BIOGRAFIA – Martinho Lutero

Castelo Forte é um hino de 1529, composto por Martinho Lutero no período em que  esteve exilado no castelo de Wartburg(*). Martinho inspirou-se no salmo 46, no qual o salmista afirma: Deus é nosso refúgio e fortaleza.

Castelo Forte tornou-se o hino que simboliza a Reforma Protestante e é cantado na maioria de nossas igrejas. O hino também simboliza a batalha espiritual na busca por uma vida mais consagrada. Muitas versões deste hino foram gravadas e é possível ouvi-las no Youtube, tanto as versões antigas quanto as versões modernas.

(*)=Entre 1521 e 1522 o reformador Martinho Lutero, como “Junker Jörg”, se escondeu neste castelo, tendo traduzido durante esse período o Novo Testamento para alemão em apenas 11 semanas.

 

Soli Deo Gloria.

Nasceu na cidade Eisleben, em 10 de Novembro de 1483. Preocupado com a salvação, o jovem Martinho Lutero decidiu tornar-se monge. Durante seu estudo, sempre o acompanhava a pergunta: “Como posso conseguir o amor e o perdão de Deus?” Lutero foi descobrindo ao longo dos seus estudos que para ganhar o perdão de Deus ninguém precisava castigar-se ou fazer boas obras, mas somente ter fé em Deus. Com isso, ele não estava inventando uma doutrina, mas retomando pensamentos bíblicos importantes que estavam à margem da vida da igreja naquele momento. Veio de uma família humilde, seus pais Hans Luther e sua mãe Margarete Ziegler Luther eram camponeses. Teve uma próspera carreira acadêmica: foi ordenado sacerdote em 1507 entrando na ordem agostiniana, estudou filosofia na Universidade de Erfurt, doutorou-se em teologia e lecionou como professor em Wittemberg. Também recebeu o grau de mestre em artes.

No dia 13 de junho de 1525, Martinho Lutero se casou com aex-freira Catarina von Bora. A grande família vivia no antigo mosteiro agostiniano — o casal teve seis filhos — com crianças adotadas, parentes, empregados e estudantes. Em 1546 Lutero foi chamado a Eisleben, sua cidade natal, para terminar uma disputa sobre herança e ali terminou também a sua vida: no dia 18 de fevereiro morria Lutero, que foi sepultado três dias depois em Wittenberg — na igreja em que, quase três décadas antes, ele havia afixado suas famosas teses.

 

Lutero decidiu tornar públicas essas idéias e elaborou 95 teses, reunindo o mais importante de sua (re)descoberta teológica, e fixou-as na porta da igreja do castelo de Wittenberg, no dia 31 de outubro de 1517. Ele pretendia abrir um debate para uma avaliação interna da Igreja, pois acreditava que a Igreja precisava ser renovada a partir do Evangelho de Jesus Cristo.

Em pouco tempo toda a Alemanha tomou conhecimento do conteúdo dessas teses e elas espalharam-se também pelo resto da Europa. Embora tivesse sido pressionado de muitas formas – excomungado e cassado – para abandonar suas idéias e os seus escritos, Lutero manteve suas convicções. Suas idéias atingiram rapidamente o povo e essa divulgação foi facilitada pelo recém inventado sistema de impressão de textos em série.

O Movimento da Reforma espalhou-se pela Europa. Em 1530 os líderes protestantes escreveram a “Confissão de Augsburgo“, resumindo os elementos doutrinários fundamentais do luteranismo.

O NÚCLEO DA TEOLOGIA DE LUTERO EM TRÊS OPÚSCULOS

       Para conseguir a adesão das massas populares, o monge agostiniano escreveu, em 1520, três opúsculos, nos quais expunha, de forma clara e eficaz, os elementos essenciais de sua teologia e explicava suas implicações mais imediatas no que se referia a estrutura da Igreja e ao significado dos sacramentos e das boas obras. Os títulos dos três celebérrimos opúsculos, reconhecidos universalmente como os três principais escritos da Reforma, são: À nobreza cristã da nação alemã, A Liberdade cristã, O cativeiro babilônico da Igreja.

       No primeiro escrito, À nobreza cristã da nação alemã (Na den christlichen Adel deutscher nation), Lutero lança-se violentamente contra as três muralhas com as quais Roma se fortificou para exercer um controle seguro sobre toda a cristandade: a submissão do poder secular, a interpretação autêntica da escritura, o direito de convocar o concílio ecumênico. “Os romanistas”, escreve Lutero, “com grande habilidade ergueram em torno de si três muralhas, atrás das quais se defenderam de modo que até agora ninguém pode reformá-los, e com isso a cristandade decaiu horrivelmente. Em primeiro lugar, quando se tentou constrangê-los com o poder secular, estabeleceram e proclamaram que a autoridade secular não tinha nenhum direito sobre eles e que , ao contrário, o poder espiritual era superior ao temporal. Em segundo lugar, tentou-se golpeá-los com a Sagrada Escritura, mas replicaram que interpretar a Sagrada Escritura é competência somente do Papa e de nenhum outro. Em terceiro lugar, procurou-se ameaçá-los com um Concílio, mas inventaram que ninguém pode convocar o Concílio a não ser o Papa. Assim subtraíram traiçoeiramente todas as três varas e permaneceram impunes e, defendidos pelas três firmes muralhas, fazem toda sorte de patifarias e maldades que estamos vendo”.

       Segundo Lutero, todas as três muralhas são inconsistentes. A última não se sustenta porque “a tese segundo a qual somente o Papa pode convocar ou confirmar um concílio não tem nenhum fundamento na Escritura; isto exige somente nas leis deles”. A segunda muralha não se sustenta “porque (os teólogos romanistas) não podem aduzir nem uma sílaba sequer para demonstrar que só o Papa pode explicar a Escritura ou confirmar a interpretação dela; eles se reservaram este poder por conta própria”. Também a primeira muralha não tem fundamento: “de fato, sendo as autoridades terrenas batizadas como nós, devemos admitir que tanto bispos como sacerdotes considerem seu ministério como pertencente e útil à comunidade cristã”.

       Depois de ter demolido as três muralhas, como os eclesiásticos não se importassem com a reforma da cristandade, Lutero dirige um insistente apelo aos príncipes alemães para que se encarreguem de levá-la a termo: avoquem a si todo o poder sobre as dioceses, as igreja, o clero e os fiéis, constituam na Alemanha uma igreja nacional independente, declarem abolidos o direito canônico, os impostos romanos, o celibato eclesiástico, as missas pelos defuntos, as peregrinações, as indulgências, as confrarias e as festas, com exceção dos domingos.

       No opúsculo a liberdade cristã (de libertate Christiana) Lutero apresenta um ótima síntese da doutrina sobre a justificação, antecipada aliás, no comentário à epístola aos Gálatas. A justificação, segundo ele, não depende da observância da Lei (esta observância, na verdade é impossível), nem das boas obras, mas somente da confiança na misericórdia de Deus. A Lei serve para mostrar a nossa fraqueza e para atirar-nos no desespero; mas este é o ponto crítico de onde se desenvolve a confiança em Deus. Daqui a importância capital que o evangelho assume nesta concepção da salvação: “Nem no céu, nem na Terra existe para a alma coisa alguma em que viver e ser justa, livre e cristã, senão o santo Evangelho, a Palavra de Deus pregada por Cristo. (…)Sabemos então que a alma pode prescindir de tudo, menos da Palavra de Deus. Fora dela nada existe com que auxiliar a alma. Uma vez, porém, que a alma possua a Palavra de Deus, de nada mais necessitará, pois na Palavra de Deus encontrará suficiente alimento, alegria, paz, luz, conhecimento, justiça, verdade, sabedoria, liberdade e toda sorte de bens em abundância. Mas como é que, havendo a Sagrada Escritura prescrita tantas leis, mandamentos, obras e ritos, somente a fé pode justificar o homem sem necessidade de tudo aquilo, e, mais ainda, pode conceder-lhe tais benefícios? A esse respeito dever-se-á ter bem em conta, sem jamais esquecer, que só a fé, sem obras, justifica, liberta e redime. Uma vez que o homem tenha visto e reconhecido, pelos mandamentos, sua própria insuficiência, será acometido de temor, pensando em como satisfazer as exigências da Lei, já que é mister cumpri-la, sob pena de condenação; e sentir-se-á humilhado e aniquilado, sem encontrar em seu interior algo com que justificar-se. É então que a outra palavra, a promessa divina, intervém e diz: ‘Desejas cumprir os mandamentos e ver-te livre da cobiça má e do pecado, como os mandamentos exigem? Crê em Cristo, nele te prometo graça, justificação, paz e liberdade plenas. Se crês já as possuis, mas se não crês, nada tens”. Porque tudo aquilo que jamais conseguirias com as obras dos mandamentos, que são muitas, sem nenhuma valha, conseguirás facilmente por meio da fé. Vemos assim que a fé é suficiente ao cristão, sem que precise de boa obra alguma para ser justo. De onde se deduz que se não tem necessidade de nenhuma boa obra, é porque também já estás desligado de todo o mandamento ou lei; e se não está desligado disto, será por conseguinte livre.

       Eis a liberdade cristã: “ela está na fé única, que não nos converte em ociosos ou maldosa, antes, em homens que não necessitam de obra alguma para obter a justificação e a salvação”.

       No terceiro opúsculo, de 1520, O Cativeiro babilônico da Igreja (De captate babyblonica ecclesiae), Lutero desenvolve as principais consequências eclesiológicas da sua nova concepção da justificação: sendo esta operada direta, imediata e exclusivamente por Deus, todas as estruturas que na igreja de Roma eram destinadas a mediar à salvação não têm mais razão de ser. Por isso, nada de Papa, nada de bispos, de santos, de relíquias, de indulgências, etc. Também dos sete sacramentos somente dois merecem ser conservados: o batismo e a ceia do Senhor. Sua função, porém não é causar a salvação, como ensinava a Igreja de Roma, mas somente significá-la. Por isso sublinha Lutero, o que é mais importante tanto no batismo como na ceia, não são as cerimônias, mas as palavras com as quais se anuncia a promessa salvífica de Deus.

       “No batismo deve-se observar antes de tudo a promessa divina: “Aquele que crer e for batizado será salvo”. Esta promessa é infinitamente mais importante do que todas as pompas das obras, os votos, as cerimônias religiosas e tudo o que os homens introduziram no sacramento. De fato, a nossa salvação depende totalmente da promessa de Deus: devemos observá-la, acendendo a nossa fé nela sem duvidarmos, depois do batismo, de que seremos salvos. Se essa fé não arder e for pronta, o batismo não servirá para nada, será, antes, prejudicial, não só no momento em que é recebido, como também por toda a vida”.

       Também na Ceia o que é mais importante é a palavra do Senhor: “Para se chegar com segurança a compreender livre e plenamente a natureza deste sacramento, é necessário antes de tudo que, fazendo abstração de todas as exterioridades acrescentadas pela devoção e pelo fervor dos homens à primitiva e simples instituição do sacramento, tais como os paramentos sagrados, os ornamentos, os cânticos, as orações, o órgão, as velas e toda a pompa das coisas visíveis, dirijamos os olhos para a pura e simples instituição de Cristo. Não nos proponhamos nenhuma outra coisa senão as próprias palavras com as quais Cristo instituiu, realizou e nos recomendou o sacramento. Pois a força, a natureza e toda a substância da missa estão nas palavras de Cristo e não em outra coisa”.

       Como se pode ver bem destas palavras, Lutero condenou todas as deformações e incrustações que se tinham introduzido na administração dos sacramentos.

       Hoje qualquer criança que se prepare para a primeira eucaristia é logo instruída nessas coisas e sabe que a essência dos dois sacramentos consiste nas palavras de Jesus: “Eu te batizo em nome…” e “Isto é o meu corpo… este é o cálice do meu sangue…”.

       Em 1520 deu-se a ruptura definitiva de Lutero com Roma. Nos primeiros meses do ano a Cúria já tinha concluído o processo contra o reformador. Na bula “Exurge Domine” (15 de junho de 1520), foram condenadas 41 teses de Lutero, em parte como heréticas, em parte como falsas e escandalosas; foi ordenada a destruição dos seus escritos, e tanto ele como os seus seguidores foram ameaçados com a excomunhão, caso não se submetessem dentro de sessenta dias. Mas às decisões de Roma Lutero respondeu violentamente com o escrito “Contra bula do Anticristo” e selou publicamente a sua rebelião contra Roma, queimando a bula de excomunhão na Praça de Wittenberg.

       No ano seguinte (1521) Lutero foi convocado pelo imperador Carlos V para a dieta de Worms. Munido de um salvo-conduto, o reformador apresentou-se em Worms no dia 17 de abril e compareceu à dieta no mesmo dia. Convidado a retratar-se, pediu tempo para refletir, mas no dia seguinte declarou que a sua consciência não lhe permita retratar-se enquanto não lhe fossem apresentadas provas escriturísticas; afirmou também que o Papa e os concílios podiam enganar-se e concluiu com as palavras solenes do juramento: “Assim Deus me ajude! Amém”. Foram estas as suas últimas palavras em relação a uma sua possível reconciliação com Roma.

       Banido pelo edito de Worms do imperador Carlos V, foi acolhido no castelo de Wartburg pelo príncipe Frederico da Saxônia e, colocando-se sobre a sua proteção, traduziu para o dialeto saxão, que depois se tornou a língua nacional alemã, primeiro o Novo testamento e depois toda a Bíblia.

       As duas concepções da salvação e da Igreja eram antitéticas: a de Roma baseava-se na substancial bondade da natureza, na colaboração do homem e em uma vasta participação de intermediários (sacerdotes, sacramentos, santos, orações, indulgências, etc.); a de Lutero apoiava-se na total corrupção da natureza humana, na impossibilidade de qualquer cooperação e, por isso, na inutilidade de qualquer forma de mediação.

       Não encontrando lugar na Igreja de Roma, Lutero fundou uma nova igreja, à qual procurou dar o caráter universal da primeira, mas não teve êxito. E assim, em vez da suspirada reforma, o que se viu foi uma trágica divisão.

Em 1546, no dia 18 de fevereiro, aos 62 anos, Martinho Lutero faleceu. Finalmente, em 1555, o Imperador reconheceu que haviam duas diferentes confissões na Alemanha: a Católica e a Luterana.

Bibliografia

Diversos

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2 respostas para BIOGRAFIA – Martinho Lutero

  1. Inocêncio XI e Lutero

    Inocêncio XI

    No último quartel do século 17, o papa Inocêncio XI (de setembro de 1676 a agosto de 1689) cunhou a frase “Cartusia nunquam reformata, quia nunquam deformata”, que literalmente significa “A cartuxa não precisa de reforma, porque nunca se deforma”. Ele se referia ao conservadorismo da ordem religiosa fundada por São Bruno em 1084.
    Lutero (1483–1546) não pensava assim. Para ele, “ecclesia reformata semper reformanda est”, isto é, “igreja reformada tem de ser constantemente reformada”.
    Entende-se por Reforma o movimento permanente na igreja para restaurar a energia e a espiritualidade eventualmente reduzidas ou perdidas por causa da fragilidade dos seus membros. A reforma de uma igreja oferece a oportunidade ímpar para se rever qualquer desvio não só de comportamento, mas também de ordem dogmática (Conversas com Lutero — História e pensamento, p. 98). Da Redação

    http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/367/inocencio-xi-e-lutero

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  2. Lutero – do analfabetismo bíblico à Bíblia na língua do povo

    Por Paulo Teixeira

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    Quando Lutero nasceu, em 1483, Johannes Gutenberg já havia inventado sua prensa com tipos móveis. Por volta de 1456, Gutenberg imprimiu a primeira tiragem de um livro usando a nova tecnologia na cidade de Mainz, na Alemanha. Escolheu imprimir a tradução latina da Bíblia – a Vulgata.

    A produção do livro, antes lenta e custosa, levada a cabo pelos copistas, nunca mais seria a mesma. Mas muitos outros desafios precisariam ser superados, principalmente o analfabetismo, tanto em termos de domínio da leitura quanto da produção de conteúdo compreensível e relevante para todas as camadas da população.

    Lutero nasceu neste contexto. Durante a sua vida, percorreu um longo caminho, do analfabetismo bíblico à tradução da Bíblia na língua do povo.

    Lutero, as letras e as Sagradas Letras

    Embora Lutero mencione o apreço pelas Fábulas de Esopo, aprendidas na escola, é possível que ele nunca tenha tocado num livro quando criança. Os livros eram raros e caros demais naquela época.

    O pequeno Lutero aprendeu a ler cedo. Seu pai, Hans, um mineiro de pouca formação, viu no filho o futuro sustento da família. Por ordem do pai, Lutero iniciou o curso de Direito, frequentando as aulas por pouco mais de um mês.

    Certo dia, enquanto viajava, viu-se em meio a uma tempestade. Temendo por sua vida, fez um voto a Sant´Ana de que se tornaria monge.

    Duvidava do amor de Deus e temia o inferno. Talvez a disciplina do mosteiro lhe desse os méritos necessários para entrar no céu.

    Na tentativa de fazer Lutero descobrir a verdade, seu superior, Johann von Staupitz, ordenou que ele se tornasse Professor de Bíblia na recém-fundada Universidade de Wittenberg, uma escola aberta ao novo.

    Lutero comenta que não havia visto uma Bíblia até aos 20 anos. Nela, descobriu em passagens como Rm 1.17 o sentido evangélico da justitia Dei. Após estudar a Palavra, percebeu que a justiça que Deus requer de nós, ele cobra de Cristo – nosso Substituto, e nos presenteia em Cristo – nosso Salvador.

    Convencido pela Escritura da salvação por graça, por meio de Cristo, em 31 de outubro de 1517, Lutero divulga 95 teses, escritas a mão, em Latim, em Wittenberg. Conforme a tradição, estas teses foram pregadas na porta da Igreja do Castelo, chamando interessados à discussão sobre a virtude das indulgências – uma espécie de certificado vendido pela Igreja outorgando o perdão a quem o adquirisse.

    Não demorou muito para que as teses, inicialmente manuscritas, passassem a ser replicadas em oficinas tipográficas, começando a ser disseminadas com rapidez. O seu conteúdo rompe fronteiras.

    Lutero depara-se com a formidável invenção de Gutenberg. Impressores começam a buscar Lutero por mais escritos. Lutero já escrevia antes, para consumo pessoal. Após 1517 passa a fazê-lo visando à publicação.

    Entre 1517 e 1520, produziu 22 obras, alcançando mais de 300 mil exemplares. Tal marca seria inatingível na era dos copistas em tão curto espaço de tempo.

    Mas publicar Lutero era um desafio e tanto para os impressores. Além da caligrafia instável, Lutero mescla latim, grego, hebraico e dialetos alemães em seus manuscritos.

    Mas compensava publicar Lutero, pois ele tinha a coragem de registrar o “novo”. E o “novo” era aquilo que vendia, pois encantava humanistas, desafiava teólogos e chacoalhava o status quo.

    Mas o “novo” de Lutero ainda precisava chegar às pessoas simples.

    Lutero e seu testamento literário

    Após sua condenação em Worms, refugiado como cavaleiro George no castelo de Wartburg, Lutero iniciou a tradução do Novo Testamento em dezembro de 1521.

    A Bíblia, no todo ou em parte, já havia sido traduzida para alguns dialetos germânicos, várias delas registradas em um ou pouquíssimos exemplares, geralmente manuscritos. Sua posse e consulta era restrita a uma elite ou nobreza local.

    A partir de uma edição tipográfica do Novo Testamento Grego de Erasmo (1516), Lutero pôs-se a traduzir o texto para o dialeto alemão que melhor dominava. Em 11 semanas, concluiu o rascunho. O Novo Testamento foi publicado em setembro de 1522.

    Era uma edição primorosa, ilustrada com xilogravuras de Hans Schautelein e outros. Lutero decidiu incluir as ilustrações para “chamar pequenos e grandes para ouvirem a voz do Bom Pastor”.

    O Novo Testamento custava o equivalente ao salário pago a uma pessoa simples por uma semana de trabalho. Vendeu 5 mil exemplares em 2 meses, e mais de 100 mil exemplares durante a vida de Lutero. Um dos objetivos da Reforma começava a cumprir-se: o livre acesso à Palavra de Deus.

    Lutero queria que as Escrituras soassem do jeito que as pessoas simples falavam. Ao traduzir o Antigo Testamento Lutero comentou: “traduzir adequadamente é exprimir o sentido de uma língua estrangeira em seu próprio idioma. Procuro traduzir como as pessoas falam no mercado. Ao traduzir Moisés, eu o torno tão alemão que ninguém suspeitaria que ele foi um judeu.” Este e outros princípios de tradução foram resumidos por Lutero em uma Carta Aberta, escrita em Coburg, em 1530. Estes princípios ainda hoje norteiam a tradução da Bíblia.

    Lutero submeteu sua tradução do Novo Testamento a um grupo de estudiosos, entre os quais estavam Felipe Melanchthon, Johannes Bugenhagen, Justus Jonas, Cruciger, Aurogallus e Rörer. Este grupo também cooperou com Lutero na tradução do Antigo Testamento, que levou 12 anos para ser concluída. O Antigo Testamento foi publicado em quatro volumes, um por vez.

    Lutero esforçou-se a compreender os assuntos em profundidade. Ao traduzir Levítico, pediu que o açougueiro abrisse uma ovelha para que ele estudasse as diferentes partes do animal.

    A edição completa da Bíblia, incluindo os livros deuterocanônicos – que Lutero posicionou entre os Testamentos –, saiu em 1534, do prelo de Hans Luft, impressor em Wittenberg. Esta edição é considerada a obra-prima literária e tipográfica da Alemanha do século 16.

    Até pouco antes de sua morte, em fevereiro de 1546, Lutero continuou revisando e aperfeiçoando sua tradução. Deixou um volume impressionante de textos, escritos para os mais diversos públicos. Mas já no fim da vida, declarou: “Gostaria que todos os meus livros fossem destruídos para que somente a Bíblia fosse lida com todo zelo e cuidado.” Considerava a Bíblia o seu testamento.

    Ainda hoje a tradução de Lutero, já revisada várias vezes, é publicada, sendo a mais apreciada em língua alemã. Sua última revisão foi lançada em outubro de 2016 e está disponível em formato impresso e digital.

    Refletindo sobre tradução da Bíblia, Lutero comentou: “Se Deus quisesse que eu morresse pensando ser um sujeito inteligente, ele não me teria dado o trabalho de traduzir a Bíblia.”

    • Paulo Teixeira é teólogo e linguista, especialista em Língua e Literatura Hebraica e secretário de Tradução e Publicações da SBB.

    http://www.ultimato.com.br/conteudo/lutero-do-analfabetismo-biblico-a-biblia-na-lingua-do-povo

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