Cristãos de Hong Kong denunciam perseguição do governo chinês

Por anos, o reverendo Philip Woo, líder de uma pequena igreja protestante, testou os limites das restritivas leis chinesas sobre religião. De Hong Kong, ele proferia sermões ferozes sobre direitos humanos, conduzia seminários sobre problemas sociais para estudantes vindos da China continental e ordenava pastores em território chinês sem permissão do Partido Comunista.

Por isso, Woo ficou atônito ao ser convocado pela Administração Estatal de Assuntos Religiosos a uma audiência na China continental. Eles dispararam uma lista de leis que Woo havia desrespeitado e ordenaram que ele parasse com as violações.

O reverendo chinês Philip Woo disse ter sido repreendido por suas atividades religiosas

O reverendo chinês Philip Woo disse ter sido repreendido por suas atividades religiosas

A vibrante comunidade cristã de Hong Kong há muito tempo atrai a atenção de visitantes da China continental. Mas com os esforços redobrados do governo do presidente Xi Jinping para restringir a influência do cristianismo no país, as atividades de algumas igrejas de Hong Kong passaram a sofrer escrutínio oficial. “Achávamos que a China estava se tornando mais receptiva à religião”, disse Woo, 61. “Agora tememos que eles estejam se tornando mais rígidos”.

Nas últimas décadas, o Partido Comunista, que é oficialmente ateu, em geral se tornou mais tolerante em relação ao exercício da fé religiosa pessoal. O cristianismo é a religião de mais rápido crescimento na China, com pelo menos 67 milhões de seguidores, boa parte dos quais oram em igrejas independentes ou extraoficiais, muitas vezes com a aquiescência do governo.

No entanto, Xi vem reprimindo indivíduos e grupos que tenham vínculos com estrangeiros. O partido associa o cristianismo a valores ocidentais subversivos, e ao longo de 2014 as autoridades chinesas demoliram igrejas e fecharam escolas cristãs.

Os líderes chineses historicamente demonstraram mais leniência para com Hong Kong, que era um polo para a atuação de missionários cristãos durante o domínio britânico. Agora, o território abriga 850 mil cristãos.

Porém, durante os protestos pela democracia no ano passado, o partido sinalizou sua ansiedade quanto à influência dos cristãos locais que estão levando seus ensinamentos à China continental.

Em março, cerca de cem pessoas da China continental foram proibidas de ir a um encontro de mais de 2.000 cristãos em Hong Kong, de acordo com a China Aid, organização cristã de defesa dos direitos humanos sediada no Texas. Diversas pessoas disseram ter sido alertadas pela polícia de que ir a Hong Kong seria “causar problemas”.

Difundir o evangelho na China continental também pode ser difícil. Os moradores de Hong Kong em muitos casos são tratados como estrangeiros e não têm permissão de estabelecer igrejas, distribuir panfletos, pregar ou difundir seu credo.

O reverendo John Qian, que foi pastor em Hong Kong e dirige programas assistenciais cristãos na China continental, afirmou que as autoridades passaram a monitorar de perto o seu trabalho. Segundo Qian, a polícia disse que ele precisava notificar as autoridades sobre suas visitas a igrejas da China continental. Neste ano, quando ele encomendou crachás e coletes para uma conferência em Hong Kong, o material foi confiscado, afirmou.

Quando Woo foi convocado para uma audiência do outro lado da fronteira, em julho, o que mais parecia incomodar as autoridades era o uso que ele fazia de redes sociais para recrutar estudantes da China continental para seus seminários. Woo assinou uma carta admitindo ter violado uma lei que proíbe estrangeiros de conduzir treinamento religioso sem permissão, e foi em seguida autorizado a voltar para casa.

No mesmo mês, cerca de 10 mil pessoas, a maioria da China continental, participaram da Homecoming, convenção anual de protestantes em Hong Kong.

David Zhang, 21, universitário de Tianjin, disse que a ênfase em ação social e o apelo por trabalho coletivo no combate ao mal o inspiraram. “Quando estamos na igreja em minha terra, costumamos ser mais contidos”, disse.

Zhang declarou acreditar que a sociedade chinesa estivesse começando a aceitar mais a religião, mas que algumas pessoas ainda a percebiam como ameaça, o que levava o governo a reagir com rigor excessivo. “Só podemos orar que nossas ações falem mais alto do que as percepções incorretas”, disse Zhang. 

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1680169-cristaos-de-hong-kong-denunciam-perseguicao-do-governo-chines.shtml

Uma resposta para Cristãos de Hong Kong denunciam perseguição do governo chinês

  1. Encontrei na web outra reportagem associando esta assunto que repasso abaixo

    Cristãos de Hong Kong criticam novas pressões de Pequim

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    Reverendo Philip Woo teme que China esteja piorando questão da liberdade religiosa Foto: LAM YIK FEI / NYT

    Apesar de independências pontuais em relação ao continente, comunidade local teme maior cerceamento de seus direitos

    HONG KONG – Durante anos, o reverendo Philip Woo, líder entusiasmado de uma pequena igreja protestante daqui, tem se encantado em testar os limites das leis restritivas à religião existentes na China. Do seu altar em Hong Kong, ele proferiu sermões ferozes sobre direitos humanos, conduziu seminários sobre problemas sociais para estudantes da China continental e ordenou pastores no continente sem permissão do Partido Comunista, no poder.

    Woo, porém, antigo morador de Hong Kong, ficou surpreso quando, recentemente, foi convocado a atravessar a fronteira e se encontrar com autoridades da Administração de Assuntos Religiosos. Durante o chá, ele foi acusado de violar uma série de leis, recebendo ordens para parar.

    A vibrante comunidade cristã de Hong Kong é um antigo polo de atração para visitantes da China continental. Dezenas de milhares de pessoas cruzam a fronteira todo ano para fazer a escola dominical, seminários e reuniões gigantescas nesta antiga colônia britânica, que desfruta de mais liberdades, incluindo a religiosa, que o resto do país.

    Entretanto, à medida que o governo do presidente, Xi Jinping, tem tomado medidas para limitar a influência do cristianismo no continente, incluindo uma campanha polêmica para derrubar cruzes em partes da China oriental, as atividades de algumas igrejas de Hong Kong passaram a ficar sob análise oficial. A atenção de Pequim aumentou as preocupações aqui sobre a intromissão na autonomia de Hong Kong, motivando críticas de cristãos da cidade.

    “Nós achávamos que a China fosse mais receptiva à religião. Agora, achamos que esteja endurecendo”, disse Woo, de 61 anos.

    Nos últimos meses, autoridades chinesas impediram moradores do continente de participar de conferências religiosas em Hong Kong, aumentaram a supervisão de programas continentais coordenados por pastores de Hong Kong e deram avisos a líderes sem papas na língua como Woo.

    “Muitos pastores estão preocupados. Alguns estão reconsiderando seu trabalho no continente”, disse o reverendo Wu Chi-wai, diretor executivo do Movimento de Renovação da Igreja de Hong Kong, um grupo cristão.

    À medida que um renascimento espiritual varria a China nas últimas décadas, o Partido Comunista, oficialmente ateu, se tornou mais tolerante ao fato de pessoas exercerem sua fé em outros lugares além das igrejas e templos controlados pelo PC. Na China, o cristianismo é uma religião de crescimento veloz, com pelo menos 67 milhões de seguidores, muitos dos quais participam de igrejas independentes, clandestinas ou não oficiais, muitas vezes com o consentimento do governo.

    Todavia, Xi presidiu uma repressão à sociedade civil, com foco em indivíduos e organizações ligadas a estrangeiros, incluindo advogados, grupos sem fins lucrativos e líderes religiosos. Há muito tempo o PC associou o cristianismo a valores ocidentais subversivos, e durante o ano passado, autoridades aceleraram as iniciativas de demolir igrejas, fechar escolas cristãs e remover cruzes.

    Historicamente, os líderes chineses mostram grande tolerância em relação a Hong Kong, que foi um centro para missionários cristãos durante o domínio britânico. Agora, ali existem perto de 850 mil cristãos, 1.500 igrejas, um jornal cristão e uma universidade batista.

    Porém, durante os protestos pró-democracia do ano passado, conhecidos como Revolução do Guarda-Chuva, o PC sinalizou sua ansiedade em relação à influência dos cristãos daqui que levam seus ensinamentos à China continental. Jornais a favor de Pequim destacaram que vários líderes das manifestações eram cristãos.

    Quase 60 por cento das igrejas de Hong Kong estavam envolvidas com trabalho na China continental, como, por exemplo, formação teológica no ano passado, segundo pesquisa do Movimento de Renovação da Igreja de Hong Kong. Contudo, divulgar o evangelho no continente pode ser difícil. Moradores de Hong Kong costumam ser tratados como estrangeiros e não podem abrir igrejas, entregar panfletos, converter nem pregar.

    Embora pastores provocadores como Woo tenham buscado questionar as leis nos últimos anos, vários líderes de igrejas grandes de Hong Kong disseram ter aderido às restrições no continente.

    “Nós vamos à China mostrar interesse pela pátria. Certamente não iremos fazer nada contra o país ou o governo”, disse o reverendo Ho Kwok-tim, chefe da Igreja Vida Nova de Hong Kong.

    O reverendo John Qian, ex-pastor de Hong Kong que ajuda a administrar programas religiosos de caridade na China continental, disse que as autoridades de lá começaram a monitorar mais de perto seu trabalho no ano passado. A polícia lhe disse que ele deve informar suas visitas à igreja continental. E neste ano, quando encomendou crachás e roupas para uma conferência em Hong Kong, o funcionário do continente que cuidou do pedido foi preso e os materiais, confiscados.
    “Isso é uma violação à liberdade de Hong Kong e enfraquece o ‘um país, dois sistemas'”, disse Qian, referindo-se ao termo empregado para descrever a relação entre China e Hong Kong.

    Quando Woo foi convocado à Administração de Assuntos Religiosos, do outro lado da fronteira, na cidade de Shenzhen, em julho, as autoridades pareciam mais incomodadas com seu uso agressivo da mídia social para recrutar estudantes no continente para seus seminários. Ele também foi aconselhado a parar de ensinar estudantes da China continental em Hong Kong.

    Após se reunir com as autoridades, Woo assinou uma carta dizendo que ele violou uma lei chinesa que proíbe a estrangeiros realizar formação religiosa sem permissão e teve permissão de voltar para casa.

    Desde então, Woo viajou ao continente várias vezes sem problemas. Porém, parou de trabalhar com o ramo de sua organização em Shenzhen, Igreja Cristã do Ministério Chinês, e transferiu seu pessoal para um local remoto para evitar a intromissão do governo.

    As autoridades de Shenzhen não quiseram se manifestar.

    Apesar da tensão recente, líderes cristãos disseram não acreditar que a China estivesse aumentando a pressão sobre a religião em Hong Kong e que a situação de Woo era incomum.

    “Os chineses são amistosos com algumas igrejas e não com outras. Eles têm uma lista”, disse o reverendo Lo Lung Kwong, professor de Teologia da Universidade Chinesa de Hong Kong.

    https://oglobo.globo.com/mundo/cristaos-de-hong-kong-criticam-novas-pressoes-de-pequim-17453754

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