Por um avivamento pentecostal

       Desde suas raízes, o movimento evangélico se fortaleceu no calor apologético. No final do século 19, a Alta Crítica junto ao revisionismo das escolas alemãs forçou alguns segmentos mais conservadores e herdeiros do pietismo e puritanismo europeu a buscarem solidificar posições. O fundamentalismo buscou simplesmente resumir o que considerava os pontos inegociáveis da fé cristã. Para ele, a inerrância da Bíblia, o nascimento virginal, a expiação mediante a fé na cruz e a volta triunfal de Cristo para arrebatar a igreja constituíam-se os alicerces da fé.

          Contudo, o fundamentalismo ficou tão hermético e sectário que antes da década de 50 alguns como Carl Henry, fundador da revista “Christianity Today”, e o evangelista Billy Graham perceberam que ele carecia de oxigênio. Pensadores mais ecumênicos e menos intolerantes se uniram para solidificar o Movimento Evangélico, conhecido nos Estados Unidos como “Evangelical Movement” (até então, os “evangelicals” não aceitavam os pentecostais, só recebidos mais tarde, depois que cresceram numericamente e já não podiam ser tratados como seita).

       Nos primeiros anos, os evangélicos eram considerados um segmento “diferente” dos antigos fundamentalistas. Segmento que dialogava com intelectuais e não descartava a cultura como mundana. Assim, o fundamentalismo recrudesceu. Isolado, perdeu representatividade, enquanto os “evangelicais” se tornaram notórios, famosos e ricos.

       O Movimento Evangélico se consolidou no Ocidente como uma forte expressão do protestantismo. Empreendeu grandes projetos missionários, definiu os cânones literários e teológicos na formação de lideranças. Expandiu sua influência pela América Latina; construiu seminários e deu o perfil do que identificou como protestantismo.

            Porém, mesmo nos Estados Unidos, os “evangelicals” nunca abandonaram as raízes fundamentalistas. Na década de 70, consumiram os livros de Francis Schaeffer, procurando dar um ar mais acadêmico ao literalismo hermenêutico, e desde o nascedouro sempre fizeram da teologia sistemática manual obrigatório nos seminários.

          O Movimento Evangélico desejava fazer teologia nas mesmas categorias que a academia secular, com critérios científicos de compreensão de Deus. Com hermenêutica, exegese e estudo das línguas originais, pretendia chegar à verdade objetiva do texto sagrado.

         Os tempos mudaram; paradigmas envelheceram. O mundo percebeu que as lentes racionais da modernidade eram insuficientes para se chegar à “verdade última”. Sem notar, as escolas pós-modernas de compreensão da verdade concordaram com Paulo, quando afirmou que “a letra mata, o espírito vivifica”. Hoje, lê-se para chegar aos afetos, não à exatidão de uma verdade “verdadeira”. O que o Espírito quer falar nas entrelinhas? Talvez seja uma pergunta mais pertinente. Não se busca entender, decodificar ou autenticar uma verdade, mas percebê-la com o coração.

       A cosmovisão pós-moderna não se interessa em discorrer sobre temas como justiça e verdade, mas em como encarná-los. A questão posta não é mais a repetição de dogmas tidos como verdadeiros, mas a integridade com que se vive. Credibilidade e testemunho são expressões em voga. O desafio é adensar o que se pensa com a vida.

       Acontece que o movimento evangélico continua com o paradigma da modernidade. E a modernidade permanece com o “Cogito ergo sum” (Penso, logo existo), já ultrapassado. Nenhum texto é maior que a realidade. Não é preciso cogitar, mas ser. Revertamos em nós mesmos as palavras iniciais do Evangelho de João: “O Verbo se fez carne”. A contrapartida humana consiste em nos fazermos em verbo; tornar nosso discurso a nossa vida e fazer de nossa vida o nosso discurso. Ghandi afirmou: “Devemos ser no mundo a mudança que queremos ver no mundo”.

       Conseguimos pouco, mas urge transformar-nos no que proclamamos e escrevemos. O evangelicalismo nos apresentou a teologia como uma disciplina técnica, que nos ajuda a “entender” com exatidão quem Deus é e como ele se relaciona com os seres humanos. Porém, nenhuma técnica ilumina. O que ilumina é o sentir, o perceber, o vivenciar. Precisamos escalar uma montanha interior, atingir os patamares sensitivos, que vêm do Espírito Santo. Ele é o transmissor da vida que desejamos; ele reveste de virtude. Ele gera testemunhas.

       Hans Burki gostava de repetir a frase “we need to learn the unlearnable” (Precisamos aprender o “inaprendível”). Santo Agostinho afirmava que Deus tem filhos que a igreja não tem. Hoje, depois que muito já observei, acredito poder dizer: Deus tem se revelado a muitos filhos sem precisar de nossas doutrinas. Talvez, o descrédito que o Movimento Evangélico experimenta seja revertido por um novo Pentecoste. Assim espero!

“Soli Deo Gloria”.

• Ricardo Gondim é pastor da Assembleia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas.
http://www.ricardogondim.com.br/

Revista Ultimato Edição nº328 janeiro/fevereiro 2011

Blog Paracleto

“Se há liberdade, ocorre avivamento. Se há rejeição, a revolução social acontece.”

“Parece que os avivamentos continuam até hoje, desde que homens e mulheres se coloquem nas Mãos do Altíssimo. O Vento do Espírito Santos sopra onde quer. Resta saber se o Brasil está pronto para presenciar um avivamento sustentável e transformador. Acho que entendemos que avivamentos trazem sinais e profecias, com certa perda de controle de seus efeitos e uma surpresa estonteante que Deus foi Misericordioso mais uma vez entre os homens.

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2 respostas para Por um avivamento pentecostal

  1. Quando os despertamentos espirituais nas igrejas enfraquecem, passa-se a considerar a conversão como um ritual religioso e um ato voluntário do homem ao invés do convencimento do Espírito Santo (Jo 16:8). Dessa forma, a regeneração espiritual não acontece, e o que se vê são meras formalidades de adequação a normas religiosas expressas nas mais variadas formas, mas nenhuma vida espiritual foi gerada; o que aconteceu foi apenas uma pequena reforma, agregando crentes frios e apáticos que não se aprofundam nas verdades do evangelho e não vivem a vida de Cristo. O que aguça a necessidade da regeneração no incrédulo é a pregação bíblica profunda e verdadeira, sem rodeios nem acalento ao pecado, como bem afirma Packer:

    #Se não pregarmos sobre o pecado e o juízo divino contra o pecado, não poderemos apresentar Cristo, o Salvador do pecado e da ira de Deus. E, se silenciarmos sobre tais coisas, pregando um Cristo que tão-somente salva os homens de si mesmos e das tristezas deste mundo, já não estaremos pregando o Cristo da Bíblia. De fato, estaremos dando um falso testemunho e pregando um falso Cristo. Nossa mensagem será “outro evangelho” (Gl 1:8). Esse tipo de pregação poderá aliviar a alguns, mas não conseguirá ajudar a ninguém; pois um Cristo que não é reconhecido nem buscado como Aquele que salva do pecado também não pode salvar as pessoas de si mesmas e nem de qualquer outra coisa […]. Essa abordagem de minimização apenas nos leva a lidar com meias verdades a respeito da salvação; e uma meia-verdade, exposta como se fosse a verdade toda, é uma mentira completa.#

    Uma pregação assim tem o poder de “atirar uma flecha que atinge em cheio em cheio o coração do pecador até que se dobre em agonia, clamando pelo perdão divinos”. É necessário que aqueles que pregam a Palavra de Deus preocupem-se também em gerar, no coração dos ouvintes, os meios necessários à regeneração.
    Existe uma diferença entre conversão e regeneração. Esta é a ação divina criando um novo ser, um novo homem, um novo coração, uma nova criação (2ªCr 5:7), que nos torna filhos de Deus eternamente(Jo 1:12_13) e que nos faz passar da morte para a vida (Jo 5:24); já a conversão é a resposta humana à regeneração no processo de salvação, que é voltar-se e render-se inteiramente à operação do Espírito Santo. A regeneração é um milagre operado por Deus na natureza humana que é incompreensível à mente natural (Jo 3:3,7), e o Espírito Santo é o operador dessa transformação, fazendo em nós um renovo no coração que, antes apático para as coisas de Deus, agora se volta com toda a vitalidade e força para Deus e para as coisas que são espirituais.
    A lei e a moral são consequência do pecado; por isso, são temporais e precárias. Essa fragilidade precisa ser suplantada pela regeneração que inicia um processo de gravar no coração humano a realidade do Reino de Deus através do Evangelho de Cristo (Ez 11:9 _20). “Este é o concerto que farei com eles depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei as minhas leis em seu coração e as escreverei em seus entendimentos” (Hb 10:16). A regeneração é independente de qualquer condição prévia moral, intelectual ou religiosa: não é o bom, ou o sábio, ou o piedoso quem está destinado à regeneração, mas aqueles que são faltos de todas as qualidades e estão certos de serem inaceitáveis, mas que creem na obra salvadora de Cristo.
    A regeneração é um processo instantâneo que acontece pela “lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3:5), dando início ao crescimento e maturidade espiritual, que é a santificação – essa, sim, é um processo contínuo em que nos tornamos as pessoas que Deus projetou que fôssemos (Rm 8:28_30).

    A Obra da Salvação – Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida – Livro de Apoio das Lições Bíblicas do 4ºT 2017 Adulto CPAD

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  2. Um avivamento faz coisas surpreendentes

    Em poucas palavras, avivamento é o sopro de Deus para tirar a poeira acumulada no decurso dos anos, no período variável de tempo compreendido entre o avivamento anterior e o momento atual. Não importa a quantidade nem a qualidade da poeira. É uma obra de Deus, periódica e poderosa, que ele realiza quando e onde quer. Essa manifestação surpreendente de Deus recoloca a igreja em seu primeiro amor, produz convicção e confissão de pecado, desejo sério de santificação pessoal, renovação das certezas da fé e do entusiasmo que elas criam, renúncia da soberba e da autossuficiência, anseio por Deus e prazer de ler com proveito a Palavra e de orar ao Senhor. O avivamento leva a igreja a redescobrir a pessoa e a obra do Espírito Santo, sem o qual nunca será possível vencer a pecaminosidade latente, a pressão do mundo e a força das potestades do ar.

    Mesmo podendo ter um teor místico acentuado, avivamento é bem mais do que isso. É o motor de coisas novas, de realizações extraordinárias e de certa duração, na área de devoção, de educação religiosa, de evangelização e missões, e de socorro ao sofrimento humano. Forçosamente, o avivamento gera preocupação com os não-alcançados pela pregação do evangelho, os não-salvos pela graça de Deus e os moralmente marginalizados (os publicanos e as meretrizes de antigamente). A história mostra que esse sopro especial do Espírito induz os crentes a fazerem obras de caridade e a levantarem a voz contra a injustiça social, seja ela qual for e custe o preço que custar.

    Problemas sérios como a escravidão, o alcoolismo, a delinquência juvenil e a licenciosidade levaram as igrejas a organizar sociedades dispostas a trabalhar com esses segmentos. As pregações de Charles Finney, líder mor do Segundo Grande Avivamento, têm muito a ver com os fortes sentimentos antiescravistas que tomaram conta dos crentes do norte e do centro-oeste dos Estados Unidos. Os textos escritos por Theodore Weld (“A Bíblia contra a Escravidão” e “A Escravidão como Ela É”) e o famoso livro de Harriet Beecher Stowe (“A Cabana do Pai Tomás”) são subprodutos do ministério de Finney.

    Graças ao Primeiro Grande Avivamento (1725-1760) e ao Segundo (meados do século seguinte), muitas escolas, universidades e seminários cristãos foram fundados nos Estados Unidos. Por volta de 1880, havia 142 seminários no país, quase todos no lado leste, sendo 26 presbiterianos, 22 batistas, 21 católicos, 17 episcopais, 16 luteranos, 14 metodistas, 11 congregacionais, 3 reformados, e 12 outros. Entre as universidades estão as de Princeton, Pensilvânia, Rutgers, Brown e Dartmouth. Por meio dessas instituições de ensino, o espírito de avivamento era transmitido a muitos jovens. Charles Dodge, um dos três teólogos mais famosos do século 19, por exemplo, converteu-se por ocasião de um avivamento na Universidade de Princeton (1815).

    Como a ligação entre avivamento e missões é muito estreita, muitos jovens tornaram-se missionários. Em 70 anos de história (1812-1882), o Seminário de Princeton formou 3.464 rapazes em 150 cursos diferentes. Destes, 204 foram para os campos missionários, entre eles Ashbel Green Simonton, fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil. Todos os primeiros missionários da Junta Americana de Comissionados para Missões Estrangeiras, fundada em 1810, são frutos do avivamento. Entre eles estão Hiran Binghan, missionário no Havaí; Adoniram Judson, missionário e tradutor da Bíblia na Birmânia (hoje Myanmar); Luther Rice, missionário na Índia; e Jonas King, missionário na Palestina e, depois, na Grécia. Pelo menos quarenta estudantes convertidos na Universidade de Rochester, no estado de Nova York, tornaram-se pastores e missionários. Entre as dezenas de sociedades missionárias surgidas como resultado do Segundo Grande Avivamento está a histórica Sociedade Bíblica Americana (1816). No avivamento ocorrido na Universidade de Yale, no Connecticut, em 1831, o jornalista Horace Bushnell (1802-1876) teve uma profunda experiência de conversão e, aos 29 anos, trocou o curso de direito pela teologia, tornando-se um pastor congregacional e teólogo notável.

    O avivamento é um tempo propício para conversões. Segundo Bruce Shelley, em 3 anos (1740- 1742), o Primeiro Grande Avivamento acrescentou cerca de 50 mil membros só às igrejas da Nova Inglaterra. Entre 1750 e 1760 formaram-se 150 novas comunidades eclesiásticas, sem falar na contínua proliferação dos batistas. Williston Walker, da Universidade de Yale, acrescenta que, por intermédio dos reavivamentos, das organizações missionárias e das sociedades voluntárias, denominações outrora sem grande expressão vieram a se destacar. Os metodistas, de 15 mil membros em 1784, passaram a mais de 1 milhão em menos de 70 anos. Na primeira metade do século 19, os batistas aumentaram oito vezes. Só em Rochester, no estado de Nova York, 100 mil pessoas tornaram-se membros de alguma igreja. Naturalmente nem todas as conversões são autênticas e o número diminui com o tempo. Enquanto em alguns lugares o índice de permanência era de 80%, em outros baixava para 30%.

    O avivamento faz coisas surpreendentes. Ele altera, sem previsão, o rumo de pessoas, igrejas e países! Mark A. Noll, professor de pensamento cristão em Wheaton, em seu livro “The Old Religion in a New World” (2002), escreve que “o reavivamento promovido por protestantes evangelicais não foi apenas a ação mais importante da vida religiosa americana, mas também, depois dos eventos que formaram a nova nação, o acontecimento público mais importante que qualquer outro”.

    http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/317/um-avivamento-faz-coisas-surpreendentes

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