O cristianismo diante da cultura pagã

João Sérgio Lauand

Resumo

Este estudo, notas de comunicação oral no “XIV Seminário Internacional Cemoroc: Filosofia e Educação – Religião e Cultura”, apresenta algumas ideias básicas sobre as relações – amistosas ou conflituosas – entre o cristianismo e a cultura e filosofia pagãs.

 

       Superadas algumas discussões internas – sobretudo pela ação do apóstolo Paulo -, o cristianismo apresenta-se como religião universal e não como uma modalidade do judaísmo, que passa a ser entendido apenas como precursor de uma religião nova, voltada para todos os homens e na qual os gentios pesam tanto quanto os judeus. A velha lei judaica foi superada pelo Evangelho e o cristão deve revestir-se de um homem novo em Cristo: já não há grego ou bárbaro; judeu ou gentio; escravo ou livre; homem ou mulher: todos são um em Cristo (cf Cl 3:11 e Gl 3:28).

        O Cristianismo não é uma filosofia, não é um sistema de idéias; é a adesão pessoal pela fé em Cristo como Filho de Deus que se ofereceu em sacrifício para a salvação de todos. Cristo não discute conceitos (aliás, sua pregação nunca é conceitual, mas em parábolas); apresenta-se a Si mesmo como sendo o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14, 6).

       O cristianismo é, pois, uma religião: uma religião de uma cultura desprezada naquele Império com o esplendor da Filosofia e do pensamento grego; com as notáveis instituições romanas. Uma religião de escravos, cujo fundador morreu crucificado. Além do mais, Cristo não escreveu nada e seus apóstolos não eram grande coisa do ponto de vista intelectual.

       Desde muito cedo, desde que começa a haver conversão de homens cultos, surge uma questão – dalgum modo presente em todas as épocas futuras e até hoje – que vai dividir os cristãos: os cristãos estão no mundo, este mundo tem uma cultura feita à margem do cristianismo: “O que deve significar para um cristão a cultura pagã (a literatura, a filosofia etc.)”? “O que fazer com a cultura pagã?”

       Não é necessário ter estudado história para atinar com o fato de que vão surgir correntes antagônicas (e as de caráter intermediário): do horror à cultura pagã que pode contaminar a pureza cristã ao acolhimento dos dados corretos dessa cultura, como ajuda para a compreensão da própria mensagem evangélica. Já no século II encontramos o entusiasmo para com a filosofia grega em um São Justino que afirma que “tudo quanto de verdade se disse pertence aos cristãos” (no sentido de que considera Platão discípulo de Cristo; e Sócrates, mártir do cristianismo) ao desprezo de um Tertuliano: “Que há de comum entre Atenas e Jerusalém; entre a Academia (de Platão) e a Igreja?”

       Os Pais da Igreja (ou Padres da Igreja), os santos escritores dos primeiros séculos do cristianismo (daí seu estudo ser a Patrologia, e sua época, a Patrística) estão divididos: os que julgam positivo o acolhimento do que há de bom na cultura pagã recorrem, entre outras passagens bíblicas, ao primeiro capítulo da Epístola aos Romanos, no qual o apóstolo Paulo sugere um reto uso da atividade racional natural para conhecer a Deus; os que querem rejeitar a erudição mundana (“baste-nos a simplicidade do Evangelho”), esgrimem o mesmo apóstolo Paulo, 1ª Co 1:17-30; 2: 1e ss.:

Texto de Paulo

Porque Cristo enviou-me para evangelizar; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo se não faça vã. Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.
Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, E aniquilarei a
inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?
Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação. Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus.
Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza
de Deus é mais forte do que os homens. Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são. Para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; para que, como está escrito: Aquele que se gloria glorie-se no Senhor. E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor.
A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder; para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. Todavia falamos sabedoria entre os perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que se aniquilam etc. etc.

Transcrevemos esse longo texto para dar uma idéia mais exata do impacto psicológico que ele pode ter causado (e ainda hoje continua causando…) em líderes cristãos centrados no temor: eles vêem tantos perigos que assolam a indefesa alma cristã, que pode facilmente perder o dom da fé e talvez a própria salvação, se não estiver protegida por um cerrado sistema de defesa, que inclui diversas proibições, cuidados etc. É uma proposta de educação cristã que não quer correr riscos: na dúvida, proíbem e vêem o pecado e a ação do demônio por toda parte.

Esse medo inclui também a cultura. Embora não o proíbam explicitamente (causaria muitos problemas para a Igreja) uma determinada igreja, na prática, desaconselha vivamente que seus fiéis cursem uma universidade. Recolho as razões de um crente dessa Igreja em um fórum de discussão:

[…Se é proibido cursar] Faculdade. Me mostre “uma” única publicação [da nossa Igreja] que diz: “É proibido fazer faculdade”. A sociedade [Igreja], ela “não incentiva”… porém, ela não condena, ninguém vai perder seus privilégios por fazer faculdade (privilégios = cargo de ancião, servo ministerial, pioneiro etc) Porque ela não incentiva? Porque sabe que na faculdade o que prospera é um mundo liberal. Não digo todos… mas a maioria é liberal demais. Além disso, vc se verá confrontado com questões tais como: evolução. E será incentivado a buscar riquezas. Isso é justamente o oposto que Jesus pregou… de buscar primeiro o reino. Em resumo… na faculdade vc será bombardeado com incentivo de busca de carreiras, evolução e imoralidade. O cristão precisa estar bem a par dessas situações. Sem contar que provavelmente ele perderá as reuniões [da Igreja]. é por isso que “não” incentivamos.

http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20080625160540AAbeIsf

       Desde o começo, portanto, encontraremos no cristianismo (e algo parecido ocorre com todas as religiões…) dois tipos antagônicos (e toda uma gama de intermediários): o cristão que olha com otimismo para a cultura do mundo e vê nela a própria terra na qual vai germinar a semente do Evangelho; e, no extremo oposto,aquele que vê “o mundo” meramente como perigo e possibilidade de sedução e descaminho. Este se encontra em estado quimicamente puro em Tertuliano, que, curiosamente, sempre de novo aparece citado como se fosse um dos Pais da Igreja, enquanto o maior de todos os pensadores medievais e que acabou por dar à Igreja a forma mais aberta e acertada de pensamento filosófico-teológico, Tomás de Aquino (1225-1274), refere-se a ele simplesmente como um herege: haereticus, Tertullianus nomine.

       Já os títulos de seus livros indicam-nos seu temperamento: “Sobre a Penitência”, “Sobre o uso do véu das Virgens”; “Sobre os enfeites das mulheres”; “Sobre o jejum”, “Exortação à Castidade”; “Sobre os Espetáculos (no qual condena o Teatro)” etc.
Quando caricaturesca mente se fala em discutir o “sexo dos anjos”, é mais uma que devemos a Tertuliano: ele é de opinião que o pecado dos anjos foi um pecado de sexo (daí que, segundo ele, S. Paulo diga que as mulheres têm que usar véu por causa dos anjos 1ª Co 11:10).

       Tertuliano acabou por afastar-se da Igreja quando o Papa Calisto abrandou a disciplina penitencial e decretou que se aceitassem de volta para a Igreja os que tivessem pecado por intemperança. Ao que Tertuliano respondeu: “Este decreto deveria ser afixado não nas igrejas mas nos prostíbulos e antros de prostitutas” Ele clama por mais dias de jejum e proíbe aos cristãos o teatro…

       Há uma velha e perigosíssima tentação rondando o cristianismo, uma tentação que, para muitos, tem até mais pinta de cristã do que o próprio cristianismo: o maniqueísmo. Na caracterização de Jean Lauand, válida para qualquer época:

A palavra “maniqueísmo” é empregada hoje amplamente como indicadora de uma divisão irredutível entre dois setores opostos e excludentes: o do bem e o do mal. Bastaria este enunciado para advertirmos o fascínio reducionista que uma tal simplificação pode exercer sobre espíritos pouco abertos, de modo especial sobre jovens com insuficiente preparação intelectual. Não deixa de ser inquietante, por exemplo, o recente surgimento da gíria: “do bem” (Fulaninho é “do bem”), e seu contraponto: “do mal”. Esta primeira característica do conceito “maniqueísmo” dá conta de alguns aspectos do fanatismo: quer se trate de uma congregação de crentes ou de uma torcida organizada: é o Narciso que acha feio o que não é espelho… Este uso de “maniqueísmo” como dualismo é certamente correto, mas incompleto. Mais importante, talvez, para a compreensão do fanatismo religioso contemporâneo, sejam duas outras notas do conceito de maniqueísmo. 1) A pretensão reducionista de fornecer critérios práticos e operacionais para distinguir e rotular os dois bandos: o do bem e o do mal. 2) E a atribuição de um caráter “do mal” a “o mundo”, como oposto de Deus; reservando-se o caráter “do bem” a um seleto grupo de iluminados, separados, “santos”, que não se contaminam com o mundano.
(http://www.hottopos.com/mirand14/jean.htm)

Maniqueísmo vem de Manes, um antigo líder persa que dividia o mundo em luz (espírito) e trevas (matéria). Há dois princípios positivos dos quais tudo decorre: o do bem (espírito) e o do mal (matéria). Não tardou a que o cristianismo se contaminasse por essa heresia, por assim dizer, permanente: é muito fácil que o cristão pense que o bem é o espírito e o mal a matéria. Foi necessário esperar umTomás de Aquino no século XIII, para que a Igreja tivesse uma antropologia sólida, que valorizasse a matéria omo criação de Deus, como aliás reafirma o próprio Credo (325): “um só Deus”, criador “do céu e da terra”, de todas as coisas “visíveis e invisíveis”… Oferecemos a seguir um par de textos, a título de ilustração: 

Textos de Tertuliano

Pecam, de fato, contra Deus as mulheres que sobrecarregam de cremes a pele, que sujam as faces de vermelho, que alongam os olhos com tinta preta (…) aceitando esses acessórios vindos do artista inimigo, que é o diabo. Realmente, quem incitaria a modificar o corpo senão aquele que transfigurou com a maldade o próprio espírito humano? Vejo algumas de vós que pintam os cabelos com açafrão (…) Coisa ruim, coisa péssima a si mesmas pressagiam com a sua cabeça a cor do fogo do inferno! (…)
Enquanto o Senhor afirma “Quem de entre vós pode tornar preto o cabelo branco ou branco o cabelo preto?” as vemos esforçarem-se por tornar pretos os cabelos brancos e outras que lamentam terem vivido até a velhice e suspiram pelo tempo da juventude em que pecamos. Etc.
(Tertuliano, A moda feminina – Os espetáculos, Lisboa, Verbo, 1974, pp. 60 e ss.).

Tertuliano

As mulheres na visão de Tertuliano – por Aspazia

E o teatro deve ser simplesmente proibido, erradicado:

Proibição dos espetáculos da Sagrada Escritura. Venhamos agora mais ao nosso tratado peculiar de cristãos. Com efeito, a fé de alguns, ou cândida ou esmiuçadora, exige o peso da Sagrada Escritura para assentar esta abstenção das representações teatrais e põe-se em dúvida porque diz que não lhe consta, às claras e nomeadamente, que tal abstenção se deva impor aos fiéis.
De certo que o não encontramos lá, pelo modo como está exarado: – Não matarás, não prestarás culto aos ídolos, não cometerás adultério, não enganarás o próximo – assim aberta e formalmente: Não irás ao circo, nem ao teatro, nem às competições, não irás ver os jogos. 3. Mas o que lá vemos e diz com isto é aquela primeira sentença de David (Sl 1, 1): Feliz o homem que não foi para a assembleia dos ímpios nem foi visto no caminho dos pecadores nem se sentou na cátedra dos grandes trastes.
Pois ainda que pareça estar a profetizar daquele justo que, no conselho e tribunal dos judeus reunidos a deliberar se haviam de matar o Senhor, não quis tomar parte na conjura, – sempre, contudo, a Escritura divina admite certa amplidão onde quer que, segundo a realidade o requerer, 120 se procure afinar a disciplina de forma que neste caso a palavra da Escritura tem a dizer com a abstenção das representações teatrais. Pois se a um punhado de judeus chamou assembleia de ímpios, o que não chamaria a tão grande ajuntamento de pagãos!
São menos ímpios os pagãos, menos pecadores, menos inimigos de Cristo do que o foram, em seu tempo, os judeus?
(Tertuliano, A moda feminina – Os espetáculos, Lisboa, Verbo, 1974, pp. 89 e ss.).

http://www.hottopos.com/rih28/115-120Jslau.pdf

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