espirituais.

O autor exorta seus irmãos de fé a valorizarem as coisas espirituais. Se alguém está regredindo e voltando atrás é porque não está dando o real valor a salvação recebida. O exemplo vem de Esaú, filho de Isaque e irmão de Jacó: “E ninguém seja fornicador ou profano, como Esaú, que por um manjar, vendeu o seu direito de primogenitura” (Hb 12:16). De acordo com o livro de Gênesis, Esaú era um indivíduo mais preocupado com as coisas terrenas do que com as celestiais (Gn 25:29_34; 27:33,38). Não hesitou em trocar o seu direito de primogenitura por uma simples refeição. Esse fato revela a mente mundana que ele possuía. A indiferença religiosa conduz à apostasia espiritual e, muitas vezes, fica tarde para se arrepender! “Corredores” bem treinados valorizam as coisas espirituais.   

SUBSÍDIO DIDÁTICO

“A santidade na vida prática(12:14)

       A santidade não é algo opcional ou extra na vida cristã, mas algo que pertence à sua essência. Somente aqueles que tem o coração puro verão a Deus; ninguém mais (Mt 5:8). Aqui (Hb 12:14), como no verso 10, trata-se de santidade na vida prática. Deste modo, 12:14 começa exortando os crentes a procurarem verdadeiramente a paz e a santidade como estilo de vida. Fazer todo o esforço possível (dioko) transmite a ideia da diligência na busca da paz e da santificação, e não um esforço que produz obras mortas e justiça própria.

       Muitos intérpretes entendem a busca da ‘paz’ em 12:14 como se referindo à paz com todos (como na NVI). A preposição grega neste verbo, é meta com o genitivo, que traz um sentido de ‘junto com’ (cf. 11:9; 13:23). Deste modo, o termo ‘todos’ significa especialmente junto com’todos os outros crentes (cf. 13:24), que também estão sendo exortados a procurar a paz de Cristo na comunidade. Como um objeto direto do verbo dioko, a paz é vista como uma realidade objetiva ligada a Cristo e à sua morte redentora na cruz, que torna possível a harmonia e a solidariedade na comunidade cristã (cf. Cl 1:20).

Semelhantemente, a ‘santidade’ é essencial para a comunidade cristã  (cf 12:15). O pecado divide e contamina o corpo de Cristo (a Igreja), da mesma maneira que o câncer  faz com o corpo humano. Procurar a santidade sugere um processo de santificação  na qual a nossa vida e nossa maneira de viver  são separadas para Deus como santas e como instrumentos de honra a Ele. Somos transformados conforme a semelhança de Deus quando nos aproximamos e nos mantemos no Lugar Santíssimo de sua presença. Na união e na comunhão com Deus, no Lugar Santíssimo, reside o poder da ‘paz’ e da ‘santidade’”.

III-A CORRIDA FINAL, EXORTAÇÕES FINAIS

1.Valorizar a liderança.

Uma  das exortações e advertências que mais se repete nesse capítulo é eita em relação ao respeito devido aos líderes da comunidade cristã. A expressão grega no texto de Hebreus para o exercício da liderança é traduzida como pastor, chefe ou líder e ocorre seis vezes nessa carta, sendo três delas neste capítulo (Hb 13:7, 17, 24). Essa palavra é igualmente usada em Atos 7:10 para falar sobre José como governador do Egito. O autor pede que os cristãos não se esqueçam do trabalho que os líderes espirituais realizaram em prol deles (Hb 13:7). A natureza da missão a eles confiada pertence a outra dimensão, isto é, a espiritual (Hb 13:17). Onde não há respeito pela liderança, prevalece a anarquia. Os líderes não são intocáveis em tampouco perfeitos, mas devem ser honrados pelo trabalho que realizam (1ªTs 5:12,13), bem como devem ser lembrados por isso (Hb 13:24).

2.Valorizar a doutrina.

Desde os primórdios a Igreja foi tentada a se desviar da verdade. Doutrinas falsas sempre estiveram à espreita. Aqui não foi diferente (Hb 13:9). É impossível precisarmos que tipo de doutrina associada ao uso de alimentos o autor estivesse falando, mas o contexto do Novo Testamento revela que esse fato não era estranho para os cristãos (Rm 14:1_4; 1ªCo 8:1; Cl 2:21). O certo é que o autor exorta os crentes a firmarem-se na Palavra de Deus para se manterem e não se enredarem para aquilo que era de natureza meramente material, ritual e externa.

2.Valorizar a adoração.

O autor havia falado à exaustão nos capítulos anteriores sobre o sistema de sacrifício levítico. A Nova Aliança tornara totalmente  dispensável tal sistema. Em Cristo, sob a Nova Aliança, os sacrifícios são de outra natureza e acontecem em outra dimensão (Hb 13:15). Louvor, adoração e ação de graça são formas legítimas de sacrifícios na Nova Aliança. O serviço a favor dos santos e a comunhão são também lembrados como uma poderosa forma de adorar a Deus. (Hb 13:16). Adorar não é apenas “cantar”, mas “sacrificar”. Infelizmente, é possível termos muita música e não termos nenhuma adoração.

SUBSÍDIO TEOLÓGICO

“Apegar-se ao ensino sadio do evangelho (13:7_12).

Os próximos três versos devem ser vistos como uma unidade de pensamento, sendo 13:8 a ponte entre 13:7 e 13:9. Jesus Cristo é o enfoque invariável da mensagem do evangelho (13:8), que foi fielmente pregado por seus líderes originais (13:7) e que deve permanecer de acordo com o padrão da verdade, pelo qual todos os ensinos serão julgados (13:9).

       ‘Lembrai-vos (uma ênfase na continuidade na continuidade no tempo presente, isto é, continue lembrando) dos vossos pastores, que vos falaram (no passado, isto é, antigos líderes) a Palavra de Deus’ (13:7). Por três vezes neste capítulo o escritor menciona os líderes espirituais dos leitores (13:7; 17:24). Em todas, é utilizado o termo begoumenoi, que se refere a homens de autoridade em uma posição de liderança. Em 13:7, os leitores devem obedecer aos seus líderes, e em, 13:24, o autor envia suas saudações a todos os líderes; em ambos os versos o autor se refere aos líderes atuais. Em 13:7, porém, são seus antigos líderes que devem ser lembrados. São recordados dois fatos importantes a respeito destes antigos líderes.

1)Proclamaram ‘a palavra de Deus’ (13:7); isto é, eram homens de autoridade espiritual em virtude de se manterem enfocados na Palavra de Deus. É mais provável que a Igreja, que reunia em uma casa, à qual a carta aos Hebreus foi enviada tenha sido fundada como resultado da pregação e do ministério de ensino destes líderes.

2)Eram homens de ‘fé’ (13:7), cuja qualidade de fé e modo de vida exemplar os colocaram ao lado dos heróis da fé, sob a antiga aliança (veja 11:4_38). Sua vida e fidelidade a Cristo eram tão exemplares que o autor agora exorta os leitores a ‘imitarem’ sua fé. Existe mais poder no testemunho de uma pessoa que conhecemos ou vimos do que quando apenas lemos ou ouvimos a seu respeito. A advertência a considerar o resultado de suas vidas também aponta para o seu falecimento; agora a totalidade de sua vida pode ser vista juntamente com o seu triunfo final de fé, na partida para estar com o Senhor”.

CONCLUSÃO

       Vimos que o autor se vale de uma metáfora – a maratona praticada no mundo antigo, para através dela contrastar a grande corrida da fé. Quando alguns crentes davam sinais de cansaço e fadiga espiritual, o autor de Hebreus exortava-os a imitar os grandes campeões da fé. Ninguém vence uma corrida sem que para isso não tenha de se sacrificar. O sofrimento é inevitável, mas o resultado alcançado por aqueles que ousam perseverar é infinitamente recompensador.

Lições Bíblicas – 1º T de 2018. Adulto CPAD – A Supremacia de Cristo – Fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus e o Livro de Apoio das Lições Bíblicas. 

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