Os desafios que confrontam a Igreja Evangélica

O PERIGO DA VITÓRIA E DA DERROTA

Pv 24:16

“Porque sete vezes cairá o justo e se levantará; mas os ímpios tropeçarão no mal.”

        Muitos cristãos têm abraçado a filosofia da vitória a qualquer preço. O que quer que eu precise fazer para me tornar vitorioso deve ser permitido. Então, as pessoas que ilustram esse tipo de triunfo desfilam diante de nós até ficarmos envergonhados de quaisquer derrotas que possamos ter na vida. De acordo com os especialistas, a vida é uma longa sucessão de conquistas.

      O problema é que ninguém jamais experimentou uma vida de vitória absoluta, sem qualquer derrota, exceto o próprio Senhor. Até mesmo a expectativa do êxito, às vezes, pode criar um espírito de fracasso em nosso coração. Esse é um dos perigos que ameaçam os espiritualmente letárgicos, e ninguém parece estar advertindo quanto a isso. Sem conhecer os seus perigos, muitas pessoas já adoraram avidamente diante do altar da vitória.

       Permita apenas que eu mencione o seguinte: a vitória pode nos corromper, e a derrota pode nos destruir.

O PERIGO DA VITÓRIA

        A vitória, certamente, é um dos objetivos da vida cristã, mas que definição dela, temos usado? Lutamos para desfrutá-la, entretanto, quem nos diz o que realmente significa ser um vencedor? Precisamos examinar diligentemente as Escrituras para descobrir como Deus delineia uma vida cristã vitoriosa, para então nos comprometermos alcança-la. Qualquer outra definição é inaceitável ao cristão. Por ser isso demasiadamente importante, não devemos entender mal o seu significado.

       Permita-me dizer que há quem pense que uma vida cristã vitoriosa está isenta de quaisquer problemas, dificuldades ou derrotas. Na realidade, o contrário é verdadeiro. Ser vencedor consiste em derrotar os inimigos e as situações com as quais nos deparamos no caminho a cada dia ou momento. É por isso que a Palavra de Deus diz: Porque sete vezes cairá o justo (Pv 24:16a). Nós, às vezes, abraçamos a ideia de que um justo jamais cai. Assim sendo, enfrentamos o perigo da prepotência.

       A arrogância é o pecado que se segue ao sucesso. Já vi alguns comprarem o seu estilo de vida, dominando a todos. Tinham dinheiro para pagar, por isso a empregada, o jardineiro e todos os demais se tornaram seus escravos.

       Certa vez, liguei para um pregador famoso a fim de convidá-lo para ministrar em nossa igreja. Não consegui sequer falar com ele. A secretária informou que ele estava ocupado e não podia me atender. Isso aconteceu há muitos anos, e eu não sei se, após tanto tempo, ele falaria ou não comigo, em virtude de uma atitude condescendente à minha idade avançada. Deus sempre nos exortará por esse tipo de comportamento, Ele jamais permitirá que você tenha uma atitude intolerante com relação a alguém, se você for cristão. O Senhor o ama demais para deixá-lo agir assim impunemente. A arrogância sucede à vitória.

       Nosso Senhor entrou pelas portas de Jerusalém em um domingo. “Ele era filho de um carpinteiro” pensaram eles. Não fora educado em escolas, não conhecia nem usava os jargões dos corredores acadêmicos. Jesus falava a linguagem simples das ruas e dos povoados.

       Enquanto andava sobre o jumentinho pelas ruas de Jerusalém, com todo o povo aclamando e bradando Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas! (Mt 21:9b), o Mestre poderia muito bem ter nutrido pensamentos de sucesso e vitória. Aquele teria sido o momento perfeito para que ele, de repente, pensasse: “Talvez o diabo tivesse razão. Eu poderia ser o rei do mundo. Meus amigos que queriam que eu fosse rei talvez estivessem certos quanto a isso”.

       É sempre uma grande tentação permitir que suas vitórias assumam proporções exageradas e lhe deem uma ideia errônea de quem você realmente é. Cuide-se quando sua reputação for celebrada. É fácil demais acreditar no que as pessoas estão dizendo a seu respeito. Jesus não permitiu que qualquer tipo de sucesso O desviasse de Seu propósito. Ele sabia em que direção estava indo e manteve-se nesse caminho. Atente-se caso você venha a estabelecer-se, sendo aceito em sua área de atuação como alguém vitorioso e bem-sucedido. Quando isso acontece, pode ser muito perigoso. Se sobrevierem reconhecimentos acerca de sua vida cristã, tome cuidado.

       A mesma multidão que disse: “Hosana!” bradou: “Seja crucificado!”. Tenha isso em mente. O grande político de hoje poderá estar na cadeia amanhã. A multidão que o acha digno de aclamação hoje poderá lhe dar as costas amanhã.

O PERIGO DA DERROTA OU DO FRACASSO

       O perigo da derrota é oposto ao da vitória. Você se lembra da famosa batalha que Israel travou diante de Jericó e de como as muralhas caíram? O povo de Deus se tornou autoconfiante demais, achando-se responsável pela própria vitória, então, partiu para Ai. Ele levou apenas alguns milhares de soldados, pensando: “Ah, olhem só o que Israel fez a Jericó!”, quando tudo o que havia feito fora gritar e tocar as buzinas de chifre de carneiro. Deus fizera tudo, mas o povo achava que o tinha realizado.

       Os israelitas devem ter imaginado que o ar das buzinas derrubara as muralhas. Na batalha seguinte, pensaram; “Ah, venceremos a cidade de Ai. Será fácil”. Eles se vangloriaram arrogantemente: “Estamos com tudo agora, nada faz mais sucesso do que o nosso próprio sucesso, por isso tomaremos Ai da mesma forma que fizemos com Jericó”. Então saíram com o peito estufado e cabeça erguida, mas logo tiveram de fugir vergonhosamente do povo de Ai, perdendo valiosos 35 mil soldados. Sua derrota sucedeu à sua vitória, do mesmo modo que os efeitos às causas.

      O perigo é que a vitória faz crescer um espírito arrogante dentro de nós, fazendo-nos pensar que somos invencíveis. Então, o inevitável acontece; de repente mergulhamos no fracasso, o que gera um espírito de desânimo, o qual, muitas vezes, leva, ao abatimento. A velha expressão shakespeariana “ele não tem estômago para isso” indica que uma pessoa não tem disposição para determinado trabalho, já que pode ser desagradável a ela. A perda de resistência, ou o desânimo, pode se comparar a alguém doente que perdeu completamente o apetite.

      No Reino de Deus, uma ou duas derrotas e alguns reveses, muitas vezes, podem nos levar ao ponto de não termos mais estômago para nada. Oramos, mas estamos indispostos, não há mais prazer nessa prática. Vamos à igreja, porém não tiramos qualquer proveito disso. Nada tem significado para nós. Os hinos parecem sem graça e insípidos, os sermões são enfadonhos. Tudo parece desenxabido porque perdemos o entusiasmo. Estamos abatidos e desanimados.

      Muitos dos escolhidos de Deus já experimentaram isso. Eles não perderam a vida eterna, ou mudaram seu relacionamento com o Pai, ainda são seus filhos. Cristo continua intercedendo por eles à destra do Pai. O Céu ainda é o seu lar, mas perderam, momentaneamente, o estômago. Eles não têm apetite. Foram derrotados, e, por isso, o fracasso tomou conta deles. Já fui a igrejas nas quais era perceptível que ninguém esperava que algo pudesse acontecer, e o resultado disso, é claro, é o que se poderia esperar… Nada.

       Existe um perigo real na derrota. Suponha que alguém escorregasse em uma calçada coberta de gelo, vindo a cair e dissesse: “Acho que não adianta tentar de novo”. Então, após finalmente ter conseguido erguer-se, andaria por mais um quarteirão, cairia novamente e diria: “Há algo de errado com o meu equilíbrio, terei de aceitar o fato de que jamais conseguirei ficar de pé novamente”. Em algum momento, é evidente que ele teria de ir para casa. Essa é uma atitude derrotista, ou seja, quando permitimos que um fracasso implante um retrocesso permanente em nosso coração.

       Certa vez, enquanto participava de uma conferência, deparei-me com um jovem pregador, sentado ao pé da porta principal. Era um rapaz forte e robusto, mas, naquela manhã, estava visivelmente cabisbaixo. Tentei conversar, brincar um pouco, mas ele não reagiu. Não sorriu nem respondeu. Disse apenas: “Sr Tozer, algo terrível me aconteceu”.

       Eu perguntei:

      -Qual é o problema? O que aconteceu?

      -Acabo de fazer a minha prova de ordenação e fui reprovado – disse ele. – Fui reprovado no exame, e, agora, eles não querem me ordenar.

       Eu sabia o que aquele jovem estava passando, e ele corria o risco de desenvolver um espírito de derrotismo.

       Então, procurei encorajá-lo e mudar um pouco o seu estado de espírito.

       -Abraham Lincoln foi derrotado duas vezes antes de ser eleito. Se Deus o chamou, vá até a sua junta examinadora e descubra no que você errou. Compre alguns livros, estude e peça uma nova chance.

       Ele levantou o rosto e perguntou:

       –É isso que o Senhor sugere?

       Eu respondi:

       É claro! Não se deixe derrotar por isso. O Senhor o escolheu e não revogará o seu chamado por causa de algumas questões que você não soube responder. Estude, descubra qual foi o problema, supere-se, aprenda, ore e peça que o Altíssimo o ajude. Da próxima vez você vai passar.

       Foi exatamente isso que aconteceu. Ele se tornou um jovem pastor bem-sucedido, e tudo ficou bem. Entretanto, se alguém não o tivesse encorajado, aquele poderia ter sido o fim do seu ministério. Provavelmente, ele teria entrado em seu carro, ido para casa e pensado: “Não adianta. Deus me abandonou, o Espírito Santo me desamparou, e eu não sei o suficiente para passar no exame”.

      Suponha que você ore por algo, não o receba, e pareça óbvio que não o receberá. Não permita que isso acabe com as suas forças. Talvez, o seu viver não esteja procedendo com retidão e ore de forma egoísta, ou ainda, tenha compreendido mal a vontade de Deus. Examine as Escrituras, acerte-se com o Senhor, entregando-lhe a chance de trabalhar em você e, só então, tente novamente. Desse modo, o Senhor lhe fará aguardar ou dirá que você está orando pela motivação errada, instruindo-o a orar por algo, o qual lhe concederá. Ainda é possível que Ele lhe entregue aquilo pelo qual você orava desde o início. De qualquer modo, não fique derrotado. 

REGRAS PARA VIVER UMA VITÓRIA OU UMA DERROTA

        Eu já treinei a mim mesmo, por meio da Palavra de Deus e da oração, a jamais olhar para o que acontece dessa maneira. Preciso permanecer ao lado de Deus, junto à ressurreição e á vitória, e assim viver. Permita que eu enumere quatro regras que o ajudarão a passar por uma vitória ou uma derrota.

NÃO CONFIE EM UM CORAÇÃO DESANIMADO

         Jamais confie em um coração quando você está se sentindo desanimado ou quando acaba de conquistar uma grande vitória. Se tiver acabado de sofrer uma derrota horrível, simplesmente aquiete o seu coração e não tome decisão alguma. Lembre-se de que isto passará.

       Sendo cristão, o Espírito Santo habita em você. Ele não o rejeitou. Se todos acreditam que você não é tão bom assim no que faz, se a sua voz não é tão gloriosa como gostaria que fosse, se o seu intelecto e a sua sabedoria, quem sabe, não são tão exemplares o quanto gostaria, ou, ainda, se souberam da sua derrota e a espalharam a todos, entristecendo-o, deixe que pensem o que quiserem a seu respeito.

       Um coração desiludido sempre exagera. Não confie em um espírito desanimado, pois ele jamais lhe dará um panorama real sobre você ou a sua situação.

 ADIE QUALQUER TOMADA DE DECISÃO IMEDIATA

        Muito pouco precisa ser decidido imediatamente. Dê tempo a você mesmo. Não há qualquer pastor que em algum momento já não tenha escrito sua carta de resignação em um sábado e, então, após receber a benção no domingo, tenha acabado por rasga-la. Não renuncie nem desista de algo quando estiver desanimado. Sentindo-se deprimido e triste, não tome qualquer atitude.

       Quantos, em momentos de profundo desânimo, já não se resignaram, desistiram, decidiram-se e tiveram de se arrepender por isso pelo resto da vida. Outros já passaram pelo vale do desânimo e perseveraram até saírem dele e entrarem na maravilhosa luz do deleite divino.

       Toda decisão que tomamos para o Senhor tem seu momento certo. Tomar atitudes prematuramente, às vezes, significa perder a benção de Deus. Então, quando você estiver no topo do mundo e disser: Posso todas as coisas naquele que me fortalece (Fp 4:13), tome a sua decisão. 

REFLITA SOBRE O SEU RELACIONAMENTO COM DEUS

        Independente da sua vitória ou derrota, o seu relacionamento com Deus não muda. Você não é menos amado por Deus quando fracassa do que quando é bem-sucedido.

       O convívio com os outros pode mudar, dependendo do seu status de vitória ou derrota, mas não é assim com o Senhor. Posso suportar a desconfiança dos meus amigos, mas não conseguirei aguentar o mesmo de Deus. À medida que examino as Escrituras, descubro, para o meu deleite, que o Todo-Poderoso me tem em altíssima estima. Embora cometa erros e tropece, ainda sou filho do Deus vivo. Ele olha para mim com um sorriso radiante de graça e misericórdia. Eu sou a menina de seus olhos afetuosos.

 SATURE-SE DAS PROMESSAS DE DEUS

        Passar um tempo a sós com Deus, mantendo a sua Bíblia aberta, pode transformar um coração triste e cheio de derrota em alegre, por causa das imutáveis promessas do Senhor. A Palavra de Deus não muda conforme nossos sucessos ou nossas derrotas. O Senhor é a sua rocha, a sua fortaleza, o seu Libertador, o seu Escudo, a sua Força e a sua Torre forte. Ele enviou desde o alto a Sua mão, segurando-o, e o retirou das muitas águas. Livrou-o de seu inimigo e dos que o aborreciam. O Altíssimo o transportou para um lugar espaçoso e o guardou, porque tem prazer em você (Sl 18:16_19).

 NÓS ESTAMOS DO LADO DE DEUS

        Existe um versículo que eu amo: Porque tu acenderás a minha candeia; o SENHOR, meu Deus, alumiará as minhas trevas (Sl 18:28). Talvez a pequena chama tenha se extinguido. Mesmo assim, Deus a reacenderá para nós. Ele a inflamará e alumiará as nossas trevas. Creia nisso.

       O Senhor é o nosso Refúgio, e nós não deixaremos a vitória nos corromper nem permitiremos que a derrota nos desanime. Seguiremos adiante, permaneceremos acima de tudo isso, alegres em Deus, pois estamos vencendo, quer percebamos isso ou não; essa é a prerrogativa daqueles que vivem pela fé.

 

ON TO VICTORY

[AVANTE PARA A VITÓRIA]

Elisha A. Hoffman1

 

Cristãos, coloquem a armadura

Há uma vitória a ser ganha

Para o Senhor, para o Senhor

Tomem o capacete, o escudo e a espada

E avancem para a batalha

Munidos de Sua Palavra.

 

Desfraldem a Sua bandeira,

Arvorem-na sobre a Terra,

Proclamem a Sua verdade

Até que todas as nações

Reconheçam que Ele é o Rei

Por toda a Eternidade.

 

Quando findar a peleja,

E alcançarmos nossa vitória,

Os conflitos hão de cessar

E, em sua celeste morada,

A Igreja será coroada

De eterna e divina glória.

 

Será um momento de gozo,

Nossas línguas se encherão de louvor

Cada vez mais, cada vez mais

Ao contemplarmos o nosso Senhor

Por toda a eternidade.

Prossigamos para a vitória

 

Com Jesus, nosso General,

Com Jesus, nosso General

Prossigamos para a vitória,

Uma vitória gloriosa e final.

1Elisha Albright Hoffman (1839-1929), nascido na Pensilvânia (EUA), foi um pastor presbiteriano que compôs mais de dos mil hinos. Filho de ministro evangélico, cresceu cantando hinos sacros, tanto na igreja quanto em seu lar. Fonte: Wikipédia.

Os Perigos de uma Fé Superficial – Desperte da letargia espiritual

A.W.Tozer

Graça Editorial .

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